segunda-feira, novembro 17, 2025

𝗔 𝗧𝗥𝗔𝗝𝗘𝗧Ó𝗥𝗜𝗔 𝗗𝗘 𝗔𝗚𝗢𝗦𝗧𝗜𝗡𝗛𝗢 𝗕𝗔𝗟𝗠𝗘𝗦 𝗢𝗗Í𝗦𝗜𝗢 𝗘 𝗔 𝗜𝗚𝗥𝗘𝗝𝗔 𝗠𝗔𝗧𝗥𝗜𝗭 𝗗𝗘 𝗕𝗘𝗟𝗔 𝗖𝗥𝗨𝗭

Igreja de N. S. da Conceição (Bela Cruz, Ceará)

Há artistas cuja biografia parece, ela mesma, uma obra em permanente modelagem. Agostinho Balmes Odísio, nascido em 1881, na Via Carena, em Turim, é um desses raros criadores que viveram entre o desenho e o desígnio, entre a forma e o destino. Filho de Pedro Odisio e Maria Balmes Odisio, trouxe consigo, desde cedo, a intuição de que a arte não é apenas oficio — é travessia. Turim, com seus ventos alpinos e a espiritualidade salesiana de Dom Bosco, ofereceu-lhe o primeiro molde: disciplinado, sensível, atento ao detalhe e ao sagrado.

 

Formado na Escola Profissional Domingos Sávio, dos Salesianos, Odísio absorveu um rigor técnico que mais tarde seria a espinha dorsal de sua obra. O jovem que tocava em uma banda de sessenta músicos — premiada no 1º Oratório Festivo — descobria ali a harmonia que mais tarde transporia para mármores, argamassas e fachadas. A música, de algum modo, o adestrou para a escuta silenciosa da matéria.

 

Sua potência criadora manifestou-se precocemente também no teatro. As peças que escreveu, as óperas que encenou, o drama “Capital o Trarai” e a comédia “Il Médico”, revelam um temperamento inquieto que buscava compreender o humano em sua teatralidade íntima. A arte, para ele, era um contínuo diálogo entre gesto e símbolo.

 

No entanto, foi na escultura — especialmente a sacra — que encontrou seu verdadeiro continente. O mármore, sob suas mãos, deixava de ser mineral para tornar-se presença. A delicadeza do sagrado, que muitos tratam com distância, ele tratava com proximidade: santos, anjos, medalhões e bustos emergiam de seu cinzel como se tivessem sido apenas despertados.

 

Sua formação nas Escolas de Belas Artes de Turim e Roma consolidou esse talento. E o ano de 1912 foi decisivo: ao esculpir o busto de Vittorino Emanuele II, no Palazzo Venezia, conquista o primeiro lugar numa competitiva mostra e a cobiçada bolsa de estudos em Paris. Esse episódio representou mais que um prêmio — simbolizou sua entrada definitiva no concerto internacional da arte.

 

Em Paris, tornar-se discípulo de Auguste Rodin foi o acontecimento que moldou o resto de sua vida profissional. Rodin, autor de O Pensador, era o grande oráculo da escultura moderna. Dele, Odísio herdou o dinamismo do gesto, o relevo emocional, a carne espiritualizada da pedra. Não foi mera influência: foi iniciação.

 

Quando retornou a Turim, já não era o mesmo. Seu estúdio, então bastante reconhecido, tornara-se laboratório de um artista em plena ascensão. Mas o destino — sempre um arquiteto invisível — abriu-lhe outra rota: o Brasil. Em 1913, ao emigrar, não chegou à planejada Argentina; aportou em Santos e dali iniciou uma jornada imprevisível.

 

Minas Gerais foi sua primeira morada afetiva. Ali conheceu a jovem Dosolina Frateschi, filha de italianos, com quem se casou. A vida emocional ancorou o artista, e o país, antes acidental, tornou-se escolha. Durante duas décadas, espalhou obras por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas: bustos, altares, fachadas, cruzeiros, monumentos. Sua marca — discreta, pois raramente assinava — se espalhou silenciosa como uma constelação subterrânea.

