Em 1732, quando Bela Cruz ainda era apenas um ajuntamento de casas humildes sopradas pelo vento do sertão e pela maresia distante do litoral cearense, chegou à pequena povoação uma imagem mínima de Nossa Senhora da Conceição. Tinha apenas dez centímetros — tão pequena que cabia inteira nas mãos de uma rendeira ou no bolso gasto de algum viajante devoto. Mas havia nela o tamanho da fé. E foi diante daquele pequeno vulto de madeira que começaram a crescer as rezas, os silêncios, os terços murmurados à luz vacilante das velas de cera.
A capelinha de Santa Cruz, pobre e
branca, erguida sobre a colina, parecia mais um pouso da esperança do que
propriamente um templo. O sino modesto chamava os homens do campo, as mulheres
de vestido escuro, as crianças descalças, todos atraídos pela serenidade
daquela Imagem de mãozinhas postas, cuja expressão parecia ouvir pacientemente
o sofrimento humano. Ali, entre paredes simples e chão batido, Nossa Senhora da
Conceição tornou-se a Padroeira da comunidade nascente, acompanhando a
transformação da pequena aldeia até a cidade que mais tarde floresceria com o
nome de Bela Cruz.
A primeira imagem, esculpida em
madeira, atravessou gerações. Viu secas e invernos generosos; viu procissões de
lamparinas atravessando a noite; ouviu promessas de mães aflitas e
agradecimentos de pescadores regressados do perigo. Durante quase três séculos
permanece entre o povo de Bela Cruz.
No dia 8 de setembro de 1932, Bela
Cruz celebrou o bicentenário de sua capela. O povo decidiu erguer, exatamente
no local onde existira a primitiva igrejinha, uma coluna de alvenaria. No
centro dela abriram um pequeno nicho de vidro, e ali recolocaram a antiga
imagem da Padroeira, como se a devolvessem ao ventre do tempo.
A festa daquele setembro parece ainda
tremular no ar das tardes antigas. O professor Nicácio Barbosa Cordeiro,
escrevendo no “Correio da Semana”, deixou palavras que ainda hoje têm cheiro de
festa religiosa do interior. Contava ele que postes de madeira cuidadosamente
descascados sustentavam cordões de galhardetes coloridos, espalhando sobre a
praça uma alegria festiva, quase infantil. Havia no ambiente uma solenidade
simples, dessas que apenas os povoados antigos sabem conservar.
Desde a véspera, o vigário Padre
Sabino de Lima já se encontrava entre o povo, entregue ao duro labor do
sacerdócio. E então, às cinco horas da tarde, uma multidão acompanhou o pároco
em procissão rumo à colina. O cortejo subia lentamente, entre ladainhas e
passos lentos, até alcançar o lugar onde fora erguida a pirâmide quadrangular
sobre os restos da velha capela. Dentro do nicho de vidro repousava a pequena
imagem da Conceição — minúscula e eterna — recordando os cultos antigos que ali
se celebravam quando Santa Cruz ainda era apenas uma promessa de cidade.
O vento devia passar sobre aquela
colina como passa sobre as páginas velhas de um missal. E talvez naquele
instante os mortos da povoação também tenham caminhado junto à procissão
invisível das lembranças.
Quando, por volta de 1798, a capela
deixou a colina e foi transferida para a praça onde permanece até hoje, os
fiéis adquiriram uma nova imagem da Padroeira. Já não era tão pequena: media
quarenta centímetros. Crescia a imagem como crescia o povoado. A devoção
parecia precisar agora de um vulto maior para acompanhar a expansão da fé e da
própria comunidade.
Mais tarde, em 1894, um grupo de
senhoras piedosas organizou uma coleta de donativos. Eram mulheres simples,
dessas que sustentam silenciosamente a vida religiosa das cidades do interior.
Entre novenas, visitas e pedidos feitos de porta em porta, conseguiram recursos
para adquirir uma nova imagem da Imaculada Conceição. Desta vez, tratava-se de
uma verdadeira obra de arte: esculpida em madeira de excelente qualidade, medindo
mais de um metro de altura. É esta imagem que hoje ocupa o altar-mor da Matriz
de Bela Cruz.
E assim, ao longo dos séculos, a
Padroeira foi mudando de forma, de tamanho e de altar — mas nunca deixou o
coração do povo. A pequena imagem de dez centímetros continua talvez sendo a
maior de todas, porque nela ainda repousa a alma primitiva da cidade: a colina,
a capelinha branca, os galhardetes ao vento, o rumor das rezas antigas e a
eterna ternura da Virgem da Conceição velando, silenciosamente, sobre Bela
Cruz.
𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾
𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌
𝖫𝗂𝗈𝗍

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