Há homens que passam pela história como quem risca a superfície do tempo; outros, mais raros, entram nela como quem a esculpe por dentro. Joca Lopes — João Venceslau Araújo — pertence a essa segunda espécie: não fez alarde de si mesmo, mas deixou impressa, em Bela Cruz, uma marca que não se apaga porque se confundiu com a própria matéria da cidade.
Nasceu em 27 de janeiro de 1906,
no Ceará ainda rural, ainda poroso à convivência entre o sagrado, o trabalho
manual e a invenção cotidiana. Filho do Capitão Miguel Lopes de Araújo Costa e
de D. Maria José de Araújo, cresceu sob o signo de uma disciplina que não
abafou o espanto, antes o organizou. Talvez daí venha essa inteligência
polimorfa — palavra justa e, ainda assim, insuficiente — que o levou a ser
escultor, compositor, desenhista, xilógrafo, pintor, artesão de instrumentos
musicais e, curiosamente, cultor de charadas, enigmas e logogrifos: formas
populares de pensamento simbólico, jogos da linguagem que revelam um prazer
íntimo com a arquitetura do sentido.
Joca Lopes não foi apenas um
artista: foi um artífice da cultura. E isso faz diferença. Porque o artífice
não cria para si, mas para o uso comum — ainda que esse uso seja espiritual,
estético, silencioso. Ao fundar, em 1933, ao lado de Nicodemos Araújo e Manoel
Fonteles, o jornal Alvorada, impresso na gráfica O Acaraú, Joca Lopes não
apenas inaugurava um periódico: inaugurava um gesto. Um gesto de crença na
palavra impressa como forma de iluminação coletiva. Não é gratuito o nome Alvorada:
havia ali uma convicção quase pedagógica de que a cultura é sempre um
amanhecer.
No mesmo ano, cria o Salão de
Leitura. Poucos anos durou, é verdade, mas o tempo não mede a importância das
coisas. Importa o que se acende, não quanto tempo permanece aceso. Aquele salão
foi, para muitos jovens de Bela Cruz, uma primeira porta aberta para o mundo
dos livros, das ideias, da imaginação disciplinada. Joca Lopes parecia saber que
a cultura não é ornamento: é instrumento de consciência.
Sua atuação política, como
vice-prefeito em duas legislaturas, não o afastou da arte; antes, a
complementou. Porque há uma política silenciosa, feita de pedra, de papel, de
música, de arquitetura simbólica. Em 1938, à frente da Conferência Vicentina,
ao lado de Emílio Fonteles, edifica a Igreja de São Vicente de Paulo,
inaugurada em 1941. Não se trata apenas de um templo religioso, mas de um
espaço de sociabilidade, de rito, de memória coletiva. Joca Lopes entendia —
talvez intuitivamente — que a arte também é abrigo.
O mesmo se diga do Prédio dos
Marianos, hoje Centro Pastoral Monsenhor Odécio: mais uma construção onde o
gesto estético se alia à função comunitária. Sua escultura, sua arquitetura,
sua música não buscavam o museu: buscavam o chão.
Como professor de música do
Instituto Imaculada Conceição, Joca Lopes transmitiu mais do que técnica:
transmitiu uma ética da escuta. A música, em sua vida, não era espetáculo, mas
formação. Não é casual que tenha sido também autor do Hino de Bela Cruz, em
parceria com o poeta João Damasceno Vasconcelos. O hino é, talvez, a forma mais
explícita dessa fusão entre arte e pertencimento: canto coletivo que transforma
a cidade em voz.
Há, contudo, um traço que
humaniza e tensiona sua figura: sua admiração pelos grandes poetas do passado e
sua convicção — dita sem ironia — de que “a poesia chegou ao apogeu com Luís de
Camões e depois dele decaiu”. A frase, em si, pode soar conservadora. Mas lida
com atenção, revela outra coisa: não um desprezo pelo novo, mas uma reverência
radical pela forma, pela densidade, pela exigência da linguagem. Joca Lopes não
rejeitava a poesia moderna; exigia dela grandeza. Sabia que a poesia não é
ornamento verbal, mas construção, gravidade.
Talvez por isso nunca tenha
buscado projeção fora de Bela Cruz. Sua obra não pede holofotes: pede
permanência. Viveu como quem compreende que a verdadeira vanguarda, em certos
lugares, é manter viva a chama do essencial.
Joca Lopes faleceu, em 4 de junho
de 1995. Mas a morte, nesse caso, é apenas um dado cronológico. Porque há homens
que continuam atuando depois de mortos, não por mitificação, mas por utilidade.
Cada pedra que assentou, cada nota que compôs, cada jovem que leu um livro
graças ao seu Salão de Leitura, cada celebração sob o teto que ajudou a erguer
— tudo isso ainda acontece.
E talvez seja essa a forma mais
alta de arte: não a que se pendura na parede do tempo, mas a que se mistura ao
cotidiano, tornando-o mais respirável. Joca Lopes não escreveu manifestos.
Escreveu, por assim dizer, uma cidade.
Vicente Freitas Liot
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