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| Vicente Freitas Liot |
Pode o homem apartar-se da sua
terra, tomar estrada, vencer léguas, atravessar estados e mares; pode a cidade
grande recebê-lo com seus edifícios que furam as nuvens e suas avenidas onde os
automóveis correm como bichos desatinados. Ainda assim, dentro dele permanece
um pedaço de chão que não se muda. É uma nesga de sertão, uma porteira antiga,
um pé de juazeiro resistindo à sede. A poeira da estrada cobre a roupa, o
cimento endurece as mãos, os anos lhe alteram o rosto; mas há uma parte da alma
que continua sentada à sombra, esperando a tarde passar.
Quem viu partir os retirantes
sabe: partir não era somente ir embora. Era uma espécie de morte em prestações,
uma despedida que se fazia sem a coragem de pronunciar a palavra adeus. Os
homens e as mulheres subiam nos paus de arara, aqueles navios terrestres de
madeira, ferro e esperança, levando crianças sonolentas, trouxas de roupa,
panelas, retratos, algum alimento embrulhado e uma fé que nem a fome conseguia
desmanchar. Iam apertados uns contra os outros, mas cada qual viajava dentro da
própria solidão. O motor roncava, a estrada se espichava, e o sertão,
devagarinho, ia ficando para trás — não o sertão verdadeiro, que esse ninguém
abandona, mas o sertão dos olhos, aquele que ainda se podia contemplar pela
última vez antes da curva.
Vinham da Paraíba, de Pernambuco,
do Ceará, do Piauí, do Rio Grande do Norte, de Alagoas, de Sergipe, da Bahia e
das bandas maranhenses. Cada qual trazia sua fala, sua maneira de rir, seu modo
de sofrer. Uns levavam a lembrança do milho assado na fogueira; outros, o rumor
dos folguedos, o cheiro do capim depois da chuva, a cantiga de uma mãe que embalava
o sono. Havia quem trouxesse, guardada num embrulho, uma imagem de Padre
Cícero; quem levasse, dobrada na memória, a música de uma sanfona; quem
partisse sem nada nos bolsos, mas com o coração abarrotado de nomes.
E lá iam. A estrada não
perguntava de onde vinham nem para onde desejavam ir. A estrada apenas seguia,
comprida, indiferente, debaixo de um céu que parecia não acabar. Atrás, ficava
a casa de taipa, o roçado cansado, a cerca de varas, o cachorro que talvez
ainda esperasse junto à cancela. Adiante, havia uma cidade de promessas, uma
terra de trabalho, uma possibilidade de mandar dinheiro para os que tinham
ficado. E entre o que se perdia e o que se buscava, o retirante ia aprendendo a
difícil ciência de continuar. Porque o nordestino, quando parte, não vai
inteiro. Deixa alguma coisa de si plantada no chão de origem. E leva alguma
coisa desse chão plantada em si.
Chegavam ao Sudeste, e o mundo
era outro. Os prédios pareciam montanhas construídas por mãos humanas; as
fábricas, bichos enormes que respiravam fumaça; as ruas, rios de gente
apressada, cada pessoa carregando um destino debaixo do braço. O recém-chegado
estranhava os modos, a fala, o frio, a pressa. Sentia-se pequeno diante da
cidade, mas não se deixava diminuir por ela. Tinha duas mãos, duas pernas, uma
vontade antiga e aquela coragem que não costuma fazer alarde. Era o bastante
para começar.
Começava por onde podia: no
canteiro de obras, na cozinha, na oficina, na feira, na construção, no serviço
doméstico. De sol a sol, punha o corpo no trabalho. Carregava tijolos,
levantava paredes, abria valas, assentava pedras, misturava areia e cimento. E,
enquanto os braços obedeciam ao ofício, a memória trabalhava por conta própria.
No rumor da betoneira, escutava a zabumba. No cheiro da marmita, adivinhava o
tempero de casa. Na hora do descanso, quando o suor esfriava sobre a pele,
talvez lhe viesse o retrato da mulher, dos filhos, da mãe envelhecendo, do pai
que nunca aprendera a dizer ternura senão pelo silêncio.
