Bendito Nelson Rodrigues

Andrea Trompczynski
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
Nelson Rodrigues

Meu livro de cabeceira tem sido, há muitos anos, A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues. Alguns têm a Bíblia, outros, Guerra e Paz, eu possuo este, que leio como lêem os crentes os "Salmos de Davi" e digo os mesmos "améns", a cada nova leitura, mais maravilhada.

Todas as noites quando o abro penso que Nelson Rodrigues já disse tudo e muitos não sabem. Para quê tanto escrevemos, para quem falamos, ele já disse tudo. Tentam nos enganar com opiniões aparentemente novas, que, mal sabemos, já eram velhíssimas opiniões do maldito Nelson.

Lia, dia desses, um novo e polêmico escritor tentando balançar as estruturas – perdoem-me a expressão, mas era isto que o jovem escritor tentava fazer, tentava balançar as estruturas – dizendo que as virtudes deveriam ser dissimuladas, que era deselegante as expor. Ah, opinião velha do Nelson, que afirmava os íntegros estarem a toda hora nos atropelando com sua integridade e que não havia uma bondade sem impudor: era preciso escondê-la como a um crime, a virtude nem aos padres de confessionário se deve dizer.

O Arnaldo Jabor, então, coitado. Suga o cadáver de Nelson Rodrigues quando fala do palavrão e de muitos outros assuntos. Nelson já falou, Jabor. Nelson já disse que o palavrão é a doença infantil dos adultos e contou da menina que morreu, e a mãe, que poderia ter rezado, poderia ter gemido, poderia ter chorado, mas se esganiçou em palavras pornográficas, numa época em que o cinema de Jabor ainda não havia feito do palavrão um lugar-comum.

Gritamos contra o racismo, e volta e meia estão as notícias nos jornais, das coisas que, aqui e ali, acontecem sobre este assunto. Mas Nelson percebia e falava naquela época: "Onde estão os negros do Itamaraty? Procurei em vão um negro de casaca ou uma negra de vestido de baile. O Itamaraty é uma paisagem sem negros." Saímos a procurar psicólogos e educadores para pôr rédeas em filhos que a cada dia mais dominam os pais, e Nelson já sabia: "Aquela mãe era capaz de dar razão à surra que tomou do filho. Ela existe aos milhares, existe aos milhões, em todas as terras e em todos os idiomas. É a própria família que atira pela janela todos os seus valores". E seguimos achando bonito as crianças que metem a mão na cara da mãe, do pai, dos avós: "a bofetada da garotinha estalou na cara materna. – Coitadinha, coitadinha!, tias se arremessavam. A menina passou de colo em colo. Numa das vezes chutou o seio de uma tia; meteu a mão na cara da seguinte; e, na imediata, cuspiu na boca. Foi um horror."

Os jovens pensadores e críticos de hoje – ah, os jovens, eis minha "flor de obsessão", aquilo que, segundo Nelson, repetimos à exaustão – dizem que ele era um imoral, um revolucionário, um pornográfico. Soubessem eles que Nelson era um conservador – um conservador! –, que se chocava com coisas tais como a educação sexual nas escolas e com a moda de estarem saindo os padres sem batina a fazerem passeatas, dizia ser um horror a Igreja estar indo "para a frente". E, uma vez, indignou-se por ver artistas segurando cartazes escritos muerte, onde, além de traírem a própria língua, traíam também o humanismo, do qual todo artista deveria ser escravo.

Perguntará um idiota da objetividade: "que é a cabra vadia?". Eu respondo: Nelson descobriu, depois de 42 anos de jornalismo, que todas as entrevistas eram iguais. Mudava, apenas, o tipo do nariz ou do terno do entrevistado. Mas fosse o assunto uma batalha de confete ou Hiroshima, as respostas eram as mesmas. Nunca eles diriam o que realmente pensavam ou sentiam, valia o cinismo gigantesco e a inflexão. Fosse um Zé Mané ou um Bismarck e daria no mesmo. E ele as fez às dezenas, às centenas, às milhares. Descobriu, então: somente numa entrevista imaginária, num terreno baldio, em presença de uma cabra vadia, o entrevistado falaria o que realmente sentia. E assim foi com D. Hélder Câmara, Antônio Callado, políticos, artistas, inimigos ferrenhos, amigos queridos, todos, mortos ou vivos, de quem ele gostaria de ouvir a verdade. Esta é a história da cabra vadia.
Ah, leitor, confesso, eu mesma já comi do cadáver de Nelson Rodrigues. Toda vez que falo dos intelectuais, chupo-lhe o sangue, porque foi ele quem viu primeiro, numa passeata, uma placa num espaço reservado para vinte mil, escrita, acima de qualquer dúvida ou sofisma "intelectuais". Pensava Raul Brandão, que o acompanhava na data: "puxa, tudo isto é intelectual?". Ali estavam, provando que o Brasil tinha uma grande massa de intelligentsia, eram romancistas, críticos culturais, dramaturgos, sociólogos, poetas. Quase se podia chorar de tão bonito. Mas, "engraçado", diz Nelson, "temos tanta inteligência" aqui e até hoje "somos invisíveis para a Academia Sueca". Ganham Prêmio Nobel todo o mundo, menos o Brasil, o Brasil não existe para a Suécia.

Mas, Nelson não era só cinismo e crítica. Em A Cabra Vadia há também os textos que ele escreveu quando morreu o irmão, Mário Filho. Ele se ofusca para apresentar no irmão toda a virtude, a beleza, a bondade: "se ele aparecesse com um passarinho em cada ombro, eu não me admiraria nada, nada." Encontra toda a arte do mundo no texto jornalístico-esportivo do irmão "havia, no seu texto, uma visão inesperada do futebol e do craque, um tratamento lírico, dramático e humorístico que ninguém usara antes. Posso dizer que, desde então, ninguém influiu mais na imprensa brasileira."

Já que nada mais há a ser dito, copiemos o Nelson Rodrigues. Iremos repetir vezes sem fim tudo o que ele já disse, porque nada mais há a fazer. Torço por isso: que sejamos todos um pouco Nelson Rodrigues.

A Resposta
Como Nelson respondia a uma crítica? Com outra crítica? Não, com uma peça inteira! Escreveu Viúva, porém honesta, uma "farsa irreponsável" em três atos, apenas para criar uma personagem representando um crítico de teatro, já que estava furioso com os comentários feitos para sua peça Perdoa-me por me traíres:

– Mas que tipo de função teria Dorothy Dalton, com esse nome de cinema mudo?
– Só vendo. Vem cá, Dorothy Dalton, chega aqui.
– O que é que você sabe fazer? Antes de ir para o SAM [espécie de FEBEM da época] o que é que você fazia?
– Raspava pernas de passarinho a canivete!
– Já sei! Crítico de teatro! Não é escrito e escarrado o crítico teatral da nova geração?
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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros. 

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