INTRODUÇÃO
A literatura como cartografia do
inferno
Há livros que não se leem: atravessam-se. Não pedem
ao leitor apenas os olhos, mas o corpo inteiro, como se cada página fosse um
degrau numa escada que desce, não para o centro da terra, mas para o centro do
homem. Terra de Demônios, de Márcio Catunda, é um desses livros. Não
porque narre monstros com chifres ou fogueiras metafísicas, mas porque entende,
com lucidez, que o inferno moderno não precisa de enxofre: basta a burocracia,
o poder sem rosto, a cidade em ruínas e a normalização da crueldade cotidiana.
A Ilha dos Patrupachas não é um lugar; é um estado
do mundo. E talvez, pior, um estado da consciência. Catunda constrói ali uma
geografia moral onde tudo fede a corrupção, abandono, delírio e miséria
institucionalizada. Não há necessidade de dragões quando o homem se torna capaz
de administrar o mal com naturalidade, quando aprende a carimbar a dor alheia
como quem carimba papéis inúteis. O romance se ergue, assim, como uma alegoria
da civilização em colapso, um retrato satírico e trágico daquilo que chamamos
progresso.
O protagonista, Crátilo Portela, não é herói no
sentido clássico. É, antes, o homem comum lançado ao absurdo. Carrega consigo
uma esperança que vai sendo lentamente corroída pelo contato com a engrenagem
do poder, com a estupidez organizada, com a violência travestida de rotina.
Crátilo é um sujeito que chega com livros na bagagem e descobre que, naquela
ilha, os livros servem melhor como papel higiênico. E esta imagem, que poderia
ser apenas grotesca, é, na verdade, profundamente simbólica: a cultura não é
destruída ali por incêndios, mas por desprezo.
Terra de Demônios
insere-se numa linhagem de romances alegóricos e políticos que usam o exagero,
o grotesco e a ironia para revelar verdades incômodas. Há ecos de Kafka na
opressão burocrática, de Orwell na vigilância e na manipulação, de Lima Barreto
na sátira do poder e de Swift na construção de uma ilha que é espelho deformado
— e por isso mesmo mais fiel — da realidade. Mas Catunda não imita: ele traduz
para a língua brasileira, latino-americana e contemporânea a experiência do
colapso institucional.
Este ensaio propõe-se a ler Terra de Demônios
não apenas como romance, mas como diagnóstico
moral. Um livro que pergunta, a cada página: até onde vai a tolerância
humana diante do absurdo? Quanto sofrimento é necessário para que alguém deixe
de achar normal aquilo que é monstruoso? E mais: que tipo de sociedade produz
sujeitos como o Dr. Clemente Brandão, esse Diretor Demente que governa com
manequins, delírios e chicotes simbólicos?
A linguagem de Catunda é deliberadamente impura:
mistura o trágico e o cômico, o lírico e o grotesco, o realismo sujo e a
alegoria metafísica. Seu riso não é leve; é ácido. Sua ironia não consola;
fere. A prosa avança como um rio contaminado, levando consigo imagens de
hospitais imundos, ruas sem alma, chefes enlouquecidos e cidadãos reduzidos à
condição de figurantes do próprio desastre. A cidade é uma prisão sem muros. A
empresa é um manicômio administrativo. O Estado é um delírio organizado.
Ao optar por um ensaio crítico literário, busca-se
aqui não apenas analisar a obra, mas respirá-la,
deixar que ela contamine o pensamento com suas perguntas. Porque Terra de Demônios
não é livro que se fecha impune: ele permanece ecoando, como um uivo distante,
lembrando que a barbárie não é exceção da história — é seu hábito.
Este trabalho, portanto, percorre a ilha de Catunda
como quem percorre uma ruína viva. Cada capítulo do ensaio buscará compreender
os mecanismos simbólicos do romance: o espaço como personagem moral, o poder
como loucura, a burocracia como violência, o corpo como campo de humilhação, a
cidade como máquina de desespero. E, sobretudo, investigará a ética da escrita
de Catunda: uma escrita que não adorna o inferno, mas o expõe em carne viva.
Porque, ao fim, talvez reste apenas isso: a
literatura como último território de lucidez. Quando tudo parece podre, quando
as instituições se tornaram caricaturas de si mesmas, quando o homem aprende a
conviver com o horror como se fosse rotina, ainda há quem escreva. E escrever,
aqui, é resistir. Se a ilha uiva, é porque ainda há quem escute.
CAPÍTULO 1
Márcio Catunda: o poeta que
desceu ao abismo da prosa
Há escritores que começam pela narrativa e, depois,
aprendem a respirar poesia. Márcio Catunda fez o caminho inverso: veio da
poesia, e talvez por isso sua prosa nunca esqueceu o ritmo, a imagem, a
pulsação do verso. Mesmo quando escreve o horror, há em sua linguagem uma
musicalidade soturna, uma cadência de quem aprendeu, antes de tudo, a ouvir o
mundo. Terra de Demônios é o romance de um poeta que resolveu atravessar
a lama sem perder o ouvido.
Catunda não abandona a poesia quando entra na
ficção; ele a transforma em instrumento crítico. Sua frase é longa, sinuosa,
carregada de imagens que não servem para enfeitar o texto, mas para escavar
sentidos. Não há lirismo decorativo. Há lirismo de confronto. Como em Saramago,
a prosa se alonga porque pensa enquanto anda, tropeça nas próprias ideias,
volta atrás, ironiza, corrige-se, avança. O narrador não descreve: interroga.
Vindo de uma tradição lírica marcada pela
observação do social, Catunda traz para a narrativa a sensibilidade do poeta
que não aceita o mundo como ele se apresenta. Seu olhar não é neutro. Ele vê a
cidade e já enxerga a ferida; vê o poder e já pressente a demência; vê o homem
comum e percebe, ao mesmo tempo, sua dignidade e sua tragédia. A poesia, aqui,
não é refúgio: é lente de aumento.
