quarta-feira, janeiro 14, 2026

QUE LUZ BOA EM LISBOA, DE MÁRCIO CATUNDA

         

         CAPÍTULO I

A luz, a cidade e o livro

 

(Introdução crítica)

 

Há livros que se anunciam desde o título como experiências sensoriais, mas que, ao se abrirem, revelam-se exercícios de pensamento. Que luz boa em Lisboa, de Márcio Catunda, inscreve-se nessa linhagem específica de obras que partem da percepção — a luz — para alcançar uma reflexão mais ampla sobre a cidade, a história, a literatura e a condição cultural. Não se trata de um livro de turismo, tampouco de memórias em sentido estrito, nem de um ensaio acadêmico convencional. Trata-se, antes, de um livro de cultura, no sentido forte do termo, isto é, como espaço em que a experiência individual se organiza como forma transmissível e adquire valor coletivo¹.

Desde as primeiras páginas, Lisboa não se apresenta apenas como cenário, mas como princípio organizador do texto. A cidade comparece como organismo histórico, arquivo simbólico e personagem silenciosa, cuja presença orienta o movimento da escrita. O autor não se limita a descrever Lisboa; ele a lê. Percorre seus espaços como quem decifra signos acumulados ao longo do tempo, convertendo ruas, igrejas e miradouros em pontos de condensação entre passado e presente, literatura e história, memória pessoal e tradição cultural².

Tal procedimento inscreve-se numa tradição ensaística que compreende a cultura como sistema de relações e não como mera acumulação de dados. Podemos afirmar Que luz boa em Lisboa opera a passagem do fato isolado ao fato significativo. O monumento, nesse contexto, não vale por sua materialidade imediata, mas pelo conjunto de relações simbólicas que convoca: textos literários, episódios históricos, mitos fundadores e ideias persistentes. A experiência da viagem transforma-se, assim, em interpretação cultural³.

A posição enunciativa do autor é decisiva para essa operação. Márcio Catunda escreve como poeta, leitor atento da tradição portuguesa e diplomata de formação. Essa tríplice condição — sensibilidade estética, consciência histórica e experiência institucional — confere ao texto uma tonalidade específica. O narrador não se coloca acima da cidade nem se dissolve nela; ocupa uma posição intermediária, de escuta atenta, em que a observação empírica se articula à reflexão crítica⁴.

O livro evita, desse modo, dois riscos recorrentes na literatura de viagem: o exotismo superficial e o eruditismo ornamental. Não há deslumbramento acrítico nem ostentação de saber. A erudição, quando mobilizada, cumpre função interpretativa: ilumina o objeto, em vez de eclipsá-lo. As referências a Camões, Vieira, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva surgem integradas à lógica interna do ensaio, compondo um mesmo esforço de compreensão cultural⁵.

A escolha da luz como eixo metafórico central revela-se, nesse sentido, estruturante. Lisboa é tradicionalmente associada à claridade — luz atlântica, luz refletida no Tejo, luz que recorta colinas e fachadas. Catunda, entretanto, converte essa percepção sensorial em categoria interpretativa. A luz passa a significar revelação histórica, permanência cultural e sobrevivência simbólica. A pergunta implícita — “que luz é essa?” — conduz o leitor a refletir sobre o que permanece visível em uma civilização marcada por rupturas, catástrofes e reinvenções⁶.

Desse modo, instaura-se uma tensão central entre glória e ruína. Lisboa é, simultaneamente, a cidade do apogeu dos Descobrimentos e a cidade do terremoto, da destruição e da decadência imperial. O texto não oculta essa ambiguidade; ao contrário, faz dela motor reflexivo. A luz que ilumina também expõe. O esplendor convive com a melancolia, em consonância com uma tradição cultural portuguesa na qual a consciência histórica raramente se dissocia da ideia de perda⁷.

Do ponto de vista formal, Que luz boa em Lisboa adota uma escrita ensaística de andamento contínuo, marcada pela digressão controlada. O percurso urbano funciona como fio narrativo, mas o pensamento se desloca constantemente para incursões históricas, literárias e simbólicas, retornando ao ponto de partida com maior densidade interpretativa. Trata-se de um procedimento clássico do ensaio humanista, em que o rigor não implica rigidez e a liberdade não se confunde com dispersão⁸.

Partindo da premissa de que a crítica literária só se justifica quando contribui para a compreensão da obra e do mundo, este ensaio propõe-se a examinar Que luz boa em Lisboa não como inventário temático ou resumo analítico, mas como tentativa de apreensão de seu sentido global: sua concepção de cultura, sua leitura da história e sua aposta na permanência da literatura como forma de conhecimento⁹.

Nos capítulos seguintes, serão analisados os principais eixos da obra: sua estrutura híbrida, a construção de Lisboa como personagem histórica, o diálogo com a tradição literária portuguesa, a posição do autor como mediador cultural e, por fim, o alcance estético e civilizatório do livro no contexto contemporâneo. O objetivo não é a celebração acrítica, mas a compreensão rigorosa de suas ambições e limites, pois é desse modo — conforme ensinou Antonio Candido — que a crítica se constitui como forma de respeito¹⁰.

 

 

NOTAS

 

  1. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
  2. BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
  3. CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.
  4. BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  5. LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Gradiva, 2000.
  6. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010.
  7. LOURENÇO, Eduardo. A nau de Ícaro. Lisboa: Gradiva, 1999.
  8. MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  9. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. São Paulo: Duas Cidades, 1995.
  10. AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 2007.

 

 

 

CAPÍTULO II

 

Um livro de fronteira: gênero, forma e intenção

 

A classificação genérica de Que luz boa em Lisboa constitui um dos primeiros desafios críticos colocados pela obra. O livro resiste a enquadramentos rígidos: não é relato de viagem, não é memorialismo stricto sensu, tampouco ensaio acadêmico convencional. Essa resistência, longe de configurar fragilidade formal, revela-se como um de seus princípios estruturantes. Trata-se de um livro de fronteira, situado no cruzamento entre literatura, ensaio cultural e reflexão histórica.

Tal posição liminar inscreve a obra numa tradição moderna do ensaio, entendida não como gênero menor ou provisório, mas como forma privilegiada de pensamento. Desde Montaigne, o ensaio afirma-se como escrita que recusa sistemas fechados, valorizando o movimento, a experiência e a reflexão situada¹. Em Que luz boa em Lisboa, essa herança manifesta-se na liberdade formal aliada a um rigor interno que impede a dispersão.

A noção de fronteira deve ser compreendida aqui em sentido produtivo. O livro transita entre registros sem dissolvê-los indistintamente. A observação sensível da cidade convive com a análise histórica; a memória pessoal articula-se com a tradição literária; a experiência individual é constantemente reinscrita em quadros culturais mais amplos. Essa articulação corresponde ao que Antonio Candido definiu como passagem da vivência singular à forma transmissível².

