quinta-feira, outubro 04, 2012

𝖮 𝗆𝖺𝗉𝖺 𝗂𝗇𝗏𝗂𝗌í𝗏𝖾𝗅 𝖽𝗈 𝖭𝗈𝗋𝖽𝖾𝗌𝗍𝖾

Vicente Freitas Liot
Ah, meu povo, escute: há coisas que a gente leva sem saber que leva. Vão escondidas no fundo da lembrança, feito água guardada em pote de barro, fresca mesmo quando o mundo lá de fora se derrete em calor. O nordestino, esse vivente de caminhos e contraventos, carrega consigo um mapa. Mas não desses que o cartógrafo risca em papel, com rios azuis e fronteiras de tinta. O mapa dele é de outra serventia: desenha-se com cheiro de terra molhada, gosto de rapadura, rumor de aboio, claridade de lua no terreiro. Mapa sem norte, talvez, mas com destino. E o destino, sabe-se, nem sempre é um lugar: às vezes é uma saudade que não consente em morrer.

 

Pode o homem apartar-se da sua terra, tomar estrada, vencer léguas, atravessar estados e mares; pode a cidade grande recebê-lo com seus edifícios que furam as nuvens e suas avenidas onde os automóveis correm como bichos desatinados. Ainda assim, dentro dele permanece um pedaço de chão que não se muda. É uma nesga de sertão, uma porteira antiga, um pé de juazeiro resistindo à sede. A poeira da estrada cobre a roupa, o cimento endurece as mãos, os anos lhe alteram o rosto; mas há uma parte da alma que continua sentada à sombra, esperando a tarde passar.

 

Quem viu partir os retirantes sabe: partir não era somente ir embora. Era uma espécie de morte em prestações, uma despedida que se fazia sem a coragem de pronunciar a palavra adeus. Os homens e as mulheres subiam nos paus de arara, aqueles navios terrestres de madeira, ferro e esperança, levando crianças sonolentas, trouxas de roupa, panelas, retratos, algum alimento embrulhado e uma fé que nem a fome conseguia desmanchar. Iam apertados uns contra os outros, mas cada qual viajava dentro da própria solidão. O motor roncava, a estrada se espichava, e o sertão, devagarinho, ia ficando para trás — não o sertão verdadeiro, que esse ninguém abandona, mas o sertão dos olhos, aquele que ainda se podia contemplar pela última vez antes da curva.

 

Vinham da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará, do Piauí, do Rio Grande do Norte, de Alagoas, de Sergipe, da Bahia e das bandas maranhenses. Cada qual trazia sua fala, sua maneira de rir, seu modo de sofrer. Uns levavam a lembrança do milho assado na fogueira; outros, o rumor dos folguedos, o cheiro do capim depois da chuva, a cantiga de uma mãe que embalava o sono. Havia quem trouxesse, guardada num embrulho, uma imagem de Padre Cícero; quem levasse, dobrada na memória, a música de uma sanfona; quem partisse sem nada nos bolsos, mas com o coração abarrotado de nomes.

 

E lá iam. A estrada não perguntava de onde vinham nem para onde desejavam ir. A estrada apenas seguia, comprida, indiferente, debaixo de um céu que parecia não acabar. Atrás, ficava a casa de taipa, o roçado cansado, a cerca de varas, o cachorro que talvez ainda esperasse junto à cancela. Adiante, havia uma cidade de promessas, uma terra de trabalho, uma possibilidade de mandar dinheiro para os que tinham ficado. E entre o que se perdia e o que se buscava, o retirante ia aprendendo a difícil ciência de continuar. Porque o nordestino, quando parte, não vai inteiro. Deixa alguma coisa de si plantada no chão de origem. E leva alguma coisa desse chão plantada em si.

 

Chegavam ao Sudeste, e o mundo era outro. Os prédios pareciam montanhas construídas por mãos humanas; as fábricas, bichos enormes que respiravam fumaça; as ruas, rios de gente apressada, cada pessoa carregando um destino debaixo do braço. O recém-chegado estranhava os modos, a fala, o frio, a pressa. Sentia-se pequeno diante da cidade, mas não se deixava diminuir por ela. Tinha duas mãos, duas pernas, uma vontade antiga e aquela coragem que não costuma fazer alarde. Era o bastante para começar.