Há algo de profundamente ético nessa passagem da
poesia para a prosa. O poeta que escreve romances não o faz para contar uma
história qualquer, mas para ampliar o campo de combate. Se a poesia grita, a
prosa organiza o grito. Se o verso acusa, o romance estrutura a acusação. Terra
de Demônios nasce dessa necessidade de dizer mais, de construir uma máquina
narrativa capaz de expor o funcionamento do mal.
Catunda escreve como quem desce ao porão da
linguagem. Ele não se satisfaz com a superfície dos fatos. Quer ver o que
apodrece por baixo. Seus personagens não são tipos sociais caricatos: são seres
humanos esmagados por sistemas que não entendem, mas dos quais não conseguem
escapar. A poesia que ele traz para a prosa serve justamente para isso:
humanizar o que a máquina desumaniza.
O poeta, ao entrar na narrativa, aprende a lidar
com o tempo de outra forma. O verso é relâmpago; o romance é tempestade.
Catunda aceita essa dilatação do tempo narrativo para mostrar como o mal não
acontece de repente. Ele se instala. Cresce devagar. Naturaliza-se. O abismo
não surge de um salto: é escavado aos poucos, com pequenas concessões, com
pequenas violências, com pequenas mentiras aceitas.
Há, em sua escrita, uma consciência aguda da
tradição. Ele dialoga, mesmo sem citar, com os grandes narradores do desencanto
moderno: Kafka, Orwell, Huxley, Lima Barreto, Graciliano Ramos. Mas não os
imita; absorve deles a coragem. A coragem de escrever contra o conforto, contra
a ordem estabelecida, contra o bom senso dos satisfeitos.
A poesia, em Catunda, não suaviza a realidade — ao
contrário, a torna mais insuportável. Porque quem vê poeticamente vê demais. Vê
o detalhe que denuncia, a imagem que acusa, a metáfora que rasga o véu. Sua
prosa carrega esse excesso de visão. É uma escrita que não sabe fechar os
olhos.
Em Terra de Demônios, o poeta já não canta:
testemunha. E testemunhar, aqui, é um ato político. Não no sentido partidário,
mas no sentido mais radical: o de se recusar a aceitar o mundo como normal
quando ele é, claramente, insano. Catunda escreve como quem diz: não me
acostumo.
Descer ao abismo da prosa foi, para ele, uma forma
de ampliar a superfície da denúncia. A poesia lhe deu o ouvido. A narrativa lhe
deu o alcance. E o resultado é esse romance áspero, satírico, desesperado e, paradoxalmente,
humano. Porque, no fundo, só quem ainda acredita no homem é capaz de escrever
um livro tão duro sobre sua queda.
Catunda, o poeta, não se perdeu na prosa. Encontrou
ali um outro modo de ser fiel à sua origem: dizer, com todas as letras e imagens,
que o mundo precisa ser lido — e relido — com desconfiança.
CAPÍTULO 2
A Ilha dos Patrupachas: metáfora
do mundo em decomposição
Toda grande alegoria começa por um lugar. Não um
lugar qualquer, mas um espaço que não pretende ser apenas geográfico — pretende
ser moral. A Ilha dos Patrupachas, em Terra de Demônios, não é um
cenário: é uma sentença. Antes mesmo que os personagens ajam, o espaço já fala.
E o que ele diz é simples e terrível: aqui, tudo apodrece.
A ilha surge como um território isolado, mas não do
mundo — isolado da consciência. É uma espécie de laboratório do absurdo, onde o
poder experimenta seus delírios e a população aprende, dia após dia, a conviver
com eles. Não há horizonte, no sentido simbólico da palavra. O mar cerca, mas
não liberta. Ao contrário do mito da ilha paradisíaca, que promete refúgio e
pureza, a Patrupachas é a negação do Éden: é o espaço onde a queda já aconteceu
e ninguém mais se lembra de como era antes.
Catunda constrói essa ilha como um organismo
doente. As ruas fedem, os prédios adoecem, as instituições enlouquecem. O
espaço físico reflete o espaço ético. Quando a cidade está suja, não é apenas
sujeira: é a imagem visível de uma sujeira invisível, mais profunda, que se
alojou na alma coletiva. A degradação urbana é o retrato da degradação humana.
A ilha, portanto, não é metáfora apenas do Brasil,
nem apenas da América Latina. É metáfora do mundo moderno quando ele se entrega
à lógica da violência organizada. É o planeta visto pelo avesso. O que em
outros lugares se chama progresso, ali se chama controle. O que se chama ordem,
ali se traduz como repressão. O que se chama desenvolvimento, ali significa
exclusão.
O espaço da ilha é claustrofóbico não porque faltem
metros quadrados, mas porque falta sentido. Tudo parece funcionar, mas nada faz
sentido. A engrenagem gira, os papéis circulam, os cargos se multiplicam, mas a
vida encolhe. A ilha cresce para cima, em prédios e repartições, enquanto o
humano afunda para dentro, em medo e resignação.
Crátilo Portela chega à ilha como quem chega a um
mundo novo. Mas logo descobre que não se trata de novidade — trata-se de uma
repetição amplificada do que já existe em outros lugares, apenas mais
explícita, mais grotesca, mais honesta em sua crueldade. A Patrupachas é o
mundo sem maquiagem.
Há algo de infernal na lógica do espaço. Não um
inferno mitológico, com fogo e demônios visíveis, mas um inferno administrativo.
O mal não se manifesta em monstros, mas em carimbos, ordens, regulamentos e
hierarquias absurdas. O espaço da ilha é o espaço onde a violência virou
método.
O mais perturbador, porém, não é a brutalidade em
si, mas sua naturalização. As pessoas não estranham mais. A sujeira não
incomoda. A opressão não escandaliza. A loucura não assusta. Tudo foi
incorporado ao cotidiano. A ilha é o lugar onde o homem desaprendeu a se
indignar.