 

Em 1934, debilitado pela saúde, procura o Ceará, onde o clima lhe era recomendável. E é nesse momento que o Nordeste passa a ser seu grande ateliê. Juazeiro do Norte, então terra de intensas pulsações religiosas, acolhe-o como se reconhecesse nele um escultor de almas.

 

A partir daí, Odísio transforma o Ceará em território artístico: Acaraú, Bela Cruz, Sobral, Tianguá, Canindé, Granja, Itapipoca, Várzea Alegre, Quixadá, Viçosa — dezenas de cidades recebem suas esculturas, suas reformas de igrejas, suas praças redesenhadas. A vastidão de sua atuação torna difícil mapear sua obra; a ausência de assinatura, talvez por humildade, talvez por despretensão, multiplica o enigma.

 

Apesar da amplitude, uma obra se destaca como ponto culminante: a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Bela Cruz. Mais que um templo, ela é a síntese do artista; sua última obra concluída; a moldura final de uma trajetória iniciada nos Alpes e encerrada à beira do Acaraú.

 

A Matriz de Bela Cruz é, antes de tudo, um manifesto arquitetônico. Sua fachada, marcada pela verticalidade elegante e pela disposição harmoniosa dos ornamentos, dialoga com o ecletismo europeu, mas transfigura-o em linguagem sertaneja. Odísio parece ter compreendido a luz particular do Ceará e a incorporado ao projeto — tudo ali respira claridade.

 

Os volumes da fachada revelam um escultor que projeta como quem modela. Há um jogo de cheios e vazios que remete à escola rodiniana, mas suavizado pela espiritualidade das igrejas italianas do Piemonte. O frontão, as pilastras e os nichos não são enfeites: são pausas, como em música, que estabelecem ritmos na leitura visual.

 

No interior, a manipulação do espaço litúrgico é igualmente precisa. O altar-mor, concebido com atenção ao simbolismo católico, não é apenas peça devocional: funciona como centro gravitacional da arquitetura. O espaço inteiro converge para ele, como se o artista quisesse que cada fiel experimentasse, ao entrar, um reencontro com o sagrado.

 

Escultor antes de tudo, Odísio não deixou de imprimir sua marca nos detalhes ornamentais. Os relevos discretos e a sutileza das linhas denotam sua mão experiente. Cada curva parece sussurrar o segredo de uma vida inteira dedicada ao silêncio da pedra.

 

A Matriz de Bela Cruz é também um capítulo da identidade regional. Ao inserir no Ceará um templo com vocação europeia, porém adaptado aos ventos e à luz nordestinos, Odísio realiza algo raro: uma síntese civilizatória. A igreja não europeíza o sertão; o sertão não dilui o europeu. Ambos se elevam, reconciliados.

 

Curiosamente, sua última obra concluída é também sua obra mais simbólica. O artista que viajou do Piemonte ao Cariri, do ateliê parisiense ao altar sertanejo, encerra sua história num templo dedicado à Conceição — imagem da pureza, da luz, da origem. Sua vida circular retorna ao princípio.

 

Após Bela Cruz, a saúde já não lhe permitiu novos empreendimentos.  Deixou diários e memórias, entre as quais destaca-se “Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero”. Como ensaísta, recebeu prêmio pelo artigo “A Fisionomia da Pedra”, título que resume seu próprio destino: revelar a alma oculta na matéria bruta.

 

Quando faleceu, em 29 de agosto de 1948, o Brasil perdeu não apenas um escultor, mas um dos raros artistas que transitaram com naturalidade entre três tradições — a italiana, a francesa e a nordestina. Sua obra, espalhada como sementes, permanece em altares e praças que talvez nem saibam quem lhes deu forma.

 

Revisitar a Igreja Matriz de Bela Cruz é, portanto, revisitar o próprio Odísio. Ali se encontram sua técnica turinesa, sua sensibilidade rodiniana, sua fé salesiana, sua experiência brasileira e seu silêncio final. É um templo que não apenas abriga o sagrado — é ele próprio uma oração em pedra, última assinatura de um artista que preferia não assinar.

 

 

Vicente Freitas Liot                   

 

 

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