Brasília cresceu, São Paulo se alargou,
o Rio de Janeiro ergueu seus edifícios e acendeu suas noites. Por trás de tanta
grandeza, quantas mãos anônimas! Quantos homens vindos de terras distantes
trabalharam no nascimento de uma capital, dormindo em alojamentos, comendo
depressa, economizando cada moeda? Quantas mulheres sustentaram famílias
inteiras, cuidando dos filhos alheios enquanto os próprios cresciam longe?
Quantos nordestinos deixaram no concreto das cidades um pouco da sua força, sem
deixar escrito o nome na fachada?
O país gosta de contemplar os
monumentos depois de prontos. Poucas vezes se detém diante dos homens que os
levantaram. Mas a história, se souber escutar, encontrará em cada parede uma
voz; em cada ponte, uma lembrança; em cada edifício, um pedaço de sertão
transplantado. Há cimento que guarda suor. Há pedra que guarda silêncio. E há
cidades inteiras que, sem o perceberem, foram construídas com a saudade dos que
chegaram de longe.
O nordestino fez morada nas
metrópoles, mas nunca deixou de construir, dentro de si, a casa primeira. Nela,
a cozinha tem fumaça de lenha; o fogão conhece o segredo do feijão-verde; a
panela de baião de dois espera a família reunida. O cuscuz, de manhã ou no
domingo, é mais do que comida: é um costume que atravessa gerações, uma espécie
de comunhão entre vivos e ausentes. Há sabores que não alimentam apenas o
corpo. Alimentam a lembrança, que é um modo de continuar pertencendo.
E quem poderia arrancar do
coração nordestino o seu gosto pelas festas? A alegria dessa gente não é
distração da pobreza, nem esquecimento das penas. É uma forma de enfrentá-las.
O sertanejo conhece a tristeza de perto; talvez por isso saiba tão bem
reconhecer a hora de dançar.
Chega junho, e o Nordeste acende
suas noites. A fogueira cresce no terreiro, o milho se oferece à brasa, as
bandeirinhas estremecem no vento. A sanfona começa a contar suas histórias, a
zabumba responde, o triângulo risca no ar uma claridade de metal. Então o corpo
se lembra de uma felicidade que parecia esquecida. Dança-se como quem agradece,
como quem pede, como quem desafia o destino. O casamento matuto faz do riso uma
cerimônia; o forró atravessa a madrugada; e, por algumas horas, ninguém é
estrangeiro na própria vida.
A música nordestina tem essa
propriedade: conhece a distância e sabe encurtá-la. Luiz Gonzaga, com sua
sanfona de muitas saudades, levou o sertão para dentro de casas onde nunca se
vira uma mandacaru. Fez do baião uma língua compreendida por quem jamais pisara
aquelas estradas. Cantou a retirada, a seca, o amor, o gado, a chuva desejada.
E, de repente, o Nordeste, que tantas vezes aparecera aos olhos do país como
uma paisagem de carência, mostrou-se também como um território de invenção,
ritmo e beleza.
Jackson do Pandeiro fez da
síncope um brinquedo sério, uma arte de enganar o compasso e surpreender o
ouvido. Marinês emprestou à voz a altivez das mulheres sertanejas, que conhecem
o peso da vida sem perder a disposição de cantar. Dominguinhos, com seu toque
de delicadeza, ensinou à sanfona que a ternura também pode ser imensa. E tantos
outros, de tantas cidades e povoados, fizeram da música uma estrada de mão
dupla: por ela, o Nordeste viajou pelo Brasil; por ela, o Brasil pôde regressar
ao Nordeste sem sair de casa.
Mas não se pense que a alma
nordestina cabe inteira numa festa. Há nela o riso e há a gravidade; o
improviso e a reflexão; o canto e a palavra escrita. O Nordeste também pensa,
duvida, inventa mundos, examina o homem por dentro. Sua cultura não é um
enfeite regional pendurado na parede da nação. É uma das vigas que sustentam a
casa brasileira.
