Ser professor antes dos 25 anos

Cada vez mais cedo jovens optam pela docência. Conheça os desafios

Por Bárbara Paludeti

Há algum tempo, as pretensões de quem entrava em uma graduação eram se formar e partir para o mercado de trabalho. Falar em ser professor era praticamente um tabu entre os jovens. Poucos alunos pensavam em seguir uma carreira acadêmica imediatamente após concluir a graduação. Mas esse quadro mudou um pouco, e, hoje em dia, alguns saem da graduação com 21 anos, emendam uma pós e, em seguida, já se tornam docentes. Ou ainda antes disso - nem começam uma pós-graduação e já são professores.

Esse é o caso do professor Sammyr Silva Freitas, de 22 anos, da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo). Ele mal saiu da graduação e já é docente dos cursos de Mídias Digitais e Rádio e TV da instituição. Ele conta que a sua ligação com a área de educação é antiga. "Sempre tive ligação com essa área, porque trabalho com e-learning, que utiliza meios interativos e de multimídia para educar, principalmente no caso de empresas. Esse background de e-learning, mesmo que não seja dentro da sala de aula, me proporcionou um conhecimento macro que é o ensino. Então senti que tinha condições de trabalhar também na área presencial, que seriam as aulas normais", conta.

Já o professor do curso de Educação Física da Fefisa (Faculdades Integradas de Santo André), Daniel Donadelle, de 24 anos, nunca havia pensado em partir para a área acadêmica, até ser convidado por uma professora a ser monitor na disciplina de Metodologia da Pesquisa Científica. "Fiquei durante dois anos trabalhando como monitor e, justamente nesse período, a professora estava terminando o doutorado, e poderia surgir alguma oportunidade de ministrar aulas no período da noite. Não levei muito a sério, mas o tempo passou e ela falou que estava tudo certo e que eu iria dar aula. Foi quando tudo começou há dois anos", explica Donadelle.

Em dias de desemprego como hoje, a docência pode virar uma alternativa para muitos jovens que não conseguem emplacar no mercado de trabalho. E foi o que aconteceu com a professora do curso de Farmácia da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Luzia de Sena Fernandes, de 23 anos, que ministra aulas há quase um ano. "A oportunidade de ser professora surgiu assim que concluí minha habilitação em Análises Clínicas, em julho de 2005. Passei um mês à procura de emprego em farmácias comerciais e em laboratórios de análises clínicas. Nesse tempo, surgiram alguns concursos para professor substituto na UFRN, resolvi concorrer, passei e fui contratada como professora substituta", conta Luzia.

Recepção dos alunos

Professores jovens como esses três que acabamos de conhecer não sabem o que vão encontrar pela frente no primeiro dia de aula: uma classe com potenciais alunos amigos ou estudantes hostis que duvidam da competência do mestre por conta da idade. Tanto Luzia quanto Freitas tiveram sorte nesse sentido. Apesar de terem muitos alunos mais velhos que eles, o respeito e sintonia foram recíprocas. Já Donadelle enfrentou alguns problemas no início de sua vida como docente.

"Fiquei bastante inseguro, nervoso, um pouco autoritário demais com os alunos e percebia que tinham receio de um professor novo na frente deles. Na primeira aula já tive reclamações de alunos na coordenação, porque se tratava de uma disciplina muito importante - Metodologia da Pesquisa Científica - e eu era um professor muito novo. Aconteceram algumas confusões em sala de aula, mas foi tudo contornado junto à coordenação, que também me passou dicas de como lidar com os estudantes", afirma o jovem professor.

O estudante do curso de Mídias Digitais da Metodista, Berlim Venâncio Câmara, de 39 anos, é aluno do professor Sammyr Freitas e 17 anos mais velho que ele, porém, isso nunca foi motivo para duvidar da competência do mestre. "A primeira reação minha e da turma foi normal. Antigamente a gente tinha a imagem de professor de um senhor de idade, hoje em dia mudou bastante. Não existe nenhum tipo de conflito, porque vai da capacidade dele, como ele conhece muito o assunto da matéria, consegue se impor na sala numa boa. O ruim é quando o professor não conhece muito e o aluno acaba sabendo até mais do que ele, aí ele fica perdido", explica.