Nesse sentido, a Ilha dos Patrupachas é uma
metáfora do mundo em decomposição porque revela um estágio avançado da doença
social: aquele em que o mal já não é combatido, apenas administrado. Não se
tenta mais curar — tenta-se apenas manter o funcionamento do sistema, mesmo que
ele esteja produzindo cadáveres simbólicos.
Catunda descreve esse espaço com ironia amarga. Não
há nostalgia. Não há saudade de um passado melhor. A ilha não tem passado — só
tem presente contínuo, repetitivo, asfixiante. É o tempo congelado da opressão.
Um eterno agora onde nada melhora, apenas se agrava.
O leitor, ao percorrer a ilha, percebe que não está
lendo sobre um lugar distante. Está lendo sobre um espelho. A Patrupachas
devolve ao mundo sua imagem deformada, e por isso mais verdadeira. Tudo ali é
exagerado — mas o exagero serve para revelar.
A ilha é, portanto, o primeiro grande personagem do
romance. Antes de Clemente Brandão, antes da Ventura, antes mesmo de Crátilo,
há esse espaço que determina o tom de tudo. Um espaço que não acolhe: absorve.
Um espaço que não forma cidadãos: fabrica sobreviventes.
E talvez seja isso o mais cruel: na Ilha dos
Patrupachas, não se vive — resiste-se. E resistir, ali, não é heroico. É apenas
continuar respirando num ar que já não alimenta.
CAPÍTULO 3
Crátilo Portela: o homem comum
diante do absurdo
Crátilo Portela não entra em Terra de Demônios
como herói, nem como mártir, nem como vilão. Entra como entra o leitor:
desarmado. Ele é o homem comum, aquele que acredita que o mundo, apesar de seus
defeitos, ainda pode ser compreendido pela lógica, pela boa-fé, pela razão
mínima que nos permite conviver. E é exatamente por isso que ele está condenado
a sofrer.
Crátilo chega à Ilha dos Patrupachas com uma
bagagem modesta: alguma esperança, um certo idealismo, uma fé residual nas
instituições e, sobretudo, livros. Leva consigo o gesto civilizatório por excelência:
ler. Mas a ilha não é feita para leitores. É feita para obedientes. E o choque
entre o homem que pensa e o sistema que não quer ser pensado é inevitável.
O absurdo que Crátilo encontra não é o do acaso,
mas o da organização. Tudo funciona mal de forma eficiente. A violência não é
caótica: é metódica. A loucura não é individual: é institucional. Diante disso,
Crátilo tenta, no início, compreender. Procura sentido onde já não há. E esse é
o primeiro erro do homem comum: acreditar que todo sistema, por mais cruel,
ainda guarda uma lógica humana.
Mas a lógica da ilha é outra. É a lógica do delírio
administrativo. O que importa não é o justo, nem o verdadeiro, nem o razoável —
importa o que mantém a engrenagem girando. Crátilo começa, então, a experimentar
o que Kafka já havia mostrado: a sensação de culpa sem crime, de punição sem
explicação, de medo sem rosto.
O protagonista sofre uma lenta corrosão. Não há um
momento específico em que ele se quebra. Há uma sequência de pequenas
humilhações, pequenos absurdos, pequenas violências simbólicas que vão, uma a
uma, arrancando pedaços de sua confiança no mundo. Crátilo não cai — ele é
roído.
Sua tragédia é silenciosa. Ele não grita. Não faz
discursos. Não lidera rebeliões. Sua dor é interior, discreta, quase invisível.
E é exatamente por isso que ela é tão representativa. Crátilo é o cidadão comum
esmagado por forças que não compreende, mas que sente todos os dias no corpo e
na alma.
Há nele algo de quixotesco: a insistência em agir
como se o mundo ainda obedecesse a alguma ética. Mas a ilha é um lugar onde a
ética foi substituída por regulamentos. Crátilo tenta argumentar, explicar,
dialogar — e encontra portas fechadas, corredores sem saída, chefes delirantes
e uma burocracia que fala sozinha.
O absurdo não o destrói de imediato. Ele resiste.
Mas sua resistência não é épica — é exausta. Ele continua indo ao trabalho,
continua tentando entender, continua fingindo normalidade. E essa é talvez a
forma mais profunda de sofrimento: viver como se fosse normal aquilo que nos
mata por dentro.
Crátilo não é apenas personagem. É metáfora.
Representa o homem que ainda acredita que a razão pode domar a barbárie. E o
romance mostra, com crueldade lúcida, que a barbárie moderna não é irracional —
é altamente racionalizada. O sistema não enlouqueceu: ele escolheu a loucura
como método.
Aos poucos, Crátilo vai sendo empurrado para as
margens de si mesmo. A identidade que ele trazia — leitor, cidadão, sujeito —
vai sendo substituída por outra: funcionário, número, suspeito. O nome perde
força. O cargo ganha peso. O homem vira função.
E aqui o romance toca numa das questões mais
profundas da modernidade: o que acontece com o indivíduo quando o mundo passa a
tratá-lo apenas como peça? Crátilo responde sem discursos: ele adoece. A alma
adoece antes do corpo. O corpo apenas confirma o que a alma já não aguenta.
Mas há, ainda assim, algo que o mantém humano: sua
capacidade de estranhar. Crátilo não se adapta totalmente. Ele nunca acha
normal o que é absurdo. Ele sofre porque não se acostuma. E isso,
paradoxalmente, é sua dignidade.
Crátilo Portela é, portanto, o retrato do homem
comum diante do inferno moderno. Não um herói de epopeia, mas um sujeito de
repartição. Não um mártir glorioso, mas um cidadão cansado. Sua grandeza não
está na vitória — está em não se tornar igual ao que o oprime.
E talvez seja isso que o romance nos diga com mais
força: que, num mundo de demônios administrativos, ser apenas humano já é um
ato de resistência.
