Há artistas cuja biografia
parece, ela mesma, uma obra em permanente modelagem. Agostinho Balmes Odísio,
nascido em 1881, na Via Carena, em Turim, é um desses raros criadores que
viveram entre o desenho e o desígnio, entre a forma e o destino. Filho de Pedro
Odisio e Maria Balmes Odisio, trouxe consigo, desde cedo, a intuição de que a
arte não é apenas oficio — é travessia. Turim, com seus ventos alpinos e a
espiritualidade salesiana de Dom Bosco, ofereceu-lhe o primeiro molde:
disciplinado, sensível, atento ao detalhe e ao sagrado.
Igreja de N. S. da Conceição (Bela Cruz, Ceará)
Formado na Escola Profissional
Domingos Sávio, dos Salesianos, Odísio absorveu um rigor técnico que mais tarde
seria a espinha dorsal de sua obra. O jovem que tocava em uma banda de sessenta
músicos — premiada no 1º Oratório Festivo — descobria ali a harmonia que mais
tarde transporia para mármores, argamassas e fachadas. A música, de algum modo,
o adestrou para a escuta silenciosa da matéria.
Sua potência criadora
manifestou-se precocemente também no teatro. As peças que escreveu, as óperas
que encenou, o drama “Capital o Trarai” e a comédia “Il Médico”, revelam um
temperamento inquieto que buscava compreender o humano em sua teatralidade
íntima. A arte, para ele, era um contínuo diálogo entre gesto e símbolo.
No entanto, foi na escultura —
especialmente a sacra — que encontrou seu verdadeiro continente. O mármore, sob
suas mãos, deixava de ser mineral para tornar-se presença. A delicadeza do
sagrado, que muitos tratam com distância, ele tratava com proximidade: santos,
anjos, medalhões e bustos emergiam de seu cinzel como se tivessem sido apenas
despertados.
Sua formação nas Escolas de Belas
Artes de Turim e Roma consolidou esse talento. E o ano de 1912 foi decisivo: ao
esculpir o busto de Vittorino Emanuele II, no Palazzo Venezia, conquista o
primeiro lugar numa competitiva mostra e a cobiçada bolsa de estudos em Paris.
Esse episódio representou mais que um prêmio — simbolizou sua entrada
definitiva no concerto internacional da arte.
Em Paris, tornar-se discípulo de
Auguste Rodin foi o acontecimento que moldou o resto de sua vida profissional.
Rodin, autor de O Pensador, era o grande oráculo da escultura moderna. Dele,
Odísio herdou o dinamismo do gesto, o relevo emocional, a carne espiritualizada
da pedra. Não foi mera influência: foi iniciação.
Quando retornou a Turim, já não
era o mesmo. Seu estúdio, então bastante reconhecido, tornara-se laboratório de
um artista em plena ascensão. Mas o destino — sempre um arquiteto invisível —
abriu-lhe outra rota: o Brasil. Em 1913, ao emigrar, não chegou à planejada
Argentina; aportou em Santos e dali iniciou uma jornada imprevisível.
Minas Gerais foi sua primeira
morada afetiva. Ali conheceu a jovem Dosolina Frateschi, filha de italianos,
com quem se casou. A vida emocional ancorou o artista, e o país, antes
acidental, tornou-se escolha. Durante duas décadas, espalhou obras por São
Paulo, Rio de Janeiro e Minas: bustos, altares, fachadas, cruzeiros,
monumentos. Sua marca — discreta, pois raramente assinava — se espalhou
silenciosa como uma constelação subterrânea.
Em 1934, debilitado pela saúde,
procura o Ceará, onde o clima lhe era recomendável. E é nesse momento que o
Nordeste passa a ser seu grande ateliê. Juazeiro do Norte, então terra de
intensas pulsações religiosas, acolhe-o como se reconhecesse nele um escultor
de almas.