Patativa do Assaré escutou a
linguagem dos pequenos, e nela encontrou uma grandeza que os doutos nem sempre
souberam reconhecer. Em sua poesia, a voz do camponês não aparece como
curiosidade de feira, mas como consciência do mundo. Quando cantou a partida, a
pobreza e o sofrimento, não fez da dor um espetáculo: deu-lhe dignidade, nome e
memória. Sua palavra, nascida entre as pedras do Cariri, alcançou homens que
viviam longe, porque a injustiça, embora mude de endereço, costuma falar a mesma
língua.
Ariano Suassuna, por sua vez,
abriu as portas de um reino que não figurava nos mapas políticos. Misturou o
popular e o erudito, o sagrado e o profano, a graça e o espanto, como se
soubesse que a cultura é um bicho de muitas naturezas e que nenhuma fronteira
consegue prendê-la. Em sua obra, o Nordeste não pede licença para entrar na
literatura: entra de sandálias, espada imaginária, riso largo e sabedoria
antiga. E transforma o palco num terreiro onde o povo reconhece a própria face,
ainda que deformada pelo espelho da farsa.
Rachel de Queiroz conheceu os
desamparos da seca e os caminhos ásperos da sobrevivência. Sua escrita trouxe
para a literatura a dureza de um mundo em que a necessidade, muitas vezes, fala
mais alto que o desejo. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia
Brasileira de Letras, abrindo, com sua presença, uma passagem que o costume
insistia em manter fechada. Não foi apenas uma mulher que entrou numa
instituição de prestígio; foi também uma experiência brasileira, nascida sob o
sol do Ceará, que conquistou lugar na história das letras.
E antes, muito antes de a
literatura brasileira aprender a escutar tantas dessas vozes, Leandro Gomes de
Barros já espalhava pelo papel os folhetos de um povo que sabia rir dos
poderosos, narrar façanhas e transformar o cotidiano em aventura. O cordel, com
sua cadência de cantoria e sua inteligência de feira, fez da palavra uma coisa
portátil. Cabia no alforje, no balcão, na memória do cantador. Viajava de mão
em mão, de boca em boca, sem precisar de solenidade para alcançar a eternidade.
Também houve nordestinos que
fizeram da ciência sua morada, da política seu campo de luta, da educação seu
instrumento de mudança. César Lattes ajudou a ampliar o horizonte da física;
Francisco Julião se tornou uma das figuras marcantes das lutas camponesas
brasileiras. Outros, incontáveis, trabalharam nas escolas, nos hospitais, nos
laboratórios, nas repartições, nas universidades, nas pequenas cidades e nos
grandes centros. Nem todos ganharam monumentos. Nem todos foram lembrados nos
livros. Mas a grandeza de uma região não se mede apenas pelos nomes gravados em
bronze: mede-se também por aquilo que seus filhos tornam possível para os
outros.
E que dizer da Bahia, onde a fé
toma as ruas e a tradição se faz corpo? Na Lavagem do Bonfim, a caminhada
converte-se em encontro, e o gesto de lavar as escadarias reúne, numa mesma
paisagem, devoção, história e pertencimento. Que dizer de Pernambuco, onde o
frevo parece inventado para que a alegria desafie a gravidade, e o Galo da
Madrugada transforma as ruas do Recife num imenso coração em movimento? Que
dizer de Sergipe, de suas festas, de seus banhos tradicionais, de seus festejos
populares, e de cada povoado onde a memória se conserva menos nos arquivos do
que na voz dos mais velhos?
O Nordeste é muitos. Não há uma
única maneira de ser nordestino, assim como não existe um só rosto para o
sertão. O litoral tem seus coqueirais, seus jangadeiros, suas marés; o agreste
muda de cor conforme a estação; o Cariri guarda suas pedras e seus mistérios; o
Maranhão abre caminhos entre rios, matas e tradições; o São Francisco atravessa
paisagens e vidas como uma antiga promessa. Cada lugar tem seu sotaque, seu
alimento, seu ritmo, sua maneira de chamar a chuva. E todos, diferentes entre
si, participam dessa vasta conversa que a região mantém consigo mesma e com o
restante do país.
