sexta-feira, maio 13, 2016

 

𝗢 𝗥𝗘𝗧𝗥𝗔𝗧𝗢 𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗖𝗛𝗔𝗗𝗢 𝗗𝗘 𝗔𝗦𝗦𝗜𝗦

 

Havia, naquela fotografia derradeira de Machado de Assis, qualquer coisa de relógio antigo ainda funcionando quando a casa já escureceu. A casaca bem posta, a mão esquerda pousada na cintura com discreta elegância, os olhos atravessando os óculos de pincenê como quem ainda examinasse o mundo — não com esperança, nem com amargura, mas com aquele ceticismo delicado que apenas os homens muito inteligentes conseguem sustentar sem ferir ninguém.

 

A revista argentina Caras y Caretas publicou o retrato em janeiro de 1908. Setembro ainda estava distante, embora a morte já rondasse o quintal silencioso da casa do Cosme Velho como um gato magro acostumado à sombra. Machado tinha sessenta e oito anos, mas há fotografias em que a idade não se mede pelos números: mede-se pela fadiga secreta dos olhos. E os olhos de Machado, naquela imagem, pareciam já conhecer o rumor da despedida.

 

Vejo essa fotografia como se fosse uma varanda aberta para um fim de tarde carioca. Não há sol em excesso nela; há uma luz moderada, quase doméstica, dessas que entram pela janela sem pedir licença. O escritor aparece sozinho. E talvez seja essa solidão o que mais impressiona. Não a solidão triste dos abandonados, mas a dos homens que carregam dentro de si uma multidão de personagens, ironias, memórias e fantasmas. Um homem nunca está só depois de inventar um Memórias Póstumas de Brás Cubas ou um Dom Casmurro. Há sempre alguém cochichando atrás do retrato.

 

Imagino o fotógrafo ajustando a máquina, pedindo firmeza ao velho escritor. Machado obedece. Era um homem disciplinado, talvez até excessivamente discreto. Não fazia escândalo de sua genialidade. Enquanto outros escritores precisavam de tempestades, ele preferia a sala arrumada, a frase limpa, o sarcasmo dito em voz baixa. Sua revolução literária aconteceu quase sem barulho, como acontece com certas chuvas finas que, de repente, alagam a cidade inteira.

 

Fundador da Academia Brasileira de Letras, ele parecia compreender que os livros sobrevivem menos pelo bronze das homenagens e mais pela intimidade silenciosa que criam com seus leitores. Há pessoas que atravessam um século apenas porque escreveram uma boa frase. Machado atravessou porque escreveu a alma humana inteira — com suas pequenas vaidades, seus ciúmes, sua hipocrisia elegante, suas misérias escondidas debaixo do colete.

 

E no entanto, naquela última fotografia, não vemos o monumento. Vemos um homem cansado. Um homem magro dentro da roupa formal. Um homem que talvez tivesse saudade de Carolina Augusta Xavier de Novais, morta poucos anos antes, deixando a casa cheia daquele silêncio que os objetos guardam depois da ausência. Porque até os gênios precisam voltar para casa ao cair da tarde.

 

Há retratos que congelam um instante; outros parecem continuar respirando depois de impressos. O de Machado pertence a essa segunda espécie rara. Ele continua ali, de pé, atravessando o século com a mesma compostura melancólica. E talvez seja impossível olhar aquela imagem sem pensar que o Brasil inteiro, de algum modo, ainda conversa com ele.

 

Os grandes escritores possuem esse estranho privilégio: morrem apenas no corpo. O resto permanece sentado à mesa, observando os homens, escutando suas mentiras, sorrindo discretamente diante da eterna comédia humana. Machado sabia disso. Talvez por isso seu olhar seja tão tranquilo naquela fotografia final. Como quem já suspeitasse que setembro levaria apenas o homem — nunca a literatura.

 

𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

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