A história das
povoações do Norte do Brasil não começa com o sino, mas com a enxada; não com o
altar, mas com a sesmaria. A cruz que se levanta no descampado é, muitas vezes,
o último gesto de um processo anterior: a conquista da terra, a fixação do homem,
a domesticação do gado. Assim se deu no vale do Acaraú, onde a futura Bela Cruz
teve o seu princípio remoto.Em 1683 concedeu-se a Manoel de Goes e companheiros a primeira sesmaria na Ribeira do Acaraú. O documento, registrado nos cartórios da antiga Capitania do Siará Grande, não é apenas título de propriedade: é ato fundador. A sesmaria era mais que uma dádiva régia; era instrumento de povoamento, célula de colonização. O sertão, até então vasto e incerto, começava a ser dividido em glebas, marcadas por referências naturais — rios, serrotes, matas — e pela esperança de criação de gado.
O vale do Acaraú, fértil nas vazantes e propício às pastagens, não tardou a receber outros moradores. O movimento era lento, mas contínuo. A ocupação do sertão cearense seguiu a trilha do boi. O curral precedeu a capela. Antes do altar, o curral; antes do vigário, o vaqueiro.
Convém recordar que a região não era, então, um deserto humano. Os povos indígenas ali estavam, e o processo de ocupação implicou tensões, deslocamentos e, não raro, violência. A memória do assassinato do Padre Francisco Pinto, relatado por Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil, lembra-nos que a evangelização e o conflito caminharam juntos no Norte da colônia.
Quando, em 1732, se ergueu a capela de Nossa Senhora da Conceição, no Sítio Santa Cruz, o ato não foi improviso de devoção isolada. Representou o coroamento de meio século de presença estável. A notícia que nos chega pelo Revdo. Pe. João Ribeiro Pessoa, nas Notícias da Freguesia de 1767, publicadas depois na Revista do Instituto do Ceará, é clara ao afirmar tratar-se da terceira capela erigida na freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Caiçara.
Chamou-lhe o cura “Capela de Santa Cruz”. A expressão não é mero ornamento retórico: traduz a percepção, já em 1767, de que a fundação da capela pertencia a um passado respeitável, quase mítico, para os moradores da Ribeira.
A hipótese mais verossímil atribui a construção da capela a Nicolau da Costa Peixoto e Domingos Aguiar de Oliveira, sob licença do Padre Sebastião Vogado de Souto Maior, visitador do bispo de Olinda, na Ribeira do Acaraú, entre novembro de 1731 e janeiro de 1732. A coincidência das datas não parece casual. A presença do visitador, autoridade eclesiástica investida de poderes canônicos, forneceu a legitimidade necessária ao erguimento do templo.
O que distingue a capela de Santa Cruz não é apenas a sua antiguidade, mas a clareza documental do seu patrimônio. A 12 de setembro de 1732, Domingos Aguiar de Oliveira e Nicolau da Costa Peixoto doaram meia légua de terras, quarenta vacas e seis éguas, à Nossa Senhora da Conceição.
O traslado da escritura, conservado e divulgado no livro “Bela Cruz: biografia do município” (2001), permite-nos penetrar na linguagem cartorial do século XVIII. A grafia arcaica — “duação”, “egoas”, “pessôas” — revela não só o estado da língua, mas a formalidade jurídica que envolvia o ato.
Não se tratava de esmola simbólica. Quarenta vacas constituíam capital produtivo considerável. O gado era, no sertão, moeda e riqueza. O patrimônio da capela garantia a sua manutenção: dos lucros das crias e dos arrendamentos se sustentaria o culto, se reparariam as paredes, se comprariam alfaias.
A meia légua de terra, por sua vez, fixava o núcleo populacional. O patrimônio religioso convertia-se em polo econômico. A igreja, nesse contexto, não era apenas casa de oração; era centro de gravitação social.
Se a tradição consagrou Bela Cruz como cidade, seus fundamentos repousam nesses dois sesmeiros. Nicolau da Costa Peixoto e Domingos Aguiar de Oliveira, ao constituírem o patrimônio da capela, lançaram as bases de uma comunidade estável. O título de fundadores não é exagero, mas reconhecimento histórico.
Note-se que o patrimônio precisou, anos depois, ser julgado por título canônico. Em 1747, o Revdo. Dr. Manoel Machado Freire mandou organizar o livro da capela, por se achar “avulso seu patrimônio”. A visita pastoral de José Teixeira de Azevedo regularizou a situação, passando provisão para reedificar o corpo da igreja, “por estar muito velho”, e edificar de novo a capela-mor.
A observação é preciosa: quinze anos após a fundação, o templo já exigia reparos substanciais. A precariedade das construções sertanejas, explica a necessidade de reconstrução frequente. A igreja do sertão era obra viva, sujeita ao tempo e à pobreza dos materiais.
A capela situava-se a quatro léguas da Barra do Acaraú, ao norte do rio. A informação topográfica não é acessória. Indica isolamento relativo, dependência eclesiástica e o esforço necessário para a assistência espiritual.
As distâncias, no século XVIII, mediam-se em dias de viagem. Uma légua equivalia a caminho percorrido a pé ou a cavalo. A capela de Santa Cruz representava, para os moradores da Ribeira, a redução da distância entre o fiel e o sacramento.
O topônimo Santa Cruz preservou-se por séculos. Apenas em 1938, pelo Decreto Federal nº 311, a localidade recebeu a denominação de Bela Cruz. A mudança, administrativa e moderna, não apagou a memória do primeiro nome. Santa Cruz indicava a devoção fundadora; Bela Cruz acrescentou-lhe adjetivo que a estética republicana julgou conveniente.
Mas a cidade — como tantas do interior nordestino — nasceu não de decreto, mas de escritura de doação e de licença eclesiástica. A pena do tabelião precedeu a do legislador.
A primeira igreja de Bela Cruz não foi simples edifício de culto. Foi marco de fixação territorial, centro econômico, símbolo de legitimidade social. A doação de terras e gado, o registro em cartório, a intervenção dos visitadores, tudo isso compõe o quadro de uma colonização que se fez pela interseção do civil e do religioso.
Assim, no Vale do Acaraú, a cruz erguida em 1732 não apenas santificou o lugar: organizou-o. Em torno dela cresceu o povoado, depois freguesia, mais tarde município.
A história de Bela
Cruz começa, pois, com um gesto duplo: a posse da terra e a consagração do
espaço. Entre a sesmaria de 1683 e a capela de 1732 medeia o esforço anônimo de
homens que, abrindo caminhos no sertão, prepararam o terreno para que a fé se
tornasse também fundamento da cidade.
Vicente Freitas Liot
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