 

Começava por onde podia: no canteiro de obras, na cozinha, na oficina, na feira, na construção, no serviço doméstico. De sol a sol, punha o corpo no trabalho. Carregava tijolos, levantava paredes, abria valas, assentava pedras, misturava areia e cimento. E, enquanto os braços obedeciam ao ofício, a memória trabalhava por conta própria. No rumor da betoneira, escutava a zabumba. No cheiro da marmita, adivinhava o tempero de casa. Na hora do descanso, quando o suor esfriava sobre a pele, talvez lhe viesse o retrato da mulher, dos filhos, da mãe envelhecendo, do pai que nunca aprendera a dizer ternura senão pelo silêncio.

 

Brasília cresceu, São Paulo se alargou, o Rio de Janeiro ergueu seus edifícios e acendeu suas noites. Por trás de tanta grandeza, quantas mãos anônimas! Quantos homens vindos de terras distantes trabalharam no nascimento de uma capital, dormindo em alojamentos, comendo depressa, economizando cada moeda? Quantas mulheres sustentaram famílias inteiras, cuidando dos filhos alheios enquanto os próprios cresciam longe? Quantos nordestinos deixaram no concreto das cidades um pouco da sua força, sem deixar escrito o nome na fachada?

 

O país gosta de contemplar os monumentos depois de prontos. Poucas vezes se detém diante dos homens que os levantaram. Mas a história, se souber escutar, encontrará em cada parede uma voz; em cada ponte, uma lembrança; em cada edifício, um pedaço de sertão transplantado. Há cimento que guarda suor. Há pedra que guarda silêncio. E há cidades inteiras que, sem o perceberem, foram construídas com a saudade dos que chegaram de longe.

 

O nordestino fez morada nas metrópoles, mas nunca deixou de construir, dentro de si, a casa primeira. Nela, a cozinha tem fumaça de lenha; o fogão conhece o segredo do feijão-verde; a panela de baião de dois espera a família reunida. O cuscuz, de manhã ou no domingo, é mais do que comida: é um costume que atravessa gerações, uma espécie de comunhão entre vivos e ausentes. Há sabores que não alimentam apenas o corpo. Alimentam a lembrança, que é um modo de continuar pertencendo.

 

E quem poderia arrancar do coração nordestino o seu gosto pelas festas? A alegria dessa gente não é distração da pobreza, nem esquecimento das penas. É uma forma de enfrentá-las. O sertanejo conhece a tristeza de perto; talvez por isso saiba tão bem reconhecer a hora de dançar.

 

Chega junho, e o Nordeste acende suas noites. A fogueira cresce no terreiro, o milho se oferece à brasa, as bandeirinhas estremecem no vento. A sanfona começa a contar suas histórias, a zabumba responde, o triângulo risca no ar uma claridade de metal. Então o corpo se lembra de uma felicidade que parecia esquecida. Dança-se como quem agradece, como quem pede, como quem desafia o destino. O casamento matuto faz do riso uma cerimônia; o forró atravessa a madrugada; e, por algumas horas, ninguém é estrangeiro na própria vida.

 

A música nordestina tem essa propriedade: conhece a distância e sabe encurtá-la. Luiz Gonzaga, com sua sanfona de muitas saudades, levou o sertão para dentro de casas onde nunca se vira uma mandacaru. Fez do baião uma língua compreendida por quem jamais pisara aquelas estradas. Cantou a retirada, a seca, o amor, o gado, a chuva desejada. E, de repente, o Nordeste, que tantas vezes aparecera aos olhos do país como uma paisagem de carência, mostrou-se também como um território de invenção, ritmo e beleza.

