| Vicente Freitas, com Mário Gomes |
Em Paris, no
século XIX, Charles Baudelaire caminhava como um maldito entre os salões da
burguesia e os becos da miséria. Via beleza onde a sociedade via podridão. Fez
das prostitutas, do ópio, do tédio e da morte matéria de poesia. “As Flores do
Mal” não foi só um livro: foi um escândalo, uma pedrada na vitrine moral do seu
tempo. Baudelaire era o homem que olhava a cidade e via o abismo — e, em vez de
recuar, mergulhava nele com palavras.
Depois veio
Arthur Rimbaud, esse menino furioso que incendiou a poesia antes dos vinte
anos. Um gênio precoce que escrevia como quem tem febre. Rimbaud não queria
apenas ver o mundo: queria reinventar os sentidos. “É preciso ser absolutamente
moderno”, dizia ele, e ser moderno, para Rimbaud, era romper com tudo —
família, pátria, moral, destino. Genial? Sem dúvida. Doido? Talvez. Ou apenas alguém
que não aceitou viver dentro das jaulas prontas.
Paul Verlaine,
por sua vez, oscilava entre a música sublime dos versos e o caos da própria
vida. Álcool, prisões, escândalos, amores turbulentos. Foi ele quem batizou
essa linhagem inquieta de poètes maudits. Malditos não por maldade, mas por
inadequação. Eram homens deslocados do mundo, como peças que não encaixam no
quebra-cabeça social. E quando a vida não encaixa, a poesia vira grito.
Agora
atravessemos o oceano e o tempo. Saiamos de Paris e cheguemos a Fortaleza.
Trocamos o Sena pela Praça do Ferreira. Trocamos os cafés boêmios pelos botecos
do centro. E ali encontramos Mário Gomes — poeta da rua, poeta do povo, poeta
“doido” no melhor sentido da palavra.
Mário não vestia
fraque nem frequentava academias. Vestia a própria pele exposta ao sol, ao
desprezo e ao carinho da cidade. Vivia andando, vendendo seus poemas como quem
vende pedaços da alma. Dormia onde dava, falava com quem quisesse ouvir. A rua
era seu escritório. O banco da praça, sua escrivaninha. O bar, sua tipografia
improvisada.
Diziam que ele
era esquizofrênico. Diziam que era “doido”. Mas quem o escutava com atenção
percebia: ali havia uma inteligência afiada, uma ternura desconcertante, um
olhar limpo sobre a miséria e a beleza humanas. Como Baudelaire, Mário via
poesia no que os outros chamavam de resto. Como Rimbaud, recusava a vida
domesticada. Como Verlaine, oscilava entre a lucidez lírica e o abismo
interior.
Baudelaire fez
da cidade moderna um inferno poético. Mário fez da cidade nordestina um palco
de humanidade crua. Rimbaud fugiu para a África. Mário ficou na praça. Verlaine
bebeu até se perder. Mário bebia até se esquecer de si. Em todos, a mesma
centelha: a recusa em ser normal quando o mundo é que está doente.
Há uma diferença
essencial: os franceses ficaram nos livros, nos museus, nos currículos
universitários. Mário ficou na memória viva da cidade. Era um poeta viralata,
sem pedigree, mas com faro fino para a dor e para a beleza. Um “santo bandido”,
como diziam: manso no gesto, rebelde na postura, livre até a imprudência.
A genialidade
deles — Baudelaire, Rimbaud, Verlaine — nasceu do confronto com a própria
loucura. A genialidade de Mário Gomes nasceu da convivência diária com ela.
Enquanto uns escreviam contra o mundo, Mário escrevia dentro do mundo,
misturado a ele, sujo de calçada, molhado de chuva, iluminado por postes
públicos.
Ferreira Gullar
dizia que a poesia nasce do espanto. Mário era um espanto ambulante. Baudelaire
espantava Paris com o escuro. Rimbaud espantava o tempo com o excesso. Verlaine
espantava a língua com música. Mário espantava Fortaleza com a sua simples e
radical liberdade.
No fundo, a
loucura deles não era doença: era insubmissão. Era a incapacidade de aceitar
uma vida sem intensidade. Ser gênio é isso: não caber no molde. E ser “doido”,
nesses casos, é apenas pagar o preço por ver demais.
Baudelaire
morreu pobre e incompreendido. Rimbaud morreu longe da poesia. Verlaine morreu
cansado. Mário morreu no fim do ano, como quem fecha um ciclo da cidade. Mas
todos deixaram a mesma herança: a prova de que a poesia não nasce da ordem —
nasce do desequilíbrio.
E talvez seja
por isso que, quando a gente cruza a Praça do Ferreira e sente um vazio
estranho, é porque falta ali aquele corpo magro, aquele olhar torto, aquele
vendedor de versos. Baudelaire tem Paris. Rimbaud tem Charleville. Verlaine tem
a França inteira. Mário Gomes tem Fortaleza. E Fortaleza, mesmo sem saber,
ainda anda com um pouco da loucura dele nos bolsos.
Vicente Freitas
Liot
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