CAPÍTULO 4
O poder como demência: Dr.
Clemente Brandão
Se Crátilo Portela representa o homem comum diante
do absurdo, Dr. Clemente Brandão encarna o absurdo no comando. Não é apenas um
chefe: é um sintoma. Um homem que ocupa um cargo, mas, mais do que isso, ocupa
um delírio. Seu poder não nasce da lucidez, mas da desrazão organizada. Governa
como quem sonha acordado — e faz os outros pagarem por seus sonhos.
Clemente Brandão não é um tirano clássico, desses
que berram, ameaçam e esmagam com a força visível. Ele é pior: é o tirano que
acredita sinceramente em sua própria loucura. Não finge autoridade — vive nela.
Seu escritório não é apenas um local de trabalho: é um palco onde encena sua
própria grandeza imaginária. E, como todo delírio de poder, precisa de plateia
submissa.
O manequim que o acompanha — essa presença inerte,
muda e grotesca — é talvez o símbolo mais cruel de sua psicologia. Clemente
governa com um duplo que não responde, não questiona, não sofre. É o
subordinado perfeito. O poder, ali, não dialoga com humanos: prefere conversar
com bonecos. Porque bonecos não discordam.
Esse detalhe, aparentemente cômico, é profundamente
trágico. O poder moderno, sugere Catunda, só funciona bem quando elimina a
alteridade. Clemente Brandão não suporta o outro real. Ele só tolera reflexos
de si mesmo. Seu autoritarismo não nasce da força, mas do medo: medo do
contraditório, medo da diferença, medo da vida que não cabe em seus esquemas
mentais.
O Dr. Clemente não é apenas um louco no poder — é a
loucura como forma de poder. Sua demência não o impede de governar; ao
contrário, o habilita. Porque o sistema que ele comanda já é, em si, insano. E
um homem são, ali, pareceria deslocado. Clemente é o administrador ideal do
absurdo.
Sua relação com os subordinados é de teatro e
humilhação. Ele precisa ser visto, temido, encenado. O poder, para ele, não é
função: é espetáculo. E como todo espetáculo autoritário, exige vítimas. Cada
gesto seu, cada fala, cada ritual é um lembrete de que ali ninguém é sujeito —
todos são figurantes.
Há algo de profundamente moderno nessa figura.
Clemente Brandão não governa com espada, mas com memorandos. Não mata com bala,
mas com burocracia. Sua violência é simbólica, administrativa, psicológica. E
por isso mesmo é mais difícil de combater: não deixa marcas visíveis, mas deixa
almas mutiladas.
O romance mostra como o poder, quando se descola da
ética, enlouquece. E não enlouquece em silêncio: enlouquece arrastando os
outros consigo. Clemente não é apenas um indivíduo doente — é o centro
irradiador de uma patologia coletiva. Seu gabinete é um manicômio de luxo.
O mais assustador, porém, é que Clemente não se
percebe como vilão. Ele se vê como gestor. Como visionário. Como homem acima da
média. Todo tirano moderno se acredita técnico. E é nessa tecnicidade do mal
que o romance toca com precisão. Clemente não age por ódio — age por método.
Sua frieza é a do funcionário exemplar da barbárie.
A loucura de Clemente é, portanto, funcional. Serve
ao sistema. Alimenta a engrenagem. Justifica arbitrariedades. Produz medo. E o
medo, como sabemos, é o combustível mais eficiente do poder.
Em Crátilo, o absurdo dói. Em Clemente, o absurdo
governa. E talvez essa seja a tese mais cruel do romance: o mal não precisa ser
racional para ser eficaz. Basta ser organizado.
CAPÍTULO 5
A Ventura: burocracia, paranoia e
opressão
A Ventura não é apenas uma empresa. É uma forma de
mundo. Em Terra de Demônios, ela funciona como o coração administrativo
da ilha, bombeando regulamentos, ordens e suspeitas para todos os cantos da
vida. Não produz bens; produz obediência. Não organiza o trabalho; organiza o
medo. A Ventura é a instituição onde a burocracia deixa de ser instrumento e
passa a ser destino.
Tudo ali parece provisório, mas nada muda. Há
papéis que circulam sem nunca chegar a lugar algum, memorandos que não
informam, relatórios que não explicam. A linguagem da Ventura é uma língua
morta falada por vivos cansados. Fala-se muito para não dizer nada. Escreve-se
demais para não assumir nada. A burocracia, ali, é uma técnica de esvaziamento
da responsabilidade.
Crátilo entra na Ventura acreditando que o
trabalho, por si só, carrega alguma dignidade. Mas logo aprende que, naquele
espaço, trabalhar não é produzir — é sobreviver. Cada funcionário vive sob a
sombra da desconfiança. Todos são potenciais culpados. Não se sabe de quê, nem por
quê, mas isso pouco importa. O importante é manter a sensação de ameaça.
A paranoia é a alma da Ventura. Não se confia em
ninguém. Os corredores são ouvidos. As paredes, olhos. A fofoca substitui a
lei. A suspeita ocupa o lugar da justiça. Cada colega pode ser um delator em
potência. E, nesse clima, a solidariedade se torna perigosa. A amizade vira
risco. O silêncio, uma forma de autoproteção.
A opressão ali não se manifesta apenas em gritos ou
castigos explícitos. Ela se infiltra no cotidiano. Está na forma como se chama
alguém pelo cargo, não pelo nome. Está no medo de errar. Está na humilhação
velada, na ironia do superior, no riso que não ri. A Ventura é um lugar onde
ninguém é inteiro. Todos são fragmentos funcionais.
O sistema não quer sujeitos — quer peças. E as
peças devem ser intercambiáveis. Se alguém adoece, outro assume. Se alguém
desaparece, outro ocupa. A Ventura funciona como uma máquina que não sente
falta de ninguém. É essa indiferença estrutural que a torna tão violenta. Não
há ódio ali — há desinteresse. E o desinteresse mata lentamente.