Do ponto de vista formal, a obra constrói-se por blocos reflexivos relativamente autônomos, unidos por um fio de continuidade temática e simbólica. Não há capítulos rigidamente demarcados no sentido acadêmico, mas uma progressão ensaística guiada pelo percurso urbano e pela recorrência de certos núcleos interpretativos — a cidade, a luz, a história, a literatura. Esse procedimento confere ao texto fluidez sem comprometer sua coerência.

A escrita ensaística de Catunda afasta-se tanto do improviso quanto da sistematização excessiva. Cada digressão responde a uma necessidade interpretativa concreta. O ensaísta não se permite o desvio gratuito; toda inflexão do pensamento retorna, em algum ponto, ao eixo central da obra. Esse método aproxima o livro daquilo que Alfredo Bosi identifica como ensaio crítico humanista, no qual a liberdade formal é sempre acompanhada de responsabilidade intelectual³.

A condição híbrida da obra também se manifesta na relação entre autor e objeto. O narrador não se apresenta como especialista distanciado, mas tampouco se limita à posição subjetiva do viajante. Sua autoridade discursiva deriva da conjugação entre experiência direta e leitura aprofundada da tradição. O livro, assim, evita tanto o impressionismo quanto o academicismo, afirmando uma via intermediária que privilegia a compreensão cultural.

Essa forma de escrita encontra paralelo em importantes obras do ensaísmo brasileiro moderno. Textos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ou Visão do Paraíso, do mesmo autor, também operam nesse espaço intermediário entre literatura, história e interpretação cultural⁴. Em ambos os casos, o rigor conceitual não se separa da qualidade literária da escrita. Que luz boa em Lisboa insere-se nesse horizonte, adaptando-o a um contexto contemporâneo e transatlântico.

A fronteira genérica da obra corresponde, ainda, à sua intenção intelectual. O livro não pretende oferecer uma tese fechada sobre Lisboa ou sobre a cultura portuguesa. Seu objetivo é mais complexo e mais modesto: compreender, por aproximações sucessivas, como uma cidade se torna depositária de memória histórica e literária. O ensaio assume, assim, seu caráter provisório e aberto, recusando conclusões definitivas.

Essa recusa da totalização não implica ausência de posição crítica. Ao contrário, o livro sustenta uma concepção clara de cultura como processo histórico, marcado por permanências e rupturas. A forma ensaística permite ao autor lidar com essas tensões sem reduzi-las a esquemas explicativos rígidos. A fronteira formal torna-se, desse modo, condição de possibilidade da reflexão.

Do ponto de vista ético, essa escolha formal traduz uma concepção específica de escrita. O ensaísta assume que seu olhar é situado, historicamente determinado, mas não arbitrário. A subjetividade não é celebrada como fim em si mesma; funciona como instrumento de mediação cultural. Essa postura corresponde à ética do ensaio tal como formulada por Antonio Candido, para quem a crítica deve articular liberdade interpretativa e responsabilidade histórica⁵.

Em síntese, Que luz boa em Lisboa afirma-se como livro de fronteira não por indecisão formal, mas por projeto consciente. Sua hibridez é constitutiva, não residual. Ao situar-se entre gêneros, o livro amplia as possibilidades do ensaio contemporâneo, reafirmando-o como forma privilegiada de pensamento cultural.

 

 

NOTAS

 

  1. MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  2. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
  3. BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  4. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  5. CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.

 

 

 

CAPÍTULO III

 

Lisboa como texto: a cidade como personagem histórica

 

Em Que luz boa em Lisboa, a cidade ultrapassa a condição de espaço físico ou cenário descritivo para assumir estatuto de verdadeiro texto cultural. Lisboa não é apenas percorrida; é lida, interpretada e reinscrita simbolicamente pelo ensaísta. Essa concepção da cidade como texto situa a obra numa tradição crítica que compreende o espaço urbano como condensação histórica de sentidos, práticas e discursos.

A leitura da cidade como texto pressupõe que seus elementos materiais — ruas, praças, edifícios, ruínas — funcionem como signos. Cada configuração urbana remete a camadas temporais sobrepostas, produzindo o que a crítica contemporânea tem denominado palimpsesto urbano. Nesse sentido, Lisboa apresenta-se como cidade escrita e reescrita ao longo dos séculos, na qual o passado não desaparece, mas se infiltra no presente¹.

Tal abordagem encontra respaldo em Walter Benjamin, para quem a cidade moderna deve ser lida como constelação histórica, isto é, como conjunto de fragmentos em tensão, nos quais diferentes tempos coexistem². Catunda aproxima-se dessa perspectiva ao recusar uma visão linear da história lisboeta. O percurso urbano não segue uma cronologia progressiva, mas um movimento associativo, em que cada lugar convoca memórias literárias, eventos históricos e reflexões culturais.

Lisboa emerge, assim, como personagem histórica. Não se trata de personificação retórica, mas de reconhecimento de que a cidade atua sobre o narrador e orienta o pensamento. A cidade “fala” por meio de suas marcas, de seus silêncios e de suas permanências. O ensaísta não projeta arbitrariamente sentidos sobre o espaço urbano; ele os recolhe a partir de uma escuta atenta da materialidade histórica da cidade.

Essa escuta pressupõe uma ética do olhar. O autor evita tanto a idealização nostálgica quanto a denúncia simplificadora. Lisboa não é apresentada como relicário de glórias passadas nem como ruína decadente. O ensaio sustenta uma posição intermediária, reconhecendo a coexistência de grandeza histórica e desgaste simbólico. Essa postura aproxima o livro da reflexão de Eduardo Lourenço sobre a cultura portuguesa, marcada por uma consciência aguda da ambiguidade entre esplendor e perda³.

A cidade-texto construída por Catunda é profundamente literária. Lisboa aparece constantemente atravessada por seus escritores, que funcionam como mediadores entre espaço e linguagem. Camões, Vieira, Eça de Queirós e Fernando Pessoa não são apenas referências eruditas, mas lentes interpretativas por meio das quais a cidade se torna legível. A literatura, nesse contexto, não ilustra a cidade; ela a constitui simbolicamente.

Essa concepção dialoga com a noção de que a literatura integra o sistema cultural de uma sociedade, funcionando como forma de organização simbólica da experiência coletiva⁴. Ao mobilizar a tradição literária portuguesa, o ensaísta reinscreve Lisboa num horizonte cultural ampliado, em que o espaço urbano é inseparável de sua representação textual.

A cidade como texto implica, ainda, uma concepção específica de história. Em Que luz boa em Lisboa, a história não se apresenta como sucessão de datas ou eventos isolados, mas como memória incorporada ao espaço. O terremoto de 1755, por exemplo, não surge apenas como fato histórico, mas como trauma estrutural que reorganiza a cidade e a consciência cultural portuguesa. A reconstrução pombalina, com sua racionalidade geométrica, é lida como resposta política e simbólica ao colapso⁵.