 

Jackson do Pandeiro fez da síncope um brinquedo sério, uma arte de enganar o compasso e surpreender o ouvido. Marinês emprestou à voz a altivez das mulheres sertanejas, que conhecem o peso da vida sem perder a disposição de cantar. Dominguinhos, com seu toque de delicadeza, ensinou à sanfona que a ternura também pode ser imensa. E tantos outros, de tantas cidades e povoados, fizeram da música uma estrada de mão dupla: por ela, o Nordeste viajou pelo Brasil; por ela, o Brasil pôde regressar ao Nordeste sem sair de casa.

 

Mas não se pense que a alma nordestina cabe inteira numa festa. Há nela o riso e há a gravidade; o improviso e a reflexão; o canto e a palavra escrita. O Nordeste também pensa, duvida, inventa mundos, examina o homem por dentro. Sua cultura não é um enfeite regional pendurado na parede da nação. É uma das vigas que sustentam a casa brasileira.

 

Patativa do Assaré escutou a linguagem dos pequenos, e nela encontrou uma grandeza que os doutos nem sempre souberam reconhecer. Em sua poesia, a voz do camponês não aparece como curiosidade de feira, mas como consciência do mundo. Quando cantou a partida, a pobreza e o sofrimento, não fez da dor um espetáculo: deu-lhe dignidade, nome e memória. Sua palavra, nascida entre as pedras do Cariri, alcançou homens que viviam longe, porque a injustiça, embora mude de endereço, costuma falar a mesma língua.

 

Ariano Suassuna, por sua vez, abriu as portas de um reino que não figurava nos mapas políticos. Misturou o popular e o erudito, o sagrado e o profano, a graça e o espanto, como se soubesse que a cultura é um bicho de muitas naturezas e que nenhuma fronteira consegue prendê-la. Em sua obra, o Nordeste não pede licença para entrar na literatura: entra de sandálias, espada imaginária, riso largo e sabedoria antiga. E transforma o palco num terreiro onde o povo reconhece a própria face, ainda que deformada pelo espelho da farsa.

 

Rachel de Queiroz conheceu os desamparos da seca e os caminhos ásperos da sobrevivência. Sua escrita trouxe para a literatura a dureza de um mundo em que a necessidade, muitas vezes, fala mais alto que o desejo. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, abrindo, com sua presença, uma passagem que o costume insistia em manter fechada. Não foi apenas uma mulher que entrou numa instituição de prestígio; foi também uma experiência brasileira, nascida sob o sol do Ceará, que conquistou lugar na história das letras.

 

E antes, muito antes de a literatura brasileira aprender a escutar tantas dessas vozes, Leandro Gomes de Barros já espalhava pelo papel os folhetos de um povo que sabia rir dos poderosos, narrar façanhas e transformar o cotidiano em aventura. O cordel, com sua cadência de cantoria e sua inteligência de feira, fez da palavra uma coisa portátil. Cabia no alforje, no balcão, na memória do cantador. Viajava de mão em mão, de boca em boca, sem precisar de solenidade para alcançar a eternidade.

 

Também houve nordestinos que fizeram da ciência sua morada, da política seu campo de luta, da educação seu instrumento de mudança. César Lattes ajudou a ampliar o horizonte da física; Francisco Julião se tornou uma das figuras marcantes das lutas camponesas brasileiras. Outros, incontáveis, trabalharam nas escolas, nos hospitais, nos laboratórios, nas repartições, nas universidades, nas pequenas cidades e nos grandes centros. Nem todos ganharam monumentos. Nem todos foram lembrados nos livros. Mas a grandeza de uma região não se mede apenas pelos nomes gravados em bronze: mede-se também por aquilo que seus filhos tornam possível para os outros.

 

E que dizer da Bahia, onde a fé toma as ruas e a tradição se faz corpo? Na Lavagem do Bonfim, a caminhada converte-se em encontro, e o gesto de lavar as escadarias reúne, numa mesma paisagem, devoção, história e pertencimento. Que dizer de Pernambuco, onde o frevo parece inventado para que a alegria desafie a gravidade, e o Galo da Madrugada transforma as ruas do Recife num imenso coração em movimento? Que dizer de Sergipe, de suas festas, de seus banhos tradicionais, de seus festejos populares, e de cada povoado onde a memória se conserva menos nos arquivos do que na voz dos mais velhos?