Catunda descreve a Ventura como um manicômio sem
grades. Não porque todos sejam loucos, mas porque todos são obrigados a fingir
normalidade num ambiente insano. A razão ali serve apenas para justificar ordens
absurdas. O bom senso é tratado como subversão. Pensar demais é perigoso.
A burocracia da Ventura é, portanto, uma forma
sofisticada de dominação. Ela não precisa bater: basta confundir. Não precisa
punir abertamente: basta ameaçar. Não precisa censurar: basta sobrecarregar. O
excesso de normas substitui a ética. O excesso de tarefas substitui o sentido.
O trabalhador da Ventura não é explorado apenas
fisicamente, mas simbolicamente. Ele perde o direito de compreender o que faz.
Executa sem saber. Obedece sem entender. Vive num presente contínuo de ordens e
relatórios. O tempo não avança — repete-se.
A Ventura representa, no romance, a face mais
moderna da opressão: aquela que se apresenta como gestão. O mal ali não se diz
mal — se diz procedimento. A injustiça não se chama injustiça — se chama
protocolo. E é nessa troca de nomes que o horror se instala com aparência de
normalidade.
No fim, a Ventura não destrói seus funcionários com
violência direta. Ela os esvazia. Retira deles a capacidade de desejar, de
sonhar, de imaginar outro mundo possível. E quando alguém deixa de imaginar, já
está meio morto.
Assim, a Ventura não é apenas cenário do romance. É
sua engrenagem mais cruel. O lugar onde o inferno aprende a se organizar em
planilhas.
CAPÍTULO 6
O corpo como campo de violência
Em Terra de Demônios, o corpo não é apenas
presença física: é território ocupado. Tudo o que a ilha produz — medo,
opressão, paranoia, abandono — acaba, inevitavelmente, inscrito na carne. O
corpo é o último espaço onde o poder deixa suas marcas quando já dominou a
cidade, a linguagem e o trabalho. Antes de matar, o sistema adoece.
Crátilo Portela sente isso de maneira progressiva.
O mal não se anuncia com gritos, mas com sintomas. Cansaço, dor, febre,
mal-estar difuso. O corpo reage ao que a consciência tenta suportar. É como se
a carne dissesse aquilo que a razão ainda tenta negar: este lugar não é
habitável.
O romance mostra que o adoecimento não é acidente
individual, mas consequência estrutural. Os corpos da ilha estão doentes porque
a ilha está doente. Hospitais superlotados, médicos indiferentes, corredores
fétidos — tudo aponta para uma sociedade que não cuida, apenas administra o
colapso. A saúde não é direito: é concessão precária.
O hospital, longe de ser espaço de cura, aparece
como extensão da violência institucional. Ali, o sujeito deixa de ser pessoa e
vira caso, prontuário, número. O corpo doente é tratado com a mesma frieza com
que se tratam processos administrativos. A dor não é escutada; é registrada. E
mesmo isso, muitas vezes, mal feito.
Há algo de profundamente simbólico nessa
medicalização da miséria. O sistema aceita que o corpo sofra, desde que sofra
em silêncio. O sofrimento só incomoda quando atrapalha o funcionamento da
máquina. Enquanto o corpo aguenta, ele é explorável. Quando quebra, é
descartável.
A violência sobre o corpo não se resume à doença.
Ela aparece também na sujeira, no abandono, na exposição constante ao risco. A
cidade não protege seus habitantes. Ao contrário, parece hostilizá-los. O espaço
urbano agride: polui, aperta, adoece. Viver ali é um exercício diário de
resistência física.
O corpo, nesse contexto, torna-se prova material da
injustiça. Ele envelhece cedo. Adoece rápido. Dói sem explicação imediata. E
essa dor sem nome é talvez a mais cruel: não se sabe de onde vem, mas se sabe
que vem de tudo.
Catunda escreve o corpo como quem escreve um
documento de acusação. Cada ferida, cada sintoma, cada colapso físico aponta
para uma responsabilidade coletiva. O romance não permite que o leitor atribua
o adoecimento ao azar ou à fragilidade individual. O corpo sofre porque o mundo
é violento.
Há também, no corpo, uma dimensão de humilhação. O
funcionário doente é visto como problema. O corpo que falha é inconveniente. A
dor vira culpa. A fragilidade é tratada como falha moral. O sistema exige
corpos produtivos, dóceis, resistentes. Corpos que não reclamem.
Mas o corpo reclama. Sempre. Mesmo quando
silenciado, ele responde. E essa resposta, em Terra de Demônios, é um
grito mudo. O corpo de Crátilo — e dos outros — torna-se o lugar onde a verdade
escapa ao controle da burocracia.
Se a linguagem pode ser manipulada, se os números
podem ser falseados, se os relatórios podem mentir, o corpo não mente. Ele cai.
Ele treme. Ele adoece. Ele sangra, mesmo que simbolicamente. O corpo é o último
reduto da verdade.
Nesse sentido, o romance sugere algo perturbador: o
sistema só é eficiente enquanto consegue manter os corpos funcionando. Quando
os corpos começam a quebrar, a farsa aparece. A violência se torna visível. A
normalidade desmorona.
O corpo, portanto, não é apenas vítima. É denúncia.
É resistência involuntária. Ao adoecer, ele revela o que o discurso tenta
esconder. Ao falhar, ele expõe a falência do mundo que o explora.
Em Terra de Demônios, a violência não
precisa bater — basta cansar. Basta adoecer. Basta corroer. E o corpo, esse
campo de batalha silencioso, carrega as marcas de uma guerra que ninguém
declarou oficialmente, mas que todos vivem todos os dias.