Nesse ponto, a cidade revela-se como consciência histórica materializada. O espaço urbano guarda vestígios de decisões políticas, projetos ideológicos e visões de mundo. Ler Lisboa, portanto, é ler as formas pelas quais uma sociedade tentou compreender a si mesma diante da catástrofe, da expansão imperial e de sua posterior retração.

A escrita ensaística acompanha essa complexidade. O narrador não busca sintetizar a cidade numa imagem totalizante. Prefere a aproximação fragmentária, consciente de que a totalidade urbana é inalcançável. Cada lugar analisado funciona como metonímia do conjunto, permitindo ao leitor apreender a cidade por meio de suas partes significativas.

Essa opção formal reforça o caráter humanista do ensaio. A cidade não é objeto de dominação intelectual, mas de convivência interpretativa. O ensaísta reconhece os limites de sua leitura e, justamente por isso, torna-a mais rigorosa. A clareza da escrita não elimina a complexidade do objeto; organiza-a.

Em síntese, Lisboa, em Que luz boa em Lisboa, afirma-se como personagem histórica e texto cultural. Sua leitura exige atenção às camadas temporais, às vozes literárias e às marcas materiais do passado. Ao transformar a cidade em texto, o ensaio reafirma a possibilidade de compreender o espaço urbano como forma de consciência histórica, inscrita na linguagem e acessível por meio da interpretação crítica.

 

 

NOTAS

 

  1. HUYSSEN, Andreas. Present pasts: urban palimpsests and the politics of memory. Stanford: Stanford University Press, 2003.
  2. BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
  3. LOURENÇO, Eduardo. A nau de Ícaro. Lisboa: Gradiva, 1999.
  4. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
  5. SARAIVA, António José; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora, 1996.

 

 

 

CAPÍTULO IV

 

A luz de Lisboa: metáfora sensorial, histórica e metafísica

 

Em Que luz boa em Lisboa, a luz não constitui apenas um dado sensorial recorrente, mas organiza-se como eixo simbólico central da obra. Desde o título, ela orienta a experiência do leitor e estrutura o pensamento do ensaísta. A luz funciona simultaneamente como percepção física, categoria histórica e metáfora metafísica, articulando cidade, tempo e consciência cultural.

Do ponto de vista sensorial, Lisboa é tradicionalmente associada à claridade. A posição geográfica, a proximidade do Atlântico, a incidência solar sobre o Tejo e a topografia das colinas produzem uma luminosidade singular, frequentemente evocada por viajantes, artistas e escritores. Catunda parte dessa experiência empírica, mas evita a descrição meramente impressionista. A luz é percebida como fenômeno concreto, porém imediatamente submetida à reflexão interpretativa¹.

Essa passagem do sensível ao simbólico é decisiva. A luz deixa de ser apenas atributo natural da cidade para tornar-se princípio de leitura cultural. Nesse sentido, ela se aproxima da noção benjaminiana de imagem dialética: aquilo que, ao ser visto, concentra múltiplas camadas de sentido histórico². A claridade lisboeta ilumina fachadas, ruas e monumentos, mas também expõe marcas do tempo, cicatrizes da história e permanências simbólicas.

Historicamente, a luz associa-se à ideia de revelação e conhecimento. Na tradição ocidental, desde o pensamento clássico até a herança cristã, a luz figura como metáfora da verdade, da razão e da presença do divino. Lisboa, enquanto capital de um império marítimo, foi também imaginada como cidade luminosa, ponto de irradiação cultural e espiritual. Catunda recupera esse imaginário, mas o reinscreve criticamente, consciente de suas ambivalências³.

A luz, em Que luz boa em Lisboa, não é apenas gloriosa; ela é também reveladora das ruínas. Ao iluminar o espaço urbano, expõe os vestígios de uma história marcada por catástrofes, como o terremoto de 1755, e por processos de declínio imperial. O ensaio insiste na ideia de que a claridade não elimina a sombra, mas a torna visível. Essa convivência entre luz e obscuridade constitui um dos núcleos interpretativos mais fecundos do livro.

Nesse ponto, a obra dialoga com a tradição poética e ensaística portuguesa, para a qual a luz frequentemente se associa à melancolia. Em Camões, a claridade do mundo convive com a consciência da perda; em Fernando Pessoa, a luminosidade de Lisboa é atravessada por um sentimento de irrealidade e desassossego. Catunda insere-se nessa linhagem ao compreender a luz não como promessa de totalidade, mas como condição frágil de visibilidade⁴.

A dimensão metafísica da luz emerge justamente dessa fragilidade. A luz ilumina, mas não explica completamente; revela, mas não resolve. O ensaio sugere que a permanência cultural portuguesa não se dá apesar das rupturas históricas, mas através delas. A luz, nesse contexto, simboliza a capacidade de sobrevivência simbólica de uma cultura que aprendeu a conviver com a perda sem renunciar à forma.

Essa concepção aproxima o livro de reflexões estéticas e filosóficas sobre a luz na arte e na arquitetura. A Lisboa pombalina, reconstruída após o terremoto, privilegia a racionalidade geométrica e a abertura dos espaços, permitindo maior circulação da luz. Tal escolha arquitetônica pode ser lida como resposta simbólica à catástrofe: ordenar o espaço para torná-lo novamente habitável e visível⁵.

A luz torna-se, assim, categoria ética. Iluminar significa tornar legível, não ocultar. A escrita ensaística de Catunda acompanha esse princípio: sua prosa clara e medida busca iluminar o objeto sem violentá-lo por meio de explicações totalizantes. A clareza da linguagem corresponde à claridade simbólica da luz lisboeta, ambas conscientes de seus limites.

Ao dialogar com outras “cidades-texto” da literatura europeia — como Roma, Paris e Atenas —, Lisboa distingue-se justamente por essa luz oblíqua, que não se impõe como evidência absoluta. Roma se constrói como cidade da permanência monumental; Paris, como cidade da modernidade e da circulação; Atenas, como cidade da origem filosófica. Lisboa, em contraste, afirma-se como cidade da transição, da partida e do retorno simbólico. Sua luz não funda sistemas; acompanha travessias⁶.

Em síntese, a luz de Lisboa, em Que luz boa em Lisboa, constitui muito mais do que um motivo recorrente. Ela organiza o olhar do ensaísta, estrutura a leitura da cidade e sustenta uma concepção ética da escrita. Ao iluminar sem apagar as sombras, o livro afirma uma forma de conhecimento consciente de sua historicidade e de seus limites. A luz torna-se, assim, metáfora do próprio ensaio: um modo de ver que não promete a verdade absoluta, mas oferece orientação crítica no interior da complexidade do mundo.