 

O Nordeste é muitos. Não há uma única maneira de ser nordestino, assim como não existe um só rosto para o sertão. O litoral tem seus coqueirais, seus jangadeiros, suas marés; o agreste muda de cor conforme a estação; o Cariri guarda suas pedras e seus mistérios; o Maranhão abre caminhos entre rios, matas e tradições; o São Francisco atravessa paisagens e vidas como uma antiga promessa. Cada lugar tem seu sotaque, seu alimento, seu ritmo, sua maneira de chamar a chuva. E todos, diferentes entre si, participam dessa vasta conversa que a região mantém consigo mesma e com o restante do país.

 

Por isso, é pouco dizer que o nordestino é resistente. A palavra, sozinha, não alcança a inteireza de sua experiência. Resistir pode significar apenas aguentar. E o nordestino não apenas aguenta: ele transforma. Transforma a falta em engenho, a distância em canto, a dificuldade em saber. Aprende a encontrar sombra onde o sol parece ter consumido tudo; aprende a plantar mesmo quando a terra não oferece garantias; aprende, sobretudo, que a esperança não é uma certeza sobre o amanhã, mas uma decisão tomada no presente.

 

O sertão ensina sem escrever no quadro. Ensina no silêncio das cacimbas, no voo baixo das aves, no comportamento das formigas, no mandacaru que floresce quando a paisagem parece ter desistido. Ensina que a vida não promete facilidade e que, ainda assim, vale a pena ser vivida. O homem aprende a ler os sinais do céu, a calcular a demora das águas, a distinguir a nuvem passageira daquela que vem carregada de chuva. E, nessa escola sem paredes, descobre que a paciência pode ser uma forma de coragem.

 

Há rios nordestinos que desaparecem da vista durante a estiagem. O leito fica exposto, a areia ocupa o lugar da corrente, e quem passa por ali pode acreditar que a água se foi para sempre. Mas, debaixo da superfície ressequida, alguma umidade persiste, algum fio procura passagem, alguma vida se prepara para reaparecer. Assim também é a memória. Às vezes parece adormecida sob os afazeres, abafada pelo ruído das cidades, escondida atrás dos anos. Basta, porém, um cheiro de café, uma palavra dita com o sotaque antigo, o toque de uma música conhecida, e o rio torna a correr.

 

Um homem já velho, sentado diante da janela de um apartamento em São Paulo, pode ouvir o apito de um trem e, de repente, enxergar o terreiro de sua infância. A mulher que trabalha no Rio de Janeiro pode sentir o cheiro de uma pamonha e voltar, por um instante, à cozinha da mãe, onde o dia começava antes do sol. O pedreiro que ajudou a erguer os edifícios de Brasília talvez feche os olhos no fim do expediente e veja o céu aberto sobre a pequena propriedade que deixou para trás. Não é que tenham abandonado a vida presente. É que a vida passada continua morando neles, como uma casa que ninguém conseguiu demolir.

 

E o que é a saudade, senão esse modo estranho de o ausente continuar presente? A saudade não devolve os mortos, não encurta de verdade as distâncias, não faz chover sobre a lavoura. Mas conserva uma passagem entre o que fomos e aquilo que ainda somos. Nela, os pais continuam chamando os filhos pelo nome de infância; os quintais preservam o rumor dos passos antigos; as festas retornam com o mesmo brilho, embora os que dançavam já não estejam todos aqui. A saudade é uma morada sem paredes, e o nordestino, onde quer que esteja, conhece-lhe as portas.

 

Por isso, basta-lhe ouvir um “oxente!” dito no momento certo para sentir que o mundo se aproximou. Há palavras que funcionam como chaves. “Maínha” é uma delas. Não designa apenas uma mãe: abre uma cozinha, uma rede, um colo, uma voz que chama para comer, um conselho repetido tantas vezes que só depois da distância se descobre sua sabedoria. E há o “meu filho”, dito sem cerimônia, que pode acolher um desconhecido como se a intimidade fosse anterior ao encontro.