CAPÍTULO 7
A cidade como prisão sem muros
A cidade de Terra de Demônios não se impõe
pela força das grades, mas pela sutileza do cerco. Não há torres de vigilância
ostensivas, nem muralhas visíveis. Ainda assim, ninguém sai ileso. A liberdade
ali é uma palavra bonita para designar um espaço estreito. A cidade é uma
prisão que aprendeu a se disfarçar de rotina.
O primeiro cárcere é o trajeto. As ruas não levam:
conduzem. Conduzem sempre aos mesmos lugares — trabalho, hospital, repartição,
quarto. O movimento existe, mas não há deslocamento real. Caminha-se muito para
permanecer no mesmo ponto. A cidade ensina seus habitantes a circular sem sair
do lugar.
O segundo cárcere é o tempo. O dia não começa nem
termina: repete-se. Manhãs iguais, tardes iguais, noites iguais. O calendário
não é uma sucessão — é uma cópia. O tempo urbano, ali, não liberta: condiciona.
E quando o tempo se torna previsível demais, a vida perde o imprevisto, que é
onde mora a liberdade.
O terceiro cárcere é o olhar. Todos observam todos,
mas ninguém vê ninguém. A vigilância não precisa de câmeras: basta a suspeita.
O outro é sempre ameaça potencial. A cidade treina seus habitantes para
desconfiar, e a desconfiança é uma forma eficiente de isolamento. Cada um se
fecha dentro de si como numa cela portátil.
O quarto cárcere é a linguagem. Fala-se muito, mas
se diz pouco. Palavras oficiais, comunicados, slogans, instruções — tudo
circula como ruído. A cidade fala demais para não escutar. O excesso de
discurso substitui o diálogo. E sem diálogo, não há encontro, apenas cruzamento
de sombras.
A cidade de Catunda não acolhe. Ela administra
corpos. Cada pessoa é um fluxo a ser controlado: entra, sai, trabalha, adoece,
morre. A cidade não é comunidade — é sistema. E o sistema não se interessa por
histórias, apenas por números.
O espaço urbano é hostil não por violência
espetacular, mas por indiferença. Ninguém se importa com ninguém. A pressa é o
novo nome da crueldade. Não se olha porque não há tempo. Não se ajuda porque
não é função. A cidade ensina seus habitantes a sobreviverem sozinhos em meio à
multidão.
Há algo de profundamente moderno nesse
aprisionamento sem grades. O indivíduo sente-se livre porque anda, compra,
trabalha, consome. Mas não escolhe. O cardápio de escolhas é curto e
repetitivo. A cidade oferece variações do mesmo. E chama isso de liberdade.
Crátilo atravessa essa cidade como quem atravessa
um labirinto sem centro. Não há ponto de chegada. Apenas desvios. A cidade o
cansa antes de o confrontar. Ele se esgota no trânsito, no barulho, na sujeira,
na falta de ar. A prisão urbana não oprime com violência direta — oprime com
saturação.
A cidade também é o lugar onde a miséria se torna
paisagem. Mendigos, doentes, trabalhadores exaustos — tudo vira parte do
cenário. A cidade não vê sofrimento: vê obstáculos. E obstáculos devem ser
contornados, não compreendidos.
Assim, a cidade de Terra de Demônios não
prende com cadeados, mas com hábitos. Não reprime com soldados, mas com
horários. Não castiga com chicotes, mas com silêncio. É a prisão perfeita:
aquela em que os presos acreditam estar soltos.
E talvez seja por isso que ela seja tão eficaz.
Porque ninguém foge de onde não sabe que está preso.
CAPÍTULO 8
Ironia, grotesco e sátira
política
Em Terra de Demônios, o riso não é descanso
— é arma. Catunda não escreve para entreter: escreve para ferir com
inteligência. A ironia, o grotesco e a sátira não surgem como ornamento
estilístico, mas como instrumentos de demolição simbólica. O romance ri para
não se ajoelhar.
A ironia atravessa a narrativa como um fio
elétrico. Nada é dito sem que se diga outra coisa por baixo. Quando o poder se
apresenta como racional, o texto mostra sua loucura. Quando a instituição se
chama Ventura, o romance revela o azar que ela produz. Quando o chefe se
intitula diretor, o leitor percebe que dirige apenas o delírio.
A ironia de Catunda é grave. Não há humor leve. Há
um riso que nasce da percepção do absurdo. É o riso de quem entende que, se não
rir, enlouquece. O narrador não faz piadas: constrói armadilhas de sentido.
Leva o leitor a sorrir para, logo em seguida, constrangê-lo com o que esse
sorriso esconde.
O grotesco aparece quando o real é levado ao limite
de sua própria lógica. O manequim de Clemente Brandão, por exemplo, é grotesco
não porque seja fantástico, mas porque é perfeitamente coerente com o tipo de
poder que só tolera bonecos. O grotesco, ali, não é excesso — é fidelidade.
A estética grotesca em Terra de Demônios não
cria monstros irreais; revela o monstruoso do real. O exagero não distorce —
ilumina. Catunda escreve personagens e situações que parecem caricaturas, mas
que apenas ampliam aquilo que já existe em forma larvar no cotidiano político e
social.
A sátira política do romance não aponta nomes
próprios, mas estruturas. O alvo não é este ou aquele governante — é a lógica
do poder que se organiza para humilhar. Catunda satiriza a autoridade como
espetáculo, a burocracia como farsa, a gestão como teatro de sombras.
Há algo de swiftiano nesse procedimento: como em As
Viagens de Gulliver, a ilha serve para expor a estupidez do mundo dito
civilizado. Mas Catunda radicaliza: sua sátira não é distante — é interna. A
ilha não é outro planeta: é o nosso quintal.
O grotesco também invade o corpo, a cidade, a
linguagem. Hospitais sujos, chefes delirantes, funcionários amedrontados — tudo
compõe uma coreografia do ridículo trágico. O leitor percebe que está rindo de
algo que deveria provocar indignação. E esse desconforto é o efeito mais
potente da sátira.
