quarta-feira, maio 27, 2015

𝗔𝗦 𝗜𝗠𝗔𝗚𝗘𝗡𝗦 𝗗𝗔 𝗣𝗔𝗗𝗥𝗢𝗘𝗜𝗥𝗔 𝗗𝗘 𝗕𝗘𝗟𝗔 𝗖𝗥𝗨𝗭

Em 1732, quando Bela Cruz ainda era apenas um ajuntamento de casas humildes sopradas pelo vento do sertão e pela maresia distante do litoral cearense, chegou à pequena povoação uma imagem mínima de Nossa Senhora da Conceição. Tinha apenas dez centímetros — tão pequena que cabia inteira nas mãos de uma rendeira ou no bolso gasto de algum viajante devoto. Mas havia nela o tamanho da fé. E foi diante daquele pequeno vulto de madeira que começaram a crescer as rezas, os silêncios, os terços murmurados à luz vacilante das velas de cera.

 

A capelinha de Santa Cruz, pobre e branca, erguida sobre a colina, parecia mais um pouso da esperança do que propriamente um templo. O sino modesto chamava os homens do campo, as mulheres de vestido escuro, as crianças descalças, todos atraídos pela serenidade daquela Imagem de mãozinhas postas, cuja expressão parecia ouvir pacientemente o sofrimento humano. Ali, entre paredes simples e chão batido, Nossa Senhora da Conceição tornou-se a Padroeira da comunidade nascente, acompanhando a transformação da pequena aldeia até a cidade que mais tarde floresceria com o nome de Bela Cruz.

 

A primeira imagem, esculpida em madeira, atravessou gerações. Viu secas e invernos generosos; viu procissões de lamparinas atravessando a noite; ouviu promessas de mães aflitas e agradecimentos de pescadores regressados do perigo. Durante quase três séculos permanece entre o povo de Bela Cruz.

 

No dia 8 de setembro de 1932, Bela Cruz celebrou o bicentenário de sua capela. O povo decidiu erguer, exatamente no local onde existira a primitiva igrejinha, uma coluna de alvenaria. No centro dela abriram um pequeno nicho de vidro, e ali recolocaram a antiga imagem da Padroeira, como se a devolvessem ao ventre do tempo.

 

A festa daquele setembro parece ainda tremular no ar das tardes antigas. O professor Nicácio Barbosa Cordeiro, escrevendo no “Correio da Semana”, deixou palavras que ainda hoje têm cheiro de festa religiosa do interior. Contava ele que postes de madeira cuidadosamente descascados sustentavam cordões de galhardetes coloridos, espalhando sobre a praça uma alegria festiva, quase infantil. Havia no ambiente uma solenidade simples, dessas que apenas os povoados antigos sabem conservar.

 

Desde a véspera, o vigário Padre Sabino de Lima já se encontrava entre o povo, entregue ao duro labor do sacerdócio. E então, às cinco horas da tarde, uma multidão acompanhou o pároco em procissão rumo à colina. O cortejo subia lentamente, entre ladainhas e passos lentos, até alcançar o lugar onde fora erguida a pirâmide quadrangular sobre os restos da velha capela. Dentro do nicho de vidro repousava a pequena imagem da Conceição — minúscula e eterna — recordando os cultos antigos que ali se celebravam quando Santa Cruz ainda era apenas uma promessa de cidade.

 

O vento devia passar sobre aquela colina como passa sobre as páginas velhas de um missal. E talvez naquele instante os mortos da povoação também tenham caminhado junto à procissão invisível das lembranças.

 

Quando, por volta de 1798, a capela deixou a colina e foi transferida para a praça onde permanece até hoje, os fiéis adquiriram uma nova imagem da Padroeira. Já não era tão pequena: media quarenta centímetros. Crescia a imagem como crescia o povoado. A devoção parecia precisar agora de um vulto maior para acompanhar a expansão da fé e da própria comunidade.

 

Mais tarde, em 1894, um grupo de senhoras piedosas organizou uma coleta de donativos. Eram mulheres simples, dessas que sustentam silenciosamente a vida religiosa das cidades do interior. Entre novenas, visitas e pedidos feitos de porta em porta, conseguiram recursos para adquirir uma nova imagem da Imaculada Conceição. Desta vez, tratava-se de uma verdadeira obra de arte: esculpida em madeira de excelente qualidade, medindo mais de um metro de altura. É esta imagem que hoje ocupa o altar-mor da Matriz de Bela Cruz.

 

E assim, ao longo dos séculos, a Padroeira foi mudando de forma, de tamanho e de altar — mas nunca deixou o coração do povo. A pequena imagem de dez centímetros continua talvez sendo a maior de todas, porque nela ainda repousa a alma primitiva da cidade: a colina, a capelinha branca, os galhardetes ao vento, o rumor das rezas antigas e a eterna ternura da Virgem da Conceição velando, silenciosamente, sobre Bela Cruz.

 

𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

 

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