domingo, fevereiro 25, 2007

MÁRIO

Estátua de Mário de Sá Carneiro
por Vítor Oliveira
Há homens que vivem; há outros que se sonham. E depois há aquele — Mário — que não foi uma coisa nem outra, mas um intervalo febril entre ambas, uma vertigem suspensa, um espelho que não devolvia o rosto, antes o multiplicava em abismos.

Vejo-o ainda — e não sei se o vejo ou se o invento — a caminhar pelas ruas de Paris, não como quem passeia, mas como quem se procura. Porque ele não caminhava: dispersava-se. Cada passo era uma perda. Cada esquina, um outro de si que ficava para trás, abandonado como um lenço esquecido no bolso de um sonho alheio.

E escrevia. Ah, como escrevia — mas não para dizer: para tentar caber dentro do que dizia. A palavra, nele, não era instrumento; era vertigem. Era uma escada que subia para dentro, cada vez mais funda. Em Dispersão, não se reúne: estilhaça-se com método, como quem organiza o caos em lâminas finas, para melhor se ferir.

Nunca foi homem inteiro. Talvez porque cedo lhe faltou o primeiro espelho — a mãe — e ficou condenado a refletir-se no vazio. E o vazio, sabe-se, não devolve: inventa. Daí esse narcisismo febril, não de vaidade, mas de ausência. Ele olhava-se para existir — e quanto mais se olhava, menos era.

Seu amigo — ou cúmplice de vertigens — Fernando Pessoa compreendeu-o como poucos. Não o salvou — ninguém salva quem se afunda em si mesmo com tamanha lucidez — mas escutou-lhe o naufrágio. Entre cartas e silêncios, foram dois solitários conversando no plural. Um inventava heterônimos; o outro dissolvia-se sem nome suficiente.

E houve Orpheu — escândalo, riso, ruína, glória futura. Uma revista que foi menos publicação que explosão. Ali, Mário não escreveu: incendiou-se. Não quis agradar — quis ferir. E feriu. A burguesia, o gosto, a lógica — e sobretudo a si mesmo.

Mas há um limite para o excesso de si. Um ponto em que o eu, de tanto se multiplicar, já não se suporta. E então, o gesto final não é fuga: é coerência.

Num quarto de hotel — sempre os quartos, essas cápsulas de solidão — em Montmartre, ele decidiu terminar-se. Não por desespero apenas, mas por estética última. Como se a vida fosse um rascunho que lhe saiu imperfeito — e a morte, a versão definitiva.

Não digam que foi fraqueza. Foi excesso.

Porque Mário não quis viver menos: quis viver mais do que cabia. E isso, como sabemos, é fatal.

A sua obra — A Confissão de Lúcio, Céu em Fogo — não são livros: são sintomas. São o retrato de um homem que nunca conseguiu coincidir consigo próprio. Que foi sempre intervalo, sempre desfasamento, sempre outro.

E talvez por isso permaneça.

Porque há escritores que dizem o mundo — e há aqueles, raros, que dizem o impossível de dizer: a fratura de existir.

Mário foi esse.

Não viveu: ardeu.

E ainda arde — em cada leitor que, ao abri-lo, se perde.

 

Vicente Freitas Liot

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