A ironia, portanto, não serve para suavizar o
horror. Serve para torná-lo insuportável. O riso aqui é nervoso, culpado,
inquieto. Rimos porque reconhecemos. E reconhecer é sempre um ato doloroso.
Catunda usa a sátira como forma de desmontar a
autoridade. Ao rir do poder, ele o desmistifica. Ao mostrar o chefe como figura
grotesca, ele o devolve à sua condição real: um homem frágil sustentado por um
sistema violento.
Nesse sentido, Terra de Demônios pertence à
tradição da grande sátira política: aquela que não quer apenas criticar o
poder, mas desarmá-lo simbolicamente. O riso, aqui, não é fuga — é ataque.
E talvez seja isso que torne o romance tão
incômodo: ele nos faz rir do que nos oprime. E, ao rir, começamos a perceber
que o poder só é grande porque acreditamos nele.
CAPÍTULO 9
Terra de Demônios como romance alegórico do Brasil e do mundo
A Ilha dos Patrupachas não tem bandeira, mas tem
sotaque. Não tem mapa oficial, mas tem cheiro de realidade. Em Terra de Demônios,
Márcio Catunda constrói um espaço que se pretende fictício para poder dizer
verdades demais. A alegoria é, aqui, uma estratégia de sobrevivência da
crítica. Dizendo “ilha”, o romance diz “país”. Dizendo “empresa”, diz “Estado”.
Dizendo “delírio”, diz “governo”.
Mas reduzir a ilha a um retrato exclusivo do Brasil
seria empobrecer o alcance do livro. A Patrupachas é brasileira na matéria — na
desigualdade, no abandono, no improviso violento —, mas é universal na forma. O
que se vê ali é o funcionamento do poder moderno em qualquer lugar onde a
burocracia substitui a ética e a gestão substitui a política.
A alegoria de Catunda não aponta para um evento
específico, nem para um regime datado. Ela trabalha com estruturas: o
autoritarismo difuso, a paranoia institucional, a violência normalizada. Por
isso, o romance permanece atual. Ele não envelhece, porque fala de mecanismos,
não de circunstâncias.
A ilha funciona como um espelho deformado do mundo
globalizado. O capital circula, os corpos adoecem. As empresas crescem, as
pessoas encolhem. As cidades se expandem, os direitos se retraem. A lógica é a
mesma: eficiência para o sistema, precariedade para o humano.
Crátilo Portela poderia estar em qualquer metrópole
do século XXI. Poderia trabalhar em qualquer repartição, em qualquer
corporação, em qualquer engrenagem institucional que transformou o indivíduo em
número. O romance acerta quando mostra que o inferno moderno é padronizado.
O Brasil aparece na textura do texto: na
informalidade violenta, na desigualdade gritante, na convivência naturalizada
com o absurdo. Mas a ilha é mais do que o Brasil: é o mundo quando ele se torna
empresa.
Nesse sentido, Terra de Demônios dialoga com
uma tradição de romances alegóricos que usam espaços fechados para falar do
todo. A ilha de Catunda é parente da cidade de Kafka, do ministério de Orwell,
do manicômio de Lima Barreto. Todos esses lugares dizem a mesma coisa com vozes
diferentes: o poder moderno não precisa de tiranos visíveis — ele se infiltra
nas rotinas.
A alegoria funciona porque não simplifica. Ela
complexifica. A ilha não é apenas má. Ela é funcional. E é justamente essa
funcionalidade que a torna assustadora. Tudo anda. Tudo gira. Tudo “funciona”.
Mas funciona para quê? Para quem?
O romance responde com ironia amarga: funciona para
que o sistema continue sendo sistema, mesmo que isso custe a humanidade de
todos os envolvidos.
O mundo alegórico de Catunda não é uma fuga da
realidade — é sua radicalização. Ao exagerar, o romance revela. Ao distorcer,
esclarece. A Patrupachas é um laboratório onde se observam, em estado puro, as
patologias do mundo contemporâneo.
E talvez por isso o livro incomode tanto. Porque
ele diz: não estamos caminhando para o inferno — já estamos organizando seu
funcionamento.
Terra de Demônios
é, assim, um romance alegórico do Brasil e do mundo porque mostra que o colapso
não é exceção: é método. A barbárie não é acidente: é projeto.
CAPÍTULO 10
Catunda e a ética da literatura
Toda obra literária carrega uma escolha ética,
mesmo quando finge não carregá-la. Escrever já é tomar posição: sobre o mundo,
sobre o homem, sobre o que merece ser dito e o que deve ser silenciado. Em Terra
de Demônios, Márcio Catunda não hesita. Sua escrita escolhe o desconforto.
Escolhe o lado dos que sofrem. Escolhe a recusa em normalizar o absurdo.
A ética de Catunda não é doutrinária. Ele não
escreve para ensinar lições prontas, nem para pregar moralismos. Sua ética é trágica:
nasce do reconhecimento de que o mundo está errado, mas continua sendo o único
lugar onde podemos tentar alguma lucidez. O romance não oferece saídas fáceis.
Oferece consciência.
Catunda entende a literatura como espaço de
enfrentamento. Não se trata de representar o real como ele é, mas de expor
aquilo que o real esconde de si mesmo. A ficção, aqui, não é fuga — é lente. É
uma forma de ver mais fundo. A ética do autor está em não aceitar a superfície.
Ao criar personagens como Crátilo Portela, Catunda
escolhe uma ética da fragilidade. Ele não glorifica heróis armados, nem
revolucionários retóricos. Seu protagonista é fraco, cansado, confuso. E
exatamente por isso é verdadeiro. A ética da literatura, para Catunda, passa
por mostrar o homem como ele é quando o sistema o esmaga: pequeno, mas ainda
humano.
