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Mostrando postagens de Abril, 2011

Silenciofobia

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"Num mundo em que as juras não tem nenhum valor, em que fazer um juramento nada significa, em que as promessas são feitas para serem quebradas, seria agradável ver as palavras de volta ao poder."
(Chuck Palahniuk)

As noites mais felizes da infância eram aquelas em que faltava luz. Ficávamos na cozinha ouvindo o estalar dos pinhões na chapa do fogão à lenha, à luz de velas ou de um velho lampião de meu pai. Minha mãe sempre dizia: "é tão bom quando falta luz, nós conversamos". Quando a energia voltava e podíamos enxergar melhor nossas próprias caras de alegria, era constrangedor e cada um voltava para seu lugar, sua televisão ou seu aparelho de som. Com vergonha de ter demonstrado que não era tão independente, vergonha de ter sentido a falta uns dos outros tanto assim. Voltávamos todos para nossos barulhos favoritos.

Imagino como deve ter sido um tempo em que ouvir uma música ou uma apresentação musical era algo esperado por toda a semana ou todo o mês. Vestiam a me…

Carta de MÁRIO QUINTANA a um POETA

Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ram…

Bendito Nelson Rodrigues

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"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Meu livro de cabeceira tem sido, há muitos anos, A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues. Alguns têm a Bíblia, outros, Guerra e Paz, eu possuo este, que leio como lêem os crentes os "Salmos de Davi" e digo os mesmos "améns", a cada nova leitura, mais maravilhada.

Todas as noites quando o abro penso que Nelson Rodrigues já disse tudo e muitos não sabem. Para quê tanto escrevemos, para quem falamos, ele já disse tudo. Tentam nos enganar com opiniões aparentemente novas, que, mal sabemos, já eram velhíssimas opiniões do maldito Nelson.

Lia, dia desses, um novo e polêmico escritor tentando balançar as estruturas – perdoem-me a expressão, mas era isto que o jovem escritor tent…

A ponte para as formigas

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Um dependente químico ou adicto é um doente muito antes de usar qualquer droga. As primeiras que experimenta são os próprios sentimentos. Embriaga-se de autopiedade ou ilusões de superioridade já na infância, culpando outros e o mundo por suas dores. Usar alguma substância conhecida como "droga" é consequência natural. Parar com elas, depois de anos de inferno para si e sua família, é um passo. Parar de intoxicar-se com sentimentos doentes, esse sim, o problemão.

Serei piegas e provavelmente emocional, já aviso, porque criticar escritores que não conheço, falhas alheias e ver à distância a pimenta ardendo no olho dos outros é moleza. Faço aqui um mea-culpa, porque eu também tenho um passado escabroso.


Meu início foi como o da maioria dos dependentes. Álcool, inalantes aos quinze anos, anfetaminas (na minha época eram Hipofagin e Inibex). Promessas de "nunca usarei tal droga" sempre quebradas, um avanço lento mas progressivo em quantidade e potência. Meu organismo po…