 

 

NOTAS


  1. SENA, Jorge de. Ensaios de cultura e literatura portuguesa. Lisboa: Edições 70, 2004.
  2. BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
  3. AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2002.
  4. LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa revisitado. Lisboa: Gradiva, 1993.
  5. FRANÇA, José-Augusto. Lisboa pombalina e o iluminismo. Lisboa: Bertrand, 1987.
  6. CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

 

 

CAPÍTULO V

 

Portugal, história e mito: entre o Quinto Império e a consciência crítica

 

Em Que luz boa em Lisboa, a reflexão sobre Portugal não se limita à dimensão histórica factual, mas avança para o terreno mais instável e produtivo do mito. O livro reconhece que a identidade cultural portuguesa se constituiu na intersecção entre acontecimentos históricos concretos e narrativas simbólicas que lhes deram sentido. Entre essas narrativas, a ideia do Quinto Império ocupa lugar central, funcionando como mito estruturante da imaginação portuguesa.

O Quinto Império, formulado inicialmente por Padre Antonio Vieira e reelaborado posteriormente por Fernando Pessoa, representa a crença numa missão histórica e espiritual de Portugal, para além de sua realidade política imediata¹. Em Catunda, esse mito não é retomado como promessa ou profecia, mas como objeto de reflexão crítica. O ensaísta lê o Quinto Império como construção simbólica que revela tanto a grandeza quanto a fragilidade de uma cultura confrontada com a perda de sua centralidade histórica.

A abordagem adotada pelo livro evita a oposição simplificadora entre mito e razão. O mito não é tratado como ilusão a ser desmascarada, mas como linguagem simbólica que organizou a experiência histórica portuguesa em determinados momentos. Nesse ponto, a reflexão aproxima-se da leitura de Eduardo Lourenço, para quem os mitos nacionais devem ser compreendidos como formas de autointerpretação cultural, e não como simples falsificações da realidade².

Lisboa surge, novamente, como espaço privilegiado dessa tensão entre mito e história. A cidade conserva marcas materiais do império — monumentos, igrejas, narrativas heroicas —, mas também exibe os sinais de sua dissolução. O ensaio lê esse contraste como dado constitutivo da experiência portuguesa moderna. O mito do império subsiste menos como projeto político do que como memória simbólica, continuamente reelaborada pela literatura e pelo pensamento.

Catunda enfatiza que a persistência do mito não implica adesão acrítica. Ao contrário, Que luz boa em Lisboa constrói uma consciência crítica do mito, reconhecendo sua função histórica sem abdicar do distanciamento interpretativo. O ensaio recusa tanto a nostalgia imperial quanto o negacionismo simbólico. Essa posição intermediária permite compreender o mito como herança problemática, que exige leitura e não celebração.

A literatura portuguesa desempenha papel decisivo nesse processo de reelaboração. Em Vieira, o Quinto Império aparece como horizonte escatológico; em Pessoa, transforma-se em projeto cultural e linguístico; na crítica contemporânea, torna-se objeto de análise reflexiva. Catunda insere-se nesse último momento, tratando o mito como parte integrante do arquivo cultural português, a ser interpretado à luz das condições históricas atuais³.

Essa leitura crítica do mito articula-se à noção de consciência histórica desenvolvida ao longo do livro. Portugal é apresentado como cultura que aprendeu a pensar-se a partir da perda, transformando a ruína em matéria de reflexão. O mito, nesse contexto, não encobre a história, mas funciona como tentativa de dar forma simbólica a uma experiência histórica traumática.

A reflexão estende-se ao campo das artes visuais e da arquitetura, nas quais a tensão entre luz, história e mito se manifesta de modo exemplar. A estética da luz na pintura portuguesa — visível, por exemplo, na obra de Columbano Bordalo Pinheiro — e a monumentalidade simbólica da arquitetura lisboeta revelam uma tentativa de fixar, na forma, uma identidade em transformação⁴. A luz ilumina não apenas o espaço físico, mas a memória cultural que nele se deposita.

Ao integrar essas dimensões, o ensaio reafirma uma concepção ampla de cultura, na qual literatura, história, mito e arte constituem um sistema interdependente. A análise do Quinto Império não se encerra em Vieira ou Pessoa; ela se prolonga na forma como Portugal continua a narrar a si mesmo no presente. Catunda sugere que a verdadeira herança do mito reside menos em sua promessa do que em sua capacidade de gerar reflexão crítica.

Do ponto de vista ético, essa abordagem implica uma recusa da instrumentalização do passado. O ensaísta não mobiliza o mito para justificar identidades fixas ou projetos ideológicos contemporâneos. Ao contrário, insiste na necessidade de manter o passado em estado de interpretação. Essa postura encontra respaldo na tradição crítica brasileira, especialmente em Antonio Candido, para quem a leitura do passado deve sempre servir à compreensão do presente, e não à sua legitimação acrítica⁵.

Em síntese, Que luz boa em Lisboa propõe uma leitura do mito português fundada na consciência histórica. Entre o Quinto Império e a lucidez crítica, o livro escolhe a via da interpretação responsável. O mito é preservado como linguagem cultural, mas submetido ao exame rigoroso do ensaio. Dessa tensão emerge uma compreensão mais complexa de Portugal, não como destino manifesto, mas como cultura que se pensa a partir de suas próprias contradições.

 

 

NOTAS

 

  1. VIEIRA, Antonio. História do futuro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982;
  2. PESSOA, Fernando. Mensagem. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.
  3. LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Gradiva, 2000.
  4. SARAIVA, Antonio José; LOPES, Óscar. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora, 1996.
  5. FRANÇA, José-Augusto. A arte em Portugal no século XIX. Lisboa: Bertrand, 1991.
  6. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

 

 

CAPÍTULO VI

 

A tradição literária portuguesa como consciência nacional

 

Em Que luz boa em Lisboa, a tradição literária portuguesa não surge como simples repertório de citações eruditas, mas como verdadeira consciência histórica da nação. A literatura é compreendida como espaço privilegiado de elaboração simbólica da experiência portuguesa, capaz de articular passado, presente e projeto cultural. Catunda lê os grandes autores da tradição não como monumentos isolados, mas como vozes em diálogo contínuo, que constituem uma forma de pensamento coletivo.

Essa concepção aproxima-se diretamente da perspectiva crítica de Antonio Candido, para quem a literatura desempenha função estruturante na formação das sociedades modernas¹. Em Portugal, essa função adquire intensidade particular, dado o papel central da escrita na construção do imaginário nacional. O ensaio identifica em Camões, Vieira, Eça de Queirós e Fernando Pessoa eixos fundamentais desse processo.