 

A língua também é terra. Cada sotaque guarda uma geografia, cada expressão conserva um pedaço de história. O modo de pronunciar uma palavra pode transportar séculos de convivência, trabalho, migração, encontro e resistência. Quando alguém despreza a fala nordestina, não está corrigindo apenas uma pronúncia: está recusando uma experiência humana, diminuindo uma herança cultural, confundindo diferença com inferioridade. Não existe língua pequena quando ela é capaz de nomear o amor, o sofrimento, a alegria e a complexidade do mundo.

 

Talvez seja esse um dos grandes equívocos do Brasil: olhar para o Nordeste apenas quando a seca aperta, quando a pobreza ocupa as telas, quando a migração se transforma em notícia. A região, então, aparece como problema a ser resolvido, nunca como fonte de conhecimento, arte e pensamento. Mas o Nordeste não começa na estiagem nem termina com a chegada da chuva. Não é somente a paisagem da carência, tampouco uma coleção de tipos pitorescos destinada ao riso alheio. É um território vivo, contraditório, criador, onde convivem antigas tradições e novas tecnologias, práticas ancestrais e investigações científicas, festas populares e experimentação artística.

 

O nordestino não precisa ser convertido em herói para merecer respeito. Não é necessário cobri-lo de elogios grandiosos, nem fazer da pobreza uma espécie de virtude. Basta reconhecê-lo como homem e mulher de uma história complexa, com direitos, desejos, contradições e possibilidades. A dignidade não depende da capacidade de sofrer sem reclamar. A coragem não deve servir de desculpa para que se neguem oportunidades. E a resistência de um povo não pode justificar a permanência das injustiças que o obrigaram a resistir.

 

Há uma diferença entre admirar quem atravessa o deserto e perguntar por que lhe negaram a água. O Nordeste merece a admiração por sua cultura, sua inventividade e sua força; merece, igualmente, políticas públicas, educação de qualidade, trabalho digno, acesso à ciência, infraestrutura e condições para que seus habitantes possam escolher entre partir e ficar. Porque a verdadeira liberdade não está apenas em conseguir emigrar. Está também em poder permanecer na própria terra sem que isso signifique renunciar ao futuro.

 

Quem parte leva consigo a esperança de voltar melhor, de construir uma casa, de reunir a família, de oferecer aos filhos o estudo que lhe faltou. Quem fica também sonha: espera pela chuva, trabalha a terra, abre um pequeno comércio, ensina na escola, cuida dos pais, inventa maneiras de fazer a vida avançar. Uns atravessam rodovias; outros atravessam anos de dificuldades sem sair do lugar. Todos participam da mesma história, feita de ausências e reencontros, perdas e descobertas.

 

E a chuva? Ah, a chuva é outra coisa. No Nordeste, quando chega, não cai somente do céu: parece vir de um lugar anterior à memória. O cheiro da terra molhada sobe como uma notícia antiga, e os olhos procuram no horizonte os primeiros sinais de verde. A água escorre pelas pedras, desperta sementes, enche cacimbas, devolve voz aos riachos. O sertanejo contempla o milagre sem esquecer o trabalho que ainda o espera. Sabe que uma estação favorável não resolve todos os problemas, mas também sabe que há uma alegria particular em ver a terra responder ao cuidado.

 

O verde, então, não é apenas uma cor. É uma promessa que se torna visível. A rama cresce, o pasto se recompõe, os bichos encontram alimento, a roça ganha outra aparência. E, por algum tempo, o futuro deixa de ser uma palavra abstrata. Está ali, nas folhas novas, na água que corre, no milho que se ergue. O homem olha para o campo e compreende, sem precisar formular a ideia, que a esperança é também uma coisa material: precisa de chuva, de sementes, de braços, de tempo.

 

Mas a esperança nordestina não se limita à espera do inverno. Vive nos livros escritos contra o esquecimento, nas escolas abertas apesar das dificuldades, nos jovens que pesquisam, nas mulheres que empreendem, nos artistas que renovam tradições, nos trabalhadores que inventam soluções. Vive na menina que aprende a ler e descobre que o mundo tem outras portas; no rapaz que regressa à cidade natal depois de estudar; no agricultor que encontra novas formas de conviver com a seca; no poeta que transforma uma experiência local numa pergunta universal.