Por isso, é pouco dizer que o
nordestino é resistente. A palavra, sozinha, não alcança a inteireza de sua
experiência. Resistir pode significar apenas aguentar. E o nordestino não
apenas aguenta: ele transforma. Transforma a falta em engenho, a distância em
canto, a dificuldade em saber. Aprende a encontrar sombra onde o sol parece ter
consumido tudo; aprende a plantar mesmo quando a terra não oferece garantias;
aprende, sobretudo, que a esperança não é uma certeza sobre o amanhã, mas uma
decisão tomada no presente.
O sertão ensina sem escrever no
quadro. Ensina no silêncio das cacimbas, no voo baixo das aves, no
comportamento das formigas, no mandacaru que floresce quando a paisagem parece
ter desistido. Ensina que a vida não promete facilidade e que, ainda assim,
vale a pena ser vivida. O homem aprende a ler os sinais do céu, a calcular a
demora das águas, a distinguir a nuvem passageira daquela que vem carregada de
chuva. E, nessa escola sem paredes, descobre que a paciência pode ser uma forma
de coragem.
Há rios nordestinos que
desaparecem da vista durante a estiagem. O leito fica exposto, a areia ocupa o
lugar da corrente, e quem passa por ali pode acreditar que a água se foi para
sempre. Mas, debaixo da superfície ressequida, alguma umidade persiste, algum
fio procura passagem, alguma vida se prepara para reaparecer. Assim também é a
memória. Às vezes parece adormecida sob os afazeres, abafada pelo ruído das cidades,
escondida atrás dos anos. Basta, porém, um cheiro de café, uma palavra dita com
o sotaque antigo, o toque de uma música conhecida, e o rio torna a correr.
Um homem já velho, sentado diante
da janela de um apartamento em São Paulo, pode ouvir o apito de um trem e, de
repente, enxergar o terreiro de sua infância. A mulher que trabalha no Rio de
Janeiro pode sentir o cheiro de uma pamonha e voltar, por um instante, à
cozinha da mãe, onde o dia começava antes do sol. O pedreiro que ajudou a
erguer os edifícios de Brasília talvez feche os olhos no fim do expediente e
veja o céu aberto sobre a pequena propriedade que deixou para trás. Não é que
tenham abandonado a vida presente. É que a vida passada continua morando neles,
como uma casa que ninguém conseguiu demolir.
E o que é a saudade, senão esse
modo estranho de o ausente continuar presente? A saudade não devolve os mortos,
não encurta de verdade as distâncias, não faz chover sobre a lavoura. Mas
conserva uma passagem entre o que fomos e aquilo que ainda somos. Nela, os pais
continuam chamando os filhos pelo nome de infância; os quintais preservam o
rumor dos passos antigos; as festas retornam com o mesmo brilho, embora os que
dançavam já não estejam todos aqui. A saudade é uma morada sem paredes, e o nordestino,
onde quer que esteja, conhece-lhe as portas.
Por isso, basta-lhe ouvir um
“oxente!” dito no momento certo para sentir que o mundo se aproximou. Há
palavras que funcionam como chaves. “Maínha” é uma delas. Não designa apenas
uma mãe: abre uma cozinha, uma rede, um colo, uma voz que chama para comer, um
conselho repetido tantas vezes que só depois da distância se descobre sua
sabedoria. E há o “meu filho”, dito sem cerimônia, que pode acolher um
desconhecido como se a intimidade fosse anterior ao encontro.
A língua também é terra. Cada
sotaque guarda uma geografia, cada expressão conserva um pedaço de história. O
modo de pronunciar uma palavra pode transportar séculos de convivência,
trabalho, migração, encontro e resistência. Quando alguém despreza a fala
nordestina, não está corrigindo apenas uma pronúncia: está recusando uma
experiência humana, diminuindo uma herança cultural, confundindo diferença com
inferioridade. Não existe língua pequena quando ela é capaz de nomear o amor, o
sofrimento, a alegria e a complexidade do mundo.