 

Luís de Camões ocupa lugar inaugural nessa tradição. Os Lusíadas não apenas narram a expansão marítima portuguesa, mas instauram uma forma épica atravessada pela consciência da fragilidade humana e histórica. Catunda sublinha que a luz presente no poema camoniano é ambígua: ilumina os feitos heroicos, mas também expõe a precariedade da glória e a instabilidade do destino.

Essa ambiguidade confere ao épico camoniano uma densidade moderna. Ao contrário de uma celebração ingênua do império, Os Lusíadas já contêm uma reflexão sobre os limites da ação humana. O ensaio sugere que essa tensão funda uma matriz crítica que atravessará toda a literatura portuguesa posterior².

 

Em Vieira, a literatura se converte em instrumento de intervenção histórica e teológica. Seus sermões articulam retórica, política e visão profética, projetando o destino de Portugal para além de seu tempo imediato. Catunda lê Vieira como pensador da palavra eficaz, capaz de operar no mundo, mas também como autor que introduz o mito do Quinto Império como resposta simbólica às crises do presente.

A leitura proposta enfatiza o caráter ambíguo dessa construção. O mito vieiriano é simultaneamente expressão de esperança e tentativa de compensação simbólica diante da decadência histórica. O ensaio reconhece a força intelectual de Vieira, mas também aponta os riscos de uma leitura messiânica da história³.

 

Com Eça de Queirós, a literatura portuguesa assume feição crítica e desmistificadora. O romance realista revela as contradições da sociedade portuguesa oitocentista, desmontando ilusões idealistas e expondo o atraso social e cultural do país. Catunda destaca que, em Eça, a luz deixa de ser símbolo de revelação transcendente e passa a iluminar as fissuras do cotidiano.

Essa mudança representa um momento decisivo na consciência nacional. A literatura deixa de oferecer consolo mítico e passa a exigir lucidez crítica. O ensaio sugere que essa atitude permanece ativa em Que luz boa em Lisboa, na recusa de qualquer leitura idealizada do passado português⁴.

Fernando Pessoa ocupa lugar central na reflexão de Catunda. Sua obra sintetiza e problematiza toda a tradição anterior, ao mesmo tempo em que inaugura uma consciência moderna radicalmente fragmentada. O mito do Quinto Império reaparece em Pessoa, mas agora como projeto cultural e linguístico, não como programa histórico concreto.

O ensaio enfatiza que Pessoa transforma o mito em exercício de imaginação crítica. A pluralidade de heterônimos dissolve a ideia de identidade unívoca, tanto pessoal quanto nacional. Lisboa, em Pessoa, é cidade mental, espaço de introspecção e desassossego. Catunda reconhece nesse gesto uma das expressões mais sofisticadas da modernidade portuguesa⁵.

Ao articular Camões, Vieira, Eça e Pessoa, Que luz boa em Lisboa propõe uma leitura sistêmica da tradição literária portuguesa. Esses autores não são tratados como etapas sucessivas de progresso ou decadência, mas como momentos distintos de um mesmo esforço de interpretação cultural. A literatura aparece, assim, como lugar privilegiado de autoconhecimento coletivo.

Essa leitura evita tanto o nacionalismo celebratório quanto o ceticismo destrutivo. A tradição é compreendida como herança crítica, que exige atualização constante. Catunda sugere que a vitalidade da literatura portuguesa reside precisamente nessa capacidade de se interrogar a si mesma, de transformar glória em problema e mito em reflexão.

Do ponto de vista do ensaio, essa abordagem reafirma a literatura como forma de pensamento histórico. Ao ler os grandes autores portugueses à luz da experiência contemporânea, Que luz boa em Lisboa inscreve-se numa linhagem crítica que vê na escrita não apenas expressão estética, mas instrumento de compreensão do mundo.

 

 

NOTAS

 

  1. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
  2. CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012.
  3. VIEIRA, Antonio. Sermões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.
  4. QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.
  5. PESSOA, Fernando. Mensagem. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998; LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa revisitado. Lisboa: Gradiva, 1993.

 

 

CAPÍTULO VII

 

O narrador-ensaísta: diplomacia cultural, memória e experiência

 

Em Que luz boa em Lisboa, a figura do narrador constitui elemento estruturante da obra. Não se trata de um narrador ficcional nem de um sujeito autobiográfico em sentido estrito, mas de um narrador-ensaísta, cuja voz se constrói na intersecção entre experiência vivida, leitura da tradição e mediação cultural. Essa posição singular confere ao livro sua tonalidade reflexiva e sua densidade interpretativa.

Márcio Catunda escreve a partir de um lugar marcado por três dimensões indissociáveis: a do poeta, a do leitor crítico da tradição portuguesa e a do diplomata. Essa tríplice condição não aparece tematizada de forma explícita, mas organiza silenciosamente o ponto de vista do texto. O narrador não se apresenta como autoridade superior, nem como observador neutro; situa-se numa zona intermediária, própria do ensaio humanista, em que o pensamento nasce do contato atento com o mundo.

Essa postura aproxima-se do ideal de ensaio defendido por Antonio Candido, para quem o crítico deve combinar rigor intelectual e sensibilidade histórica, evitando tanto o impressionismo quanto o dogmatismo¹. Em Catunda, a experiência pessoal não é exibida como fim em si mesma, mas funciona como via de acesso a uma compreensão mais ampla da cultura portuguesa.

A experiência diplomática do autor desempenha papel decisivo na configuração do narrador. Diferentemente do viajante ocasional, o diplomata habita o espaço estrangeiro de modo prolongado e institucional, sendo chamado a representar, interpretar e negociar culturas. Essa experiência se traduz, no livro, numa ética da escuta e da mediação.

O narrador de Que luz boa em Lisboa não se apropria da cultura portuguesa como objeto exótico, nem se coloca em posição de julgamento exterior. Ao contrário, sua escrita sugere um esforço constante de compreensão interna, respeitando a historicidade e a complexidade simbólica do espaço que observa. A diplomacia, aqui, não aparece como prática política imediata, mas como disposição cultural: a capacidade de circular entre códigos, tempos e linguagens².

Essa mediação se expressa na forma do ensaio, gênero que recusa conclusões definitivas e privilegia o movimento do pensamento. O narrador-ensaísta atua como intérprete, não como legislador cultural. Sua autoridade deriva menos do saber acumulado do que da qualidade da atenção dedicada ao objeto.

Outro aspecto central da voz narrativa é a articulação entre memória e experiência. O livro não se organiza como diário pessoal, mas incorpora lembranças, leituras e percepções de modo reflexivo. A memória não é evocada para afirmar uma identidade fixa, mas para problematizar a relação entre passado e presente.

Nesse sentido, o narrador aproxima-se da figura do flâneur intelectual, que percorre a cidade não apenas com os pés, mas com a memória cultural. Cada espaço visitado convoca camadas de tempo, textos lidos, imagens sedimentadas. A experiência urbana transforma-se em experiência interpretativa³.

