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Mostrando postagens de Fevereiro, 2006

Viva Felisberto de Carvalho

Recebo email de Soares Feitosa dando-me conta dos livros de Felisberto de Carvalho. Livros de leitura, utilizados nos ‘nordestes’ do Brasil, nos finais do século XIX até meados do XX. Eram ilustrados, tinham capas coloridas e eram ou são muito bem elaborados. Nicodemos Araujo, poeta e historiador, nascido em Bela Cruz, em 1905, afirma ter aprendido as primeiras letras através dos livros de Felisberto; Patativa do Assaré, idem. S.F., numa belíssima crônica intitulada ‘O assombroso cão do segundo livro’, nos dá conta que na escola, até os anos 50, meninos do ABC, da Cartilha, do Primeiro Livro, do Segundo Livro e do Terceiro Livro, eram misturados numa sala só [ai, Professora!] no entanto, a lição de cada um era tomada com disciplina e energia, graças, talvez, a palmatória de angico [mas como dói!] com um furo no meio, que todos nós sabemos muito bem sua serventia. Mas ele quer mesmo nos falar é do cão. O cão do Segundo Livro. Prefiro falar de cachorros. Que aqui p…

E agora José

Para José Alcides Pinto, assim como para Baudelaire, o artista é um indivíduo superior que a massa dos “salsicheiros” tenta constantemente abafar, esmagar, aniquilar. O seu destino: a solidão e a incompreensão. A única defesa: o desprendimento, o desprezo pela regra comum. Esse poeta e ficcionista, dos maiores do mundo, deve receber um tratamento todo especial, o mesmo que dispensamos aos Verlaines, Mallarmés, Rimbaud’s e Lautréamont’s. Não que ele tenha nada a ver com esses malucos, mas pelo valor de sua obra, independente deste ou daquele grupo. Na verdade, não podemos filiá-lo a qualquer movimento literário. Ele é muito independente e pessoal em seu processo criativo, assim como o é – um Gerardo Mello Mourão e tantos outros consagrados, mesmo aqui da província. Poeta, ficcionista, teatrólogo, ensaísta, crítico literário, memorialista, artista plástico, jornalista, José Alcides Pinto nasceu na antiga aldeia do Alto dos Angicos, em São Francisco do Estreito, Ribeira do Acaraú, no …

Ao cair da tarde

Recebi ontem o precioso livro “Ao cair da tarde” [Editora ABC, Fortaleza, 2006] de Lustosa da Costa, e de uma sentada, ou melhor, deitada [mania que tenho de ler num velho tucum de embira de carnaúba] consumi as 96 crônicas enfeixadas nesse mimoso volume de 150 páginas. “Ao cair da tarde”, pelo título, já é um poema, um verso de cinco sílabas, quer nas crônicas do cotidiano, quer no perfil de amigos ou inimigos, quer nas suas observações de viagem – o livro se banha com a unção de um lirismo encantador. Suas crônicas parecem esconder uma complexidade pressentida sob límpida naturalidade, numa prosa divagadora de quem conversa distraído, passando o tempo, sem se preocupar com o jeito de falar. E, no entanto, uma prosa cheia de achados de linguagem – uma sintaxe livre e flexível – propiciando poesia num ritmo leve e doce que nem caldo de cana espremida. Uma experiência que se transmite por estórias, que parece vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tal qual os contadore…