Talvez seja esse um dos grandes
equívocos do Brasil: olhar para o Nordeste apenas quando a seca aperta, quando
a pobreza ocupa as telas, quando a migração se transforma em notícia. A região,
então, aparece como problema a ser resolvido, nunca como fonte de conhecimento,
arte e pensamento. Mas o Nordeste não começa na estiagem nem termina com a
chegada da chuva. Não é somente a paisagem da carência, tampouco uma coleção de
tipos pitorescos destinada ao riso alheio. É um território vivo, contraditório,
criador, onde convivem antigas tradições e novas tecnologias, práticas
ancestrais e investigações científicas, festas populares e experimentação
artística.
O nordestino não precisa ser
convertido em herói para merecer respeito. Não é necessário cobri-lo de elogios
grandiosos, nem fazer da pobreza uma espécie de virtude. Basta reconhecê-lo
como homem e mulher de uma história complexa, com direitos, desejos,
contradições e possibilidades. A dignidade não depende da capacidade de sofrer
sem reclamar. A coragem não deve servir de desculpa para que se neguem
oportunidades. E a resistência de um povo não pode justificar a permanência das
injustiças que o obrigaram a resistir.
Há uma diferença entre admirar
quem atravessa o deserto e perguntar por que lhe negaram a água. O Nordeste
merece a admiração por sua cultura, sua inventividade e sua força; merece,
igualmente, políticas públicas, educação de qualidade, trabalho digno, acesso à
ciência, infraestrutura e condições para que seus habitantes possam escolher
entre partir e ficar. Porque a verdadeira liberdade não está apenas em
conseguir emigrar. Está também em poder permanecer na própria terra sem que
isso signifique renunciar ao futuro.
Quem parte leva consigo a
esperança de voltar melhor, de construir uma casa, de reunir a família, de
oferecer aos filhos o estudo que lhe faltou. Quem fica também sonha: espera
pela chuva, trabalha a terra, abre um pequeno comércio, ensina na escola, cuida
dos pais, inventa maneiras de fazer a vida avançar. Uns atravessam rodovias;
outros atravessam anos de dificuldades sem sair do lugar. Todos participam da
mesma história, feita de ausências e reencontros, perdas e descobertas.
E a chuva? Ah, a chuva é outra
coisa. No Nordeste, quando chega, não cai somente do céu: parece vir de um
lugar anterior à memória. O cheiro da terra molhada sobe como uma notícia
antiga, e os olhos procuram no horizonte os primeiros sinais de verde. A água
escorre pelas pedras, desperta sementes, enche cacimbas, devolve voz aos riachos.
O sertanejo contempla o milagre sem esquecer o trabalho que ainda o espera.
Sabe que uma estação favorável não resolve todos os problemas, mas também sabe
que há uma alegria particular em ver a terra responder ao cuidado.
O verde, então, não é apenas uma
cor. É uma promessa que se torna visível. A rama cresce, o pasto se recompõe,
os bichos encontram alimento, a roça ganha outra aparência. E, por algum tempo,
o futuro deixa de ser uma palavra abstrata. Está ali, nas folhas novas, na água
que corre, no milho que se ergue. O homem olha para o campo e compreende, sem
precisar formular a ideia, que a esperança é também uma coisa material: precisa
de chuva, de sementes, de braços, de tempo.
Mas a esperança nordestina não se
limita à espera do inverno. Vive nos livros escritos contra o esquecimento, nas
escolas abertas apesar das dificuldades, nos jovens que pesquisam, nas mulheres
que empreendem, nos artistas que renovam tradições, nos trabalhadores que
inventam soluções. Vive na menina que aprende a ler e descobre que o mundo tem
outras portas; no rapaz que regressa à cidade natal depois de estudar; no
agricultor que encontra novas formas de conviver com a seca; no poeta que
transforma uma experiência local numa pergunta universal.