Essa operação confere ao livro uma temporalidade própria, distinta da linearidade narrativa. O tempo do ensaio é o da associação reflexiva, em que passado e presente se iluminam mutuamente. O narrador não narra acontecimentos; constrói sentidos.

A presença de Fernando Pessoa, especialmente do Livro do Desassossego, constitui um dos eixos mais densos da reflexão de Catunda. Lisboa, em Pessoa, deixa de ser apenas espaço físico e converte-se em cidade interior, cenário da fragmentação subjetiva e da introspecção moderna. O narrador-ensaísta reconhece nesse gesto uma das formas mais complexas de habitar a cidade pela escrita⁴.

O Livro do Desassossego não descreve Lisboa de modo convencional; ele a dissolve em estados de consciência, sensações e reflexões descontínuas. Catunda dialoga com essa tradição ao compreender a cidade como texto, mas mantém distância crítica do solipsismo pessoano. Sua escrita busca equilibrar interioridade e mundo histórico, evitando a dissolução completa do sujeito no desassossego.

É nesse contexto que se insere a referência a O Livro Póstumo de Bernardo Soares, de Vicente Freitas Liot, citado em Que luz boa em Lisboa. A obra de Liot propõe uma releitura crítica e criativa do legado pessoano, tensionando a fronteira entre continuidade e reinvenção. Ao dialogar com o Livro do Desassossego, Liot não busca imitá-lo, mas interrogá-lo a partir de outra temporalidade e de outra experiência cultural⁵.

Catunda reconhece nesse gesto uma operação exemplar da tradição literária: a capacidade de gerar obras que não se limitam à reverência, mas produzem deslocamento crítico. O Livro Póstumo de Bernardo Soares funciona, assim, como espelho contemporâneo do projeto pessoano, revelando tanto sua força quanto seus impasses.

A analogia estabelecida no ensaio sugere que a tradição só permanece viva quando aceita ser reescrita. Ao mencionar Liot, Catunda insere a literatura portuguesa num circuito transatlântico, em que autores brasileiros não apenas leem, mas dialogam criativamente com o cânone português.

Em última instância, o narrador-ensaísta de Que luz boa em Lisboa encarna uma forma ética de relação com a cultura. Sua escrita recusa a apropriação instrumental do outro e afirma a interpretação como gesto de responsabilidade. Narrar, aqui, não é possuir, mas compreender.

Essa postura confirma a afinidade profunda do livro com o ensaio humanista. O narrador não busca encerrar sentidos, mas abri-los; não pretende falar em nome da tradição, mas dialogar com ela. Nesse equilíbrio entre proximidade e distância, experiência e reflexão, o narrador-ensaísta emerge como figura central do projeto intelectual de Márcio Catunda.

 

 

NOTAS

 

  1. CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.
  2. SAID, Edward. Representações do intelectual. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  3. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.
  4. PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.
  5. LIOT, Vicente Freitas. O livro póstumo de Bernardo Soares. Joinville: Clube de Autores, 2023.

 

 

 

CAPÍTULO VIII

 

Cosmopolitismo e pertencimento: o olhar brasileiro sobre Portugal

 

Que luz boa em Lisboa constrói-se a partir de uma posição cultural específica: a do intelectual brasileiro que se volta para Portugal não como metrópole idealizada nem como origem incontestável, mas como espaço histórico partilhado, atravessado por heranças, rupturas e reinvenções. Essa posição intermediária confere ao livro uma perspectiva cosmopolita singular, marcada simultaneamente pelo pertencimento e pela distância crítica.

O cosmopolitismo que atravessa a obra não se confunde com abstração universalista. Ele nasce de uma experiência concreta de trânsito entre culturas, línguas e tradições literárias. Catunda escreve a partir de uma língua comum, mas consciente das diferenças históricas e simbólicas que separam — e também aproximam — Brasil e Portugal. Essa consciência impede tanto a submissão cultural quanto a recusa ressentida da herança.

Nesse sentido, o ensaio insere-se numa tradição crítica brasileira que, desde Antonio Candido, pensa a relação com Portugal de modo dialético: como herança formadora, mas não determinante; como diálogo possível, mas não hierárquico¹. Que luz boa em Lisboa atualiza essa postura ao deslocar o eixo da análise da questão colonial para o campo da cultura compartilhada.

O olhar brasileiro lançado sobre Lisboa é marcado pela consciência de uma herança comum que não pode ser ignorada. A língua portuguesa, a tradição literária e certos imaginários históricos constituem um fundo compartilhado. No entanto, Catunda evita qualquer noção de continuidade linear ou identidade essencial. A herança aparece como material simbólico a ser reinterpretado, não como destino cultural.

Essa atitude manifesta-se na forma como o ensaio lê a tradição portuguesa: com respeito, mas sem reverência acrítica. O narrador reconhece a centralidade de Camões, Pessoa e Vieira, mas lê esses autores a partir de uma experiência histórica outra, marcada pela formação cultural brasileira. O resultado é uma leitura deslocada, que ilumina aspectos da tradição portuguesa menos visíveis a partir de dentro².

O cosmopolitismo defendido pelo livro é, portanto, situado. Ele não pressupõe a dissolução das identidades nacionais, mas a capacidade de habitá-las criticamente. Lisboa aparece como cidade aberta, porto simbólico, espaço de passagem e cruzamento de culturas. Essa imagem dialoga com a própria experiência histórica portuguesa, marcada pela expansão marítima e pelo contato com o outro.

Catunda sugere que o cosmopolitismo português contemporâneo só pode ser compreendido à luz de sua história ambivalente: entre abertura e dominação, encontro e violência. O olhar brasileiro, vindo de uma ex-colônia, introduz nesse quadro uma dimensão ética específica, ao reinscrever a experiência colonial no campo da reflexão cultural, e não da acusação simplificadora.

É nesse horizonte que a presença de Vicente Freitas Liot adquire relevância ampliada. A obra de Liot, especialmente O Livro Póstumo de Bernardo Soares, constitui exemplo emblemático de uma escrita transatlântica, que dialoga intensamente com a tradição portuguesa sem abdicar de uma posição brasileira. Ao reinscrever Bernardo Soares num contexto outro, Liot realiza uma operação crítica que tensiona as fronteiras do cânone.

Catunda reconhece nessa escrita um gesto de pertencimento crítico. Liot não escreve “sobre” Pessoa; escreve a partir de Pessoa, mas deslocando-o. Essa operação não implica apropriação indevida, mas diálogo criativo. O Livro Póstumo de Bernardo Soares assume explicitamente sua condição de obra derivada, mas transforma essa derivação em motor reflexivo³.