 

Porque o Nordeste, no fundo, é uma maneira de interrogar a existência. Ensina-nos que o homem não é somente aquilo que possui, mas também aquilo que recorda, cria, compartilha e espera. Ensina que a riqueza de uma cultura não depende do tamanho de suas cidades, nem da altura de seus edifícios, nem do preço de suas mercadorias. Depende da capacidade de produzir sentidos, de transmitir conhecimentos, de imaginar futuros e de reconhecer, na vida do outro, alguma coisa da própria vida.

 

E o mapa invisível continua sendo desenhado. Não aparece nas cartas geográficas, mas pode ser lido no caminho que um migrante percorre de volta à terra natal, na lágrima que lhe escapa ao rever uma casa, no abraço demorado entre irmãos, no silêncio de quem visita o túmulo dos pais. Pode ser lido no livro de um poeta, na cantiga de um vaqueiro, na receita de uma avó, no passo de dança que um filho aprende com o pai. É um mapa feito de vínculos, e os vínculos têm uma força que as distâncias não conseguem medir.

 

O nordestino pode viver no vigésimo andar de um edifício, trabalhar entre computadores, atravessar diariamente ruas de asfalto, frequentar universidades, dirigir empresas, pesquisar estrelas ou escrever livros. Ainda assim, se a memória lhe chamar, ele reconhecerá o caminho de volta. Não necessariamente para uma casa que permaneça de pé, nem para uma paisagem que o tempo tenha preservado. Voltará talvez ao lugar transformado, à rua que já não existe, ao terreiro ocupado por outra construção. Mas encontrará, em algum recanto de si, aquilo que procurava.

 

Porque a terra de origem não é somente o chão que os pés pisaram. É também o chão que a lembrança continua pisando. E eu vos digo, meu povo: um país que desconhece o Nordeste desconhece uma parte essencial de si mesmo. Empobrece a própria língua, encurta a própria história, perde a oportunidade de compreender quantas maneiras existem de enfrentar a vida com inteligência, beleza e dignidade. O Brasil não seria apenas menos alegre sem o Nordeste; seria menos complexo, menos inventivo, menos capaz de ouvir as vozes que nascem longe dos centros de poder.

 

O Nordeste é mais do que uma região: é uma presença que atravessa o país, uma memória em movimento, uma corrente subterrânea que alimenta a imaginação brasileira. Está nas cidades que ajudou a erguer, nas canções que o país inteiro aprendeu, nos livros que ampliaram a literatura, nas festas que fazem das ruas um lugar de encontro. Está também na língua cotidiana, nos alimentos que chegam às mesas, nas histórias que os avós contam e nas palavras que os netos reinventam.

 

E quando a noite cai sobre a cidade grande, quando as janelas se iluminam e o trânsito finalmente abranda, há quem se deite com o corpo cansado e a alma distante. Fecha os olhos. Escuta, lá no fundo, uma sanfona que talvez nem esteja tocando. Sente o cheiro de uma chuva que ainda não caiu. Vê a estrada de barro, a casa singela, a árvore antiga, o rosto de quem ficou. E, por um instante, não existe distância alguma.

 

O sertão está ali. Não como paisagem perdida, mas como parte do próprio ser. Não como lembrança imóvel, mas como água que continua correndo debaixo da terra. Não como passado encerrado, mas como uma força que acompanha o homem na direção do amanhã.

 

E assim segue o nordestino, entre o que deixou e o que ainda deseja alcançar, levando na alma seu mapa sem papel, sua bússola de saudade, seu punhado de palavras antigas. Vai porque precisa, fica quando pode, regressa quando a vida permite. E, em cada caminho, aprende de novo que a esperança não é promessa de facilidade: é o nome que damos à coragem quando ela resolve continuar.

Pois há terras que a gente habita. E há terras que, para sempre, habitam a gente. O Nordeste é dessas. E quem o leva dentro de si nunca viaja completamente sozinho.

 

𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

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