Porque o Nordeste, no fundo, é
uma maneira de interrogar a existência. Ensina-nos que o homem não é somente
aquilo que possui, mas também aquilo que recorda, cria, compartilha e espera.
Ensina que a riqueza de uma cultura não depende do tamanho de suas cidades, nem
da altura de seus edifícios, nem do preço de suas mercadorias. Depende da
capacidade de produzir sentidos, de transmitir conhecimentos, de imaginar
futuros e de reconhecer, na vida do outro, alguma coisa da própria vida.
E o mapa invisível continua sendo
desenhado. Não aparece nas cartas geográficas, mas pode ser lido no caminho que
um migrante percorre de volta à terra natal, na lágrima que lhe escapa ao rever
uma casa, no abraço demorado entre irmãos, no silêncio de quem visita o túmulo
dos pais. Pode ser lido no livro de um poeta, na cantiga de um vaqueiro, na
receita de uma avó, no passo de dança que um filho aprende com o pai. É um mapa
feito de vínculos, e os vínculos têm uma força que as distâncias não conseguem
medir.
O nordestino pode viver no
vigésimo andar de um edifício, trabalhar entre computadores, atravessar
diariamente ruas de asfalto, frequentar universidades, dirigir empresas,
pesquisar estrelas ou escrever livros. Ainda assim, se a memória lhe chamar,
ele reconhecerá o caminho de volta. Não necessariamente para uma casa que
permaneça de pé, nem para uma paisagem que o tempo tenha preservado. Voltará
talvez ao lugar transformado, à rua que já não existe, ao terreiro ocupado por
outra construção. Mas encontrará, em algum recanto de si, aquilo que procurava.
Porque a terra de origem não é
somente o chão que os pés pisaram. É também o chão que a lembrança continua
pisando. E eu vos digo, meu povo: um país que desconhece o Nordeste desconhece
uma parte essencial de si mesmo. Empobrece a própria língua, encurta a própria
história, perde a oportunidade de compreender quantas maneiras existem de
enfrentar a vida com inteligência, beleza e dignidade. O Brasil não seria
apenas menos alegre sem o Nordeste; seria menos complexo, menos inventivo,
menos capaz de ouvir as vozes que nascem longe dos centros de poder.
O Nordeste é mais do que uma
região: é uma presença que atravessa o país, uma memória em movimento, uma
corrente subterrânea que alimenta a imaginação brasileira. Está nas cidades que
ajudou a erguer, nas canções que o país inteiro aprendeu, nos livros que
ampliaram a literatura, nas festas que fazem das ruas um lugar de encontro.
Está também na língua cotidiana, nos alimentos que chegam às mesas, nas
histórias que os avós contam e nas palavras que os netos reinventam.
E quando a noite cai sobre a
cidade grande, quando as janelas se iluminam e o trânsito finalmente abranda,
há quem se deite com o corpo cansado e a alma distante. Fecha os olhos. Escuta,
lá no fundo, uma sanfona que talvez nem esteja tocando. Sente o cheiro de uma
chuva que ainda não caiu. Vê a estrada de barro, a casa singela, a árvore
antiga, o rosto de quem ficou. E, por um instante, não existe distância alguma.
O sertão está ali. Não como
paisagem perdida, mas como parte do próprio ser. Não como lembrança imóvel, mas
como água que continua correndo debaixo da terra. Não como passado encerrado,
mas como uma força que acompanha o homem na direção do amanhã.
E assim segue o nordestino, entre
o que deixou e o que ainda deseja alcançar, levando na alma seu mapa sem papel,
sua bússola de saudade, seu punhado de palavras antigas. Vai porque precisa,
fica quando pode, regressa quando a vida permite. E, em cada caminho, aprende
de novo que a esperança não é promessa de facilidade: é o nome que damos à
coragem quando ela resolve continuar.
Pois há terras que a gente
habita. E há terras que, para sempre, habitam a gente. O Nordeste é dessas. E
quem o leva dentro de si nunca viaja completamente sozinho.
𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

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