A leitura de Catunda sugere que Liot encarna uma forma contemporânea de cosmopolitismo literário, em que a tradição é compreendida como espaço de circulação simbólica, e não como patrimônio exclusivo. Essa postura aproxima-se de uma ética da literatura defendida por críticos como Silviano Santiago, para quem a relação com o cânone europeu deve operar por meio da diferença e da reinvenção, e não da mera assimilação⁴.

O diálogo entre Brasil e Portugal, tal como aparece em Que luz boa em Lisboa, não se dá no plano da nostalgia nem da reconciliação sentimental. Trata-se de um encontro entre consciências históricas distintas, ambas marcadas por processos de formação complexos. O ensaio sugere que esse diálogo só é fecundo quando reconhece as assimetrias do passado sem se aprisionar a elas.

A posição do narrador brasileiro permite uma leitura de Portugal menos autocentrada, mas também menos indulgente. Lisboa surge como cidade que precisa ser pensada para além de seus próprios mitos, assim como o Brasil precisa repensar sua relação com a herança portuguesa sem reduzi-la a trauma ou caricatura.

Do ponto de vista formal, o cosmopolitismo do livro manifesta-se na própria prática do ensaio. A escrita circula entre referências portuguesas, brasileiras e europeias, construindo um campo de reflexão que recusa fronteiras rígidas. Essa circulação não é ornamental, mas estrutural: ela corresponde à própria experiência cultural contemporânea.

Assim, Que luz boa em Lisboa afirma o ensaio como forma privilegiada de pensamento cosmopolita. Ao articular pertencimento e distância, herança e crítica, o livro propõe uma maneira ética de habitar o mundo cultural globalizado, sem renunciar à densidade histórica nem à singularidade das tradições.

 

 

NOTAS

 

  1. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
  2. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  3. LIOT, Vicente Freitas. O livro póstumo de Bernardo Soares. Joinville: Clube de Autores, 2023.
  4. SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

 

 

CAPÍTULO IX

 

Linguagem, estilo e ética da clareza

 

Em Que luz boa em Lisboa, a linguagem não constitui mero veículo da reflexão, mas o próprio lugar em que o pensamento se realiza. A prosa de Márcio Catunda apresenta-se como forma de pensamento, marcada por clareza, contenção e densidade reflexiva. Essa escolha estilística implica uma ética da escrita, que se opõe tanto ao obscurantismo conceitual quanto ao ornamento gratuito.

A clareza, aqui, não deve ser confundida com simplicidade redutora. Trata-se de uma clareza construída, que resulta de trabalho rigoroso sobre a linguagem. Catunda escreve de modo a tornar legível a complexidade do objeto, sem dissolvê-la em explicações esquemáticas. Essa postura aproxima-se da concepção de estilo defendida por Antonio Candido, para quem a forma literária é inseparável de uma atitude ética diante do leitor¹.

A escrita de Que luz boa em Lisboa inscreve-se na tradição do ensaio humanista, em que a linguagem acompanha o movimento do pensamento. O texto evita jargões técnicos e excessos terminológicos, optando por uma prosa fluida, capaz de articular sensibilidade e conceito. Essa fluidez não implica ausência de rigor, mas adequação entre forma e conteúdo.

O ensaio se constrói por meio de associações controladas, digressões significativas e retornos reflexivos. A cidade, a luz, a tradição literária e a experiência pessoal são integradas numa sintaxe que privilegia a continuidade argumentativa. O estilo reflete, assim, uma concepção de cultura como sistema de relações, e não como soma de fragmentos.

A opção pela clareza assume, no livro, valor ético. Escrever de modo inteligível significa respeitar o leitor e reconhecer o caráter público da reflexão cultural. Catunda não escreve para um círculo restrito de especialistas, mas para um leitor cultivado, interessado em compreender a complexidade da experiência histórica e literária portuguesa.

Essa postura distingue o ensaio de discursos críticos marcados pela opacidade deliberada. Ao recusar o hermetismo, Que luz boa em Lisboa afirma a crítica como prática de mediação cultural. A clareza torna-se, assim, instrumento de democratização simbólica, sem perda de densidade intelectual².

A comparação com Vicente Freitas Liot revela afinidades e tensões produtivas. Em O Livro Póstumo de Bernardo Soares, Liot adota uma escrita igualmente contida, mas marcada por maior grau de fragmentação. Se Catunda privilegia a continuidade ensaística, Liot opera por meio de interrupções, lacunas e silêncios, dialogando diretamente com a herança pessoana.

Ambos, contudo, compartilham uma ética da linguagem. Em Liot, a clareza não se manifesta como linearidade, mas como precisão. Cada fragmento busca dizer apenas o necessário, evitando redundâncias e efeitos decorativos. Essa economia verbal aproxima sua escrita de uma tradição brasileira de rigor formal, que inclui João Cabral de Melo Neto³.

A prosa de Catunda pode ser comparada, em chave ensaística, à atitude crítica de autores como Carlos Drummond de Andrade, especialmente em seus textos reflexivos, nos quais a clareza convive com a consciência da complexidade histórica. Em Drummond, assim como em Catunda, a linguagem busca nomear o mundo sem ilusões totalizantes.

Com João Cabral de Melo Neto, o parentesco se dá no plano ético. A recusa do excesso retórico e a valorização da precisão verbal aproximam a prosa ensaística de Catunda da poética cabralina, ainda que em registros distintos. Ambos compartilham a convicção de que a forma é resultado de disciplina intelectual, e não de espontaneísmo expressivo⁴.

Já em Murilo Mendes, o diálogo se estabelece por contraste. A escrita muriliana, marcada pela imaginação e pela abertura ao transcendente, representa uma outra via da modernidade brasileira. Catunda, ao contrário, privilegia a sobriedade reflexiva. Ainda assim, ambos convergem na recusa do banal e na exigência de densidade simbólica.

No contexto contemporâneo, marcado pela aceleração discursiva e pela superficialidade informacional, a ética da clareza proposta por Que luz boa em Lisboa adquire relevância particular. O livro afirma a necessidade de um tempo lento da leitura e da escrita, em que a reflexão possa amadurecer.

A linguagem ensaística de Catunda resiste à lógica da comunicação imediata, sem se fechar em hermetismo elitista. Essa resistência se manifesta como escolha ética: escrever com clareza é recusar tanto a simplificação vulgar quanto a obscuridade complacente. A clareza torna-se, assim, forma de responsabilidade intelectual.

Em síntese, Que luz boa em Lisboa propõe uma concepção de linguagem em que estilo, pensamento e ética se articulam indissociavelmente. A prosa clara e rigorosa de Márcio Catunda não apenas exprime uma visão de mundo, mas encarna uma postura crítica diante da cultura contemporânea. Ao dialogar com Vicente Freitas Liot e com a tradição moderna brasileira, o livro reafirma a clareza como valor estético e civilizatório.

