DE SÍTIO SANTA CRUZ A BELA CRUZ

Conforme antiga tradição oral, em princípios do século XVIII, uma mulata chamada Genoveva passou a morar no local hoje ocupado pela cidade de Bela Cruz e mandou construir uma casinha sobre a colina, a noroeste da atual Igreja Matriz. A tradição diz ainda que Genoveva tinha uma profissão especial: sabia fazer benzeduras e rezava para diferentes mazelas – espinhela caída, quebranto nas crianças e reumatismo nos velhos; bem como adivinhar o futuro. Essa profissão constituía naquele tempo, uma eficiente fonte de renda, e Genoveva granjeou tanto prestígio, que o local ficou conhecido por Alto da Genoveva. Por essa época, como a localidade e adjacências já formassem um pequeno arraial deu-se início à construção de uma Capela, consagrada a Nossa Senhora da Conceição. A proximidade do Rio Acaraú e a fertilidade das terras da ribeira e da mata constituíam promessa de facilidade de sobrevivência e até de fartura. “O solo se prestava, convenientemente, como ainda se presta, ao cultivo do algodão, da mandioca, de alguns cereais e até cana de açúcar, ao passo que os campos e as caatingas se adaptavam à criação de bovinos, caprinos, suínos e outros. A preferência daqueles que desejavam viver e trabalhar naquela área era pela terra mais próxima da povoação, especialmente à meia légua doada à capela, para formar seu patrimônio. Outros buscavam a povoação, com o objetivo de aumentar seus haveres, porque já eram detentores de recursos e queriam terra boa onde lhes conviesse desenvolver suas atividades”.

Apesar de a tradição oral dar conta de uma velha mulata (Genoveva) como a primeira habitante da localidade, isso não é exato. Como já vimos diversos latifundiários e criadores de gado, ali adquiriram sesmarias e ali passaram a morar, isso, quase um século antes da existência de Genoveva. Afirmamos mesmo que – como já observara Antonio Bezerra – essa tradição é falsa, como são todas as que se referem às origens do Ceará.

O que sabemos sobre Genoveva que, na verdade, não era mulata, nem rezadeira, nem velha, é o seguinte: A 1º de novembro, de 1753, realiza-se na Matriz de Caiçara (Sobral) o casamento religioso de Miguel do Prado Leão, filho de Cosme do Prado Leão e Luzia da Assunção Oliveira, com Ana Maria de Vasconcelos, uma das sete irmãs, filha de Manoel Vaz Carrasco e D. Madalena de Sá. Após o casamento passaram a residir na Fazenda Malassombrado, (Bela Cruz). Deste consórcio houve 9 filhos, entre estes, Martinho do Prado Leão, que se casou, a 22 de julho de 1793, com Genoveva Maria de Jesus, sua prima, filha de Anselmo de Araújo Costa e D. Francisca Xavier. Posteriormente, este casal passou a morar nas proximidades da Capela de Santa Cruz. Eis aí a origem do nome – Alto da Genoveva que, estamos certos, nunca deu nome ao povoado, mas apenas à parte do alto onde Genoveva residia. E, se Genoveva, como consta, passou a morar no local após seu casamento, ocorrido 61 anos depois da construção da Capela de Santa Cruz, impossível ter sido ela a primeira habitante da localidade. Ainda mais que, em 1732, quando os sesmeiros Nicolau da Costa Peixoto e Domingos Aguiar de Oliveira, doaram alguns bens para o patrimônio da Capela, a localidade já tinha o nome de sítio Santa Cruz, conforme podemos observar na Escritura de Doação. E com esta denominação o povoado atravessou anos e séculos, até que através do decreto federal nº 311, de 2 de março de 1938, recebeu o nome de Bela Cruz.

Diante do que escrevemos e transcrevemos, parece que não poderá haver mais dúvidas de que a primeira denominação da hoje cidade de Bela Cruz – foi SANTA CRUZ e não Alto da Genoveva. Se levarmos em conta a tradição, é forçoso dizer, não há o que aproveitar em benefício da verdade.

Resumindo: a hoje cidade de Bela Cruz nasceu há mais de três séculos, precisamente, em 1683. Naquele ano foi concedida a Manoel de Goes e seus companheiros a primeira sesmaria do Vale do Acaraú. Posteriormente outras pessoas ali vieram morar. Em 1732 construíram uma igrejinha. Esse templo consagrado a Nossa Senhora da Conceição. Em 1938, o Decreto Federal nº 311, deu ao topônimo a denominação de “Bela Cruz”. O patrimônio da capela foi constituído de meia légua de terra e 40 vacas, doadas pelos proprietários Nicolau da Costa Peixoto e Domingos Aguiar de Oliveira, a 12 de setembro de 1732. Já o município foi criado por lei de 23 de fevereiro de 1957, do então Governador do Ceará, Paulo Sarasate Ferreira Lopes, e foi instalado, oficialmente, a 25 de março de 1959. Eis a verdadeira história.

Ao usar este artigo, faça referência, cite a FONTE: Texto de autoria de Vicente Freitas, disponível em: http://vicentefreitas.blogspot.com

Comentários

  1. Foto do autor do texto, Vicente Freitas. Monalisa Geossandra fotografou, em 12 de abril de 2010.

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