A partir daí, Odísio transforma o
Ceará em território artístico: Acaraú, Bela Cruz, Sobral, Tianguá, Canindé,
Granja, Itapipoca, Várzea Alegre, Quixadá, Viçosa — dezenas de cidades recebem
suas esculturas, suas reformas de igrejas, suas praças redesenhadas. A vastidão
de sua atuação torna difícil mapear sua obra; a ausência de assinatura, talvez
por humildade, talvez por despretensão, multiplica o enigma.
Apesar da amplitude, uma obra se
destaca como ponto culminante: a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição,
em Bela Cruz. Mais que um templo, ela é a síntese do artista; sua última obra
concluída; a moldura final de uma trajetória iniciada nos Alpes e encerrada à
beira do Acaraú.
A Matriz de Bela Cruz é, antes de
tudo, um manifesto arquitetônico. Sua fachada, marcada pela verticalidade
elegante e pela disposição harmoniosa dos ornamentos, dialoga com o ecletismo
europeu, mas transfigura-o em linguagem sertaneja. Odísio parece ter
compreendido a luz particular do Ceará e a incorporado ao projeto — tudo ali
respira claridade.
Os volumes da fachada revelam um
escultor que projeta como quem modela. Há um jogo de cheios e vazios que remete
à escola rodiniana, mas suavizado pela espiritualidade das igrejas italianas do
Piemonte. O frontão, as pilastras e os nichos não são enfeites: são pausas,
como em música, que estabelecem ritmos na leitura visual.
No interior, a manipulação do
espaço litúrgico é igualmente precisa. O altar-mor, concebido com atenção ao
simbolismo católico, não é apenas peça devocional: funciona como centro
gravitacional da arquitetura. O espaço inteiro converge para ele, como se o
artista quisesse que cada fiel experimentasse, ao entrar, um reencontro com o
sagrado.
Escultor antes de tudo, Odísio
não deixou de imprimir sua marca nos detalhes ornamentais. Os relevos discretos
e a sutileza das linhas denotam sua mão experiente. Cada curva parece sussurrar
o segredo de uma vida inteira dedicada ao silêncio da pedra.
A Matriz de Bela Cruz é também um
capítulo da identidade regional. Ao inserir no Ceará um templo com vocação
europeia, porém adaptado aos ventos e à luz nordestinos, Odísio realiza algo
raro: uma síntese civilizatória. A igreja não europeíza o sertão; o sertão não
dilui o europeu. Ambos se elevam, reconciliados.
Curiosamente, sua última obra
concluída é também sua obra mais simbólica. O artista que viajou do Piemonte ao
Cariri, do ateliê parisiense ao altar sertanejo, encerra sua história num
templo dedicado à Conceição — imagem da pureza, da luz, da origem. Sua vida
circular retorna ao princípio.
Após Bela Cruz, a saúde já não
lhe permitiu novos empreendimentos.
Deixou diários e memórias, entre as quais destaca-se “Memórias sobre
Juazeiro do Padre Cícero”. Como ensaísta, recebeu prêmio pelo artigo “A
Fisionomia da Pedra”, título que resume seu próprio destino: revelar a alma
oculta na matéria bruta.
Quando faleceu, em 29 de agosto
de 1948, o Brasil perdeu não apenas um escultor, mas um dos raros artistas que
transitaram com naturalidade entre três tradições — a italiana, a francesa e a
nordestina. Sua obra, espalhada como sementes, permanece em altares e praças
que talvez nem saibam quem lhes deu forma.
Revisitar a Igreja Matriz de Bela
Cruz é, portanto, revisitar o próprio Odísio. Ali se encontram sua técnica
turinesa, sua sensibilidade rodiniana, sua fé salesiana, sua experiência
brasileira e seu silêncio final. É um templo que não apenas abriga o sagrado —
é ele próprio uma oração em pedra, última assinatura de um artista que preferia
não assinar.
Vicente Freitas Liot
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