 

 

NOTAS

 

  1. CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Humanitas, 2006.
  2. BOSI, Alfredo. Ideologia e contraideologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  3. LIOT, Vicente Freitas. O livro póstumo de Bernardo Soares. Joinville: Clube de Autores, 2023. 
  4. MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

 

 

 

CAPÍTULO X

 

O ensaio como forma de habitar o mundo

 

Ao longo de Que luz boa em Lisboa, Márcio Catunda constrói não apenas uma leitura da cidade e da tradição portuguesa, mas uma forma específica de relação com o mundo. O livro afirma o ensaio como modo de habitar a experiência histórica, cultural e simbólica, recusando tanto a fixidez dogmática quanto a dispersão impressionista. Cidade, linguagem e ética articulam-se, assim, num projeto intelectual coerente, que confere à obra sua singularidade.

Lisboa, lida como texto e como palimpsesto histórico, constitui o espaço privilegiado dessa experiência. A cidade não aparece como objeto externo de contemplação, mas como lugar de interlocução contínua. Ao caminhar por Lisboa, o narrador-ensaísta percorre também camadas de tempo, memória e linguagem. O espaço urbano converte-se em dispositivo hermenêutico, capaz de revelar a complexidade da experiência histórica portuguesa.

Essa leitura da cidade inscreve-se numa tradição ensaística que concebe o espaço como forma de pensamento. Tal como Roma em Montaigne, Paris em Benjamin ou Atenas na tradição filosófica clássica, Lisboa emerge, em Catunda, como cidade-texto, cuja inteligibilidade depende da articulação entre percepção sensível e reflexão histórica¹. O ensaio transforma o deslocamento físico em deslocamento interpretativo.

A categoria da luz, eixo simbólico central da obra, sintetiza essa articulação. A luz ilumina a cidade, mas também orienta a escrita. Ela não promete transparência absoluta, mas visibilidade suficiente para que o pensamento se mova. Ao insistir na luz como metáfora histórica e metafísica, o livro afirma uma concepção de conhecimento consciente de seus limites, mas não resignada à obscuridade.

A tradição literária portuguesa, lida como consciência nacional, oferece o horizonte simbólico no qual essa experiência se inscreve. Camões, Vieira, Eça e Pessoa não aparecem como autoridades imobilizadas, mas como interlocutores vivos, continuamente reativados pelo gesto ensaístico. O ensaio, aqui, não visa à exegese especializada, mas à compreensão cultural ampla, fiel ao espírito humanista².

A posição do narrador-ensaísta, brasileiro e diplomata, confere à obra uma dimensão cosmopolita singular. O olhar que se dirige a Portugal é simultaneamente interno e externo, marcado por pertencimento linguístico e distância histórica. Essa posição permite uma leitura desidealizada da tradição, capaz de reconhecer suas grandezas sem silenciar suas contradições. O cosmopolitismo do livro não dissolve identidades, mas as submete à reflexão crítica.

A linguagem clara e rigorosa do ensaio traduz essa ética da permanência crítica. Escrever com clareza, em Que luz boa em Lisboa, significa assumir responsabilidade diante do leitor e da cultura. A prosa não se apresenta como demonstração de virtuosismo técnico, mas como instrumento de compreensão compartilhada. Nesse ponto, o livro afirma a crítica literária como prática pública, voltada para a ampliação do horizonte de leitura e de experiência.

Ao escolher o ensaio como forma, Catunda afirma também uma postura diante do mundo contemporâneo. Em tempos de aceleração discursiva e fragmentação da experiência, o ensaio oferece um espaço de lentidão reflexiva, no qual o pensamento pode amadurecer. Habitar o mundo, aqui, significa interpretá-lo, não consumi-lo.

Em síntese, Que luz boa em Lisboa propõe uma concepção de cultura fundada na leitura atenta, na memória crítica e na ética da clareza. O livro não pretende oferecer respostas definitivas, mas caminhos interpretativos. Sua contribuição reside precisamente nessa recusa da conclusão fechada, que transforma a crítica em exercício contínuo de compreensão.

À maneira de Antonio Candido, o ensaio afirma que a literatura e a crítica só se justificam quando ajudam a tornar o mundo mais inteligível e mais habitável. Que luz boa em Lisboa cumpre essa função ao iluminar, com sobriedade e rigor, a cidade, a tradição e a experiência humana nelas inscritas. A luz que o livro oferece não é fulgor momentâneo, mas claridade durável — suficiente para orientar o pensamento no interior da complexidade histórica e cultural.

 

 

NOTAS

 

  1. BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
  2. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

 

 

 

RESUMO

 

Este ensaio crítico-literário analisa a obra Que luz boa em Lisboa, de Márcio Catunda, a partir de uma perspectiva ensaística de filiação humanista. O estudo examina a construção de Lisboa como cidade-texto e personagem histórica, a centralidade simbólica da luz como metáfora sensorial, histórica e metafísica, e o diálogo da obra com a tradição literária portuguesa, especialmente Camões, Padre Antonio Vieira, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Analisa-se ainda a figura do narrador-ensaísta como mediador cultural, destacando-se o olhar brasileiro sobre Portugal em chave cosmopolita e crítica. O ensaio aborda a linguagem de Márcio Catunda como forma de pensamento e escolha ética, enfatizando a clareza como valor estético e civilizatório. Por fim, discute-se o ensaio como modo de habitar o mundo, articulando cidade, memória, linguagem e ética, e situando Que luz boa em Lisboa no contexto contemporâneo da crítica literária e cultural.

Palavras-chave: Ensaio literário. Lisboa. Tradição portuguesa. Crítica literária.

 

 


         REFERÊNCIAS

 

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos. Petrópolis: Vozes, 2002.

 

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Tradução de José Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1989.

 

BENJAMIN, Walter. Passagens. Tradução de Irene Aron. Belo Horizonte: UFMG, 2009.

 

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 

BOSI, Alfredo. Ideologia e contraideologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. Tradução de Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012.

 

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

 

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.

 

CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

 

CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Humanitas, 2006.

 

FRANÇA, José-Augusto. A arte em Portugal no século XIX. Lisboa: Bertrand, 1991.

 

FRANÇA, José-Augusto. Lisboa pombalina e o iluminismo. Lisboa: Bertrand, 1987.

 

LIOT, Vicente Freitas. O livro póstumo de Bernardo Soares. Joinville: Clube de Autores, 2023.

 

LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa revisitado. Lisboa: Gradiva, 1993.

 

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade. Lisboa: Gradiva, 2000.

 

MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

 

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Organização de Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.

 

PESSOA, Fernando. Mensagem. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.

 

QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.

 

SAID, Edward. Representações do intelectual. Tradução de Milton Hatoum. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

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VIEIRA, Antonio. História do futuro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982.

 

VIEIRA, Antonio. Sermões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

 

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