![]() |
| Estátua de Mário de Sá Carneiro por Vítor Oliveira |
Vejo-o ainda — e não sei se o vejo ou se o invento — a
caminhar pelas ruas de Paris, não como quem passeia, mas como quem se procura.
Porque ele não caminhava: dispersava-se. Cada passo era uma perda. Cada
esquina, um outro de si que ficava para trás, abandonado como um lenço
esquecido no bolso de um sonho alheio.
E escrevia. Ah, como escrevia — mas não para dizer: para
tentar caber dentro do que dizia. A palavra, nele, não era instrumento; era
vertigem. Era uma escada que subia para dentro, cada vez mais funda. Em
Dispersão, não se reúne: estilhaça-se com método, como quem organiza o caos em
lâminas finas, para melhor se ferir.
Nunca foi homem inteiro. Talvez porque cedo lhe faltou o
primeiro espelho — a mãe — e ficou condenado a refletir-se no vazio. E o vazio,
sabe-se, não devolve: inventa. Daí esse narcisismo febril, não de vaidade, mas
de ausência. Ele olhava-se para existir — e quanto mais se olhava, menos era.
Seu amigo — ou cúmplice de vertigens — Fernando Pessoa
compreendeu-o como poucos. Não o salvou — ninguém salva quem se afunda em si
mesmo com tamanha lucidez — mas escutou-lhe o naufrágio. Entre cartas e
silêncios, foram dois solitários conversando no plural. Um inventava
heterônimos; o outro dissolvia-se sem nome suficiente.
E houve Orpheu — escândalo, riso, ruína, glória futura.
Uma revista que foi menos publicação que explosão. Ali, Mário não escreveu:
incendiou-se. Não quis agradar — quis ferir. E feriu. A burguesia, o gosto, a
lógica — e sobretudo a si mesmo.
Mas há um limite para o excesso de si. Um ponto em que o
eu, de tanto se multiplicar, já não se suporta. E então, o gesto final não é
fuga: é coerência.
Num quarto de hotel — sempre os quartos, essas cápsulas
de solidão — em Montmartre, ele decidiu terminar-se. Não por desespero apenas,
mas por estética última. Como se a vida fosse um rascunho que lhe saiu
imperfeito — e a morte, a versão definitiva.
Não digam que foi fraqueza. Foi excesso.
Porque Mário não quis viver menos: quis viver mais do que
cabia. E isso, como sabemos, é fatal.
A sua obra — A
Confissão de Lúcio, Céu em Fogo —
não são livros: são sintomas. São o retrato de um homem que nunca conseguiu
coincidir consigo próprio. Que foi sempre intervalo, sempre desfasamento,
sempre outro.
E talvez por isso permaneça.
Porque há escritores que dizem o mundo — e há aqueles,
raros, que dizem o impossível de dizer: a fratura de existir.
Mário foi esse.
Não viveu: ardeu.
E ainda arde — em cada leitor que, ao abri-lo, se perde.
Vicente Freitas
Liot

Nenhum comentário:
Postar um comentário