A memória sóbria e investigativa não se principia pela lenda, mas pelo vestígio; não pela tradição repetida, mas pelo documento — ainda que lacunar — que resiste ao tempo. E é assim, entre assentos paroquiais, memórias familiares e conjeturas verossímeis, que se recompõe a figura do Capitão Manoel Vaz Carrasco, personagem de relevo na ocupação das ribeiras do Acaraú, no primeiro século da colonização efetiva do Ceará.
Nascido em 1673, na freguesia de Ipojuca, em Pernambuco,
Manoel Vaz Carrasco traz consigo a marca de uma linhagem que oscila entre o
prestígio e a perseguição — como tantas no mundo luso-brasileiro seiscentista.
Filho de Francisco Vaz Carrasco, Capitão de ordenanças, e de Brites de
Vasconcelos, inscreve-se numa genealogia onde se entrelaçam a nobreza rural, os
serviços militares e a sombra persistente dos cristãos-novos, cuja memória,
embora atenuada, nunca se dissipa por completo.
Seu avô materno, Gaspar da Costa Coelho, surge como
figura típica da guerra holandesa — Cavaleiro da Ordem de Cristo e Capitão de
infantaria —, o que nos remete diretamente ao ciclo da Insurreição
Pernambucana, episódio decisivo na restauração do domínio português no
Nordeste. É nesse ambiente de conflito, honra militar e reorganização colonial
que se forma a geração de onde procede Manoel.
Mas o que distingue o Capitão não é apenas a origem: é o
deslocamento. Como tantos homens de sua condição, Manoel Vaz Carrasco participa
do movimento de interiorização da colonização, deixando o litoral açucareiro de
Pernambuco para penetrar os sertões ainda em processo de ocupação. Por volta de
1714 — data que se infere mais do que se prova —, já viúvo de sua primeira
esposa, transfere-se para a então povoação de Caiçara, núcleo primitivo da
futura Sobral.
Ali, sua presença não é marginal, mas funcional: atua na
arrecadação provincial, atividade que exigia não apenas confiança
administrativa, mas também algum grau de instrução — o que se confirma por sua
atuação anterior como escrivão ligado à Capela de Olinda, onde teria lavrado,
em 1707, o registro testamentário de João Fernandes Vieira, um dos principais
líderes da resistência contra os holandeses.
Este dado é significativo: coloca Manoel em contato com
as elites políticas e militares de Pernambuco, sugerindo que sua migração para
o Ceará não foi fortuita, mas inserida numa rede de relações e serviços.
A fixação definitiva dá-se, contudo, após seu segundo
casamento, em 1715, com Maria Magdalena de Sá e Oliveira, pertencente a uma
família já estabelecida na região. É neste ponto que a história individual se
funde com a estrutura agrária: Manoel instala-se na Fazenda Lagoa Seca, nas
imediações do atual município de Bela Cruz, território então vinculado à
sesmaria de seu cunhado, Domingos Aguiar de Oliveira.
Nada há de fortuito nessa escolha. A Lagoa Seca, com seu
curso d’água paralelo ao Riacho Tucuns, oferecia condições propícias à fixação:
água, pastagem e posição estratégica nas rotas de circulação sertanejas. A
ausência de registros diretos sobre a aquisição da propriedade não impede a
inferência — prudente — de que tenha sido obtida por via matrimonial, como dote
ou cessão familiar, prática corrente na expansão das sesmarias.
É nesse espaço que Manoel Vaz Carrasco se transforma, de
migrante funcional, em patriarca territorial.
Sua descendência — sobretudo pelas chamadas “sete irmãs”
— constitui o verdadeiro eixo de sua importância histórica. Não se trata apenas
de numerosa prole, mas de uma estratégia de alianças: cada casamento de suas
filhas representa a fundação de um novo núcleo familiar e, frequentemente, de uma
nova unidade produtiva. Assim se tece, não por decreto, mas por consórcio, a
malha social que dará origem às povoações do vale do Acaraú. A genealogia,
neste caso, não é ornamento: é estrutura.
Por meio dessas alianças, entrelaçam-se sobrenomes que se
tornarão recorrentes na história regional — Araújo, Aguiar, Xerez, Linhares,
Ferreira da Ponte, Prado Leão — compondo uma rede de parentesco que ultrapassa
o âmbito doméstico e se projeta na organização política e econômica da
capitania.
Particular relevo assume a figura do Capitão-mor José de
Xerez Furna Uchoa, genro de Manoel Vaz Carrasco, cuja consciência heráldica e
empenho em registrar sua ascendência revelam uma mentalidade de transição:
entre o mundo da tradição nobiliárquica europeia e a realidade ainda fluida do
sertão colonial. Sua ligação remota a Arnaud de Holanda, fidalgo de origem
europeia, ilustra bem o esforço — nem sempre rigoroso — de enobrecer a memória
familiar. E, no entanto, mesmo as imprecisões dizem algo: revelam a necessidade
de legitimação social num espaço onde a autoridade ainda se construía.
Outro elemento digno de nota é a persistência da memória
cristã-nova na linhagem de Manoel Vaz Carrasco. Ainda que diluída, essa origem
remete às tensões da Inquisição e às estratégias de sobrevivência social no
império português. No sertão cearense, distante dos tribunais inquisitoriais,
essas marcas tornam-se menos visíveis, mas não desaparecem: sobrevivem nos
nomes, nos casamentos, nas omissões.
A morte de Manoel Vaz Carrasco, em 23 de novembro de
1753, registrada no Livro 3º de Óbitos de Sobral, encerra sua trajetória com a
sobriedade típica dos assentos paroquiais: “de doença que Deus lhe deu”, “ab
intestato”, “envolto em hábito franciscano”. Nada de testamento, nada de
inventário conhecido — silêncio documental que contrasta com a vastidão de sua
descendência. E talvez seja esse o traço mais significativo: Manoel Vaz
Carrasco não deixou papéis, mas deixou gente.
Sua obra não está nos arquivos — ou não apenas —, mas na
continuidade das famílias que povoaram Bela Cruz, Acaraú, Santana do Acaraú e
Sobral. É um desses casos em que a história se escreve menos com tinta e mais
com sangue, menos com decretos e mais com alianças.
Assim, ao fim, não se deve perguntar apenas quem foi
Manoel Vaz Carrasco, mas o que dele permaneceu. E o que permaneceu foi uma rede
— de parentesco, de terras, de memória — que ajudou a fixar o homem no sertão e
a dar forma a uma região inteira.
Vicente Freitas Liot

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