Há também uma ética da linguagem. O autor não
suaviza. Não adorna. Não mascara. Sua prosa é áspera porque o mundo é áspero. A
forma acompanha o conteúdo. Escrever bonito sobre o feio seria trair o feio.
Catunda não trai. Ele assume o risco de ser incômodo.
A literatura, em Terra de Demônios, não se
coloca acima da realidade — ela se suja com ela. Desce às ruas, entra nos
hospitais, atravessa repartições, sente o cheiro da miséria. A ética do
escritor é a ética da presença. Não olhar de longe. Não escrever de gabinete.
Escrever do chão.
Nesse sentido, Catunda se insere numa tradição de
escritores que entenderam a literatura como gesto político no sentido mais
radical: o de se posicionar diante da vida. Como Graciliano Ramos, Lima
Barreto, José Saramago, ele escreve não para agradar, mas para acordar.
A ética da literatura, aqui, não é a da esperança
fácil. É a da lucidez difícil. O romance não diz: “o mundo vai melhorar”. Ele
diz: “o mundo está doente — e fingir que não está é parte da doença”.
Escrever, então, torna-se um ato de resistência.
Não porque derrube governos, mas porque impede a anestesia. A anestesia é o
grande inimigo. O costume com o horror. A adaptação ao absurdo. A aceitação da
violência como normalidade.
Catunda escreve contra a adaptação. Sua literatura
diz: não se acostume. Não ache normal. Não aceite. E talvez seja isso que reste
à literatura no nosso tempo: não salvar o mundo, mas impedir que ele seja
completamente esquecido de si mesmo.
Terra de Demônios
é, assim, um romance ético porque é um romance inquieto. Não nos deixa em paz.
E não nos deixa em paz porque ainda acredita que a paz verdadeira só existe
onde há justiça.
CONCLUSÃO
A ilha somos nós
No fim do percurso, descobre-se que não
atravessamos a Ilha dos Patrupachas — fomos atravessados por ela. A cada página
de Terra de Demônios, algo em nós se reconhece, mesmo quando não quer.
Porque a ilha não é apenas um lugar inventado: é um modo de viver. E modos de
viver, quando se repetem demais, viram destinos.
A grande revelação do romance não é que existam
demônios. É que aprendemos a conviver com eles. Que os aceitamos como parte da
paisagem. Que os chamamos de chefes, de sistemas, de procedimentos, de rotinas.
O inferno moderno não grita: agenda reuniões.
Márcio Catunda constrói uma obra que não acusa
indivíduos, mas estruturas. O mal, em Terra de Demônios, não tem um
rosto — tem uma engrenagem. E essa engrenagem só funciona porque nós, em algum
nível, colaboramos com ela. Às vezes por medo, às vezes por cansaço, às vezes
por hábito.
Crátilo Portela não cai porque é fraco. Cai porque
é humano. Porque tenta compreender um mundo que já desistiu de ser
compreendido. Sua dor não é exceção: é sintoma. O romance não nos mostra um
homem que falha, mas um sistema que o faz falhar.
A Ilha dos Patrupachas é o mundo quando ele se
esquece de sua própria dignidade. Quando troca justiça por eficiência, ética
por gestão, pessoas por números. E essa troca não acontece de uma vez —
acontece aos poucos, como todas as grandes tragédias.
Catunda escreve para lembrar. Para dizer: isso não
começou ontem. E não termina amanhã. A literatura, aqui, é memória do que não
deve ser esquecido: que o homem vale mais que qualquer sistema que o esmaga.
Ao terminar o livro, o leitor não sai da ilha. Leva
a ilha consigo. Ela passa a morar nos gestos cotidianos, nas filas, nos
escritórios, nos hospitais, nos silêncios. E então vem a pergunta mais dura:
até que ponto também somos parte dela?
A ilha somos nós quando aceitamos o absurdo como
normal. Quando rimos da violência para não enfrentá-la. Quando chamamos de
“procedimento” aquilo que é injustiça. Quando fingimos que não vemos para não
ter que agir.
Mas a ilha também somos nós quando lemos. Quando
estranhamos. Quando não nos acostumamos. Quando a literatura ainda nos
incomoda.
Terra de Demônios
não oferece redenção. Oferece lucidez. E talvez a lucidez seja o primeiro passo
para qualquer saída, ainda que não saibamos qual.
Porque, no fim, o que Catunda nos diz, com sua
prosa áspera e poética, é simples e terrível: O inferno não é um lugar para
onde vamos. É um lugar que construímos. E a literatura existe para nos lembrar
disso — antes que seja tarde demais.
RESUMO
Este ensaio analisa o romance Terra de Demônios,
de Márcio Catunda, sob a perspectiva da alegoria política e da ética da
literatura. A partir de uma leitura crítica, investiga-se como a Ilha dos
Patrupachas funciona como metáfora do mundo contemporâneo em decomposição,
marcado por burocracia, paranoia e violência institucional. O estudo examina os
principais eixos simbólicos da obra — espaço, poder, corpo, cidade e linguagem
—, destacando o protagonista Crátilo Portela como figura do homem comum diante
do absurdo moderno. Conclui-se que Terra de Demônios constitui um
romance de resistência ética, no qual a literatura atua como instrumento de
lucidez contra a naturalização do horror.
Palavras-chave:
Literatura brasileira contemporânea; Alegoria política; Sátira; Ética da
literatura; Márcio Catunda.
REFERÊNCIAS
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12. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
SARAMAGO, José. O homem duplicado. São
Paulo: Companhia das Letras, 2002.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
ORWELL, George. 1984. Tradução de Alexandre
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KAFKA, Franz. O processo. Tradução de
Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade
Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara
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BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma.
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RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 121. ed. Rio
de Janeiro: Record, 2013.
HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia.
Tradução de Julio Jeha. Belo Horizonte: UFMG, 2000.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma
introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍
CATUNDA, Márcio. Terra de Demônios.
Rio de Janeiro: Editora Ibis Libris, 2014.
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