sábado, janeiro 17, 2026

LES POÈTES MAUDITS

Vicente Freitas, com Mário Gomes
        A loucura é um modo de ver o mundo quando o mundo já não cabe nos olhos comuns. E a genialidade, quase sempre, é esse excesso de visão que rasga o cotidiano como quem rasga um véu. Não é por acaso que tantos grandes poetas parecem “doidos”: não porque percam a razão, mas porque a razão deles é mais larga que a nossa.

Em Paris, no século XIX, Charles Baudelaire caminhava como um maldito entre os salões da burguesia e os becos da miséria. Via beleza onde a sociedade via podridão. Fez das prostitutas, do ópio, do tédio e da morte matéria de poesia. “As Flores do Mal” não foi só um livro: foi um escândalo, uma pedrada na vitrine moral do seu tempo. Baudelaire era o homem que olhava a cidade e via o abismo — e, em vez de recuar, mergulhava nele com palavras.

Depois veio Arthur Rimbaud, esse menino furioso que incendiou a poesia antes dos vinte anos. Um gênio precoce que escrevia como quem tem febre. Rimbaud não queria apenas ver o mundo: queria reinventar os sentidos. “É preciso ser absolutamente moderno”, dizia ele, e ser moderno, para Rimbaud, era romper com tudo — família, pátria, moral, destino. Genial? Sem dúvida. Doido? Talvez. Ou apenas alguém que não aceitou viver dentro das jaulas prontas.

Paul Verlaine, por sua vez, oscilava entre a música sublime dos versos e o caos da própria vida. Álcool, prisões, escândalos, amores turbulentos. Foi ele quem batizou essa linhagem inquieta de poètes maudits. Malditos não por maldade, mas por inadequação. Eram homens deslocados do mundo, como peças que não encaixam no quebra-cabeça social. E quando a vida não encaixa, a poesia vira grito.

Agora atravessemos o oceano e o tempo. Saiamos de Paris e cheguemos a Fortaleza. Trocamos o Sena pela Praça do Ferreira. Trocamos os cafés boêmios pelos botecos do centro. E ali encontramos Mário Gomes — poeta da rua, poeta do povo, poeta “doido” no melhor sentido da palavra.

Mário não vestia fraque nem frequentava academias. Vestia a própria pele exposta ao sol, ao desprezo e ao carinho da cidade. Vivia andando, vendendo seus poemas como quem vende pedaços da alma. Dormia onde dava, falava com quem quisesse ouvir. A rua era seu escritório. O banco da praça, sua escrivaninha. O bar, sua tipografia improvisada.

Diziam que ele era esquizofrênico. Diziam que era “doido”. Mas quem o escutava com atenção percebia: ali havia uma inteligência afiada, uma ternura desconcertante, um olhar limpo sobre a miséria e a beleza humanas. Como Baudelaire, Mário via poesia no que os outros chamavam de resto. Como Rimbaud, recusava a vida domesticada. Como Verlaine, oscilava entre a lucidez lírica e o abismo interior.

Baudelaire fez da cidade moderna um inferno poético. Mário fez da cidade nordestina um palco de humanidade crua. Rimbaud fugiu para a África. Mário ficou na praça. Verlaine bebeu até se perder. Mário bebia até se esquecer de si. Em todos, a mesma centelha: a recusa em ser normal quando o mundo é que está doente.

Há uma diferença essencial: os franceses ficaram nos livros, nos museus, nos currículos universitários. Mário ficou na memória viva da cidade. Era um poeta viralata, sem pedigree, mas com faro fino para a dor e para a beleza. Um “santo bandido”, como diziam: manso no gesto, rebelde na postura, livre até a imprudência.

A genialidade deles — Baudelaire, Rimbaud, Verlaine — nasceu do confronto com a própria loucura. A genialidade de Mário Gomes nasceu da convivência diária com ela. Enquanto uns escreviam contra o mundo, Mário escrevia dentro do mundo, misturado a ele, sujo de calçada, molhado de chuva, iluminado por postes públicos.

Ferreira Gullar dizia que a poesia nasce do espanto. Mário era um espanto ambulante. Baudelaire espantava Paris com o escuro. Rimbaud espantava o tempo com o excesso. Verlaine espantava a língua com música. Mário espantava Fortaleza com a sua simples e radical liberdade.

No fundo, a loucura deles não era doença: era insubmissão. Era a incapacidade de aceitar uma vida sem intensidade. Ser gênio é isso: não caber no molde. E ser “doido”, nesses casos, é apenas pagar o preço por ver demais.

Baudelaire morreu pobre e incompreendido. Rimbaud morreu longe da poesia. Verlaine morreu cansado. Mário morreu no fim do ano, como quem fecha um ciclo da cidade. Mas todos deixaram a mesma herança: a prova de que a poesia não nasce da ordem — nasce do desequilíbrio.

E talvez seja por isso que, quando a gente cruza a Praça do Ferreira e sente um vazio estranho, é porque falta ali aquele corpo magro, aquele olhar torto, aquele vendedor de versos. Baudelaire tem Paris. Rimbaud tem Charleville. Verlaine tem a França inteira. Mário Gomes tem Fortaleza. E Fortaleza, mesmo sem saber, ainda anda com um pouco da loucura dele nos bolsos.

 

Vicente Freitas Liot

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