Para o diretor do curso de Comunicação Social da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), Juarez Tadeu de Paula Xavier, quando o professor consegue mostrar sua autoridade sem ser necessariamente autoritário é muito interessante. O aluno questiona muito mais a competência técnico-conceitual do professor, independentemente de idade. Colegas de trabalho

Além de passar pela suposta aprovação dos alunos, esses professores jovens têm que encarar um outro desafio, ganhar o respeito dos colegas de trabalho. Os outros professores da instituição, principalmente os mais velhos e experientes, podem duvidar da competência de um jovem de 20 e poucos anos, o que de uma certa maneira é normal - até porque a visão de mundo é diferente. "Hoje isso acontece menos do que antes, porque o professor jovem chega titulado, mestre, doutor, especialista, então ele tem uma autoridade acadêmica que fica difícil questionar. Isso acaba criando um clima de colaboração mais do que propriamente de disputa", assegura Xavier.

O professor Donadelle percebe que existe uma implicação por parte de alguns professores da sua faculdade, mas, tenta se relacionar da melhor maneira possível e mostrar que tem conhecimento para minimizar essas diferenças. "Mas é a minoria dos professores, porque tenho um relacionamento muito legal com o resto, já que, inclusive, eles foram meus professores", completa. Luzia não teve esse problema, já que a sua relação com as outras professoras da disciplina é ótima. "Fui aluna delas há pouco tempo, ou seja, já nos dávamos bem antes mesmo de trabalharmos juntas. Elas me respeitam e confiam muito em mim", aponta.

Vale começar cedo?

Quando a gente pensa em professor, logo lembra de uma pessoa experiente, mais velha, tanto no mercado de trabalho quanto na vida acadêmica. Podemos até imaginar o estereótipo de mestre: barba, cabelos grisalhos, óculos, terno e gravata, que está muito ligado ao corpo docente dos anos 70, quando as pessoas terminavam a graduação, partiam para o mercado e raramente investiam na vida acadêmica ou o faziam bem mais velhos. Já percebemos que isso mudou, esse caminho da titulação (especialização, mestrado e doutorado) está bem mais acelerado hoje em dia.

E também o perfil dos alunos mudou: jovens de 17 anos já estão na universidade, por isso é que muitas instituições procuram estimular ou, pelo menos, criar uma sintonia maior entre a linguagem do aluno e a linguagem do professor. "Um professor jovem, que é titulado, tem preocupação de entrar no universo de pesquisa, extensão, tende a ter uma relação muito mais dinâmica com o ensino e fica mais propenso a adotar métodos que não são tão heterodoxos no processo do aprendizado", comenta Xavier. Nem a chamada experiência de mercado conta tanto hoje em dia, já que existem professores que tem anos de estrada, mas não conseguem fazer a transposição do conhecimento prático para a sala de aula.

Luzia acredita que vale a pena começar cedo sim, e diz ainda que sente uma vantagem em relação aos professores mais velhos. "Por ter sido aluna há pouco tempo e agora estar conhecendo o outro lado, tenho uma visão atual dos dois lados. Por isso, tento não fazer, como professora, aquilo que não gostava quando aluna. Acredito que entendo melhor como o aluno se sente frente a algumas situações", diz.

O professor Donadelle aponta que seria mais interessante ter um pouco mais de bagagem, não só de conteúdo, mas de experiência, sobre como lidar com os alunos, didática, metodologia de aula. "Foi uma oportunidade que aproveitei de uma porta que se abriu. Tem os prós e os contras como tudo na vida", finaliza.

"De forma geral, vale a pena para a universidade trabalhar com professores mais jovens que se adaptem ao universo da instituição. Em especial em alguns cursos, como os da área de Comunicação, que está em processo mutante muito rápido, do ponto de vista conceitual, tecnológico, político, social e biológico e você tem a necessidade de se manter em sintonia com essas mudanças e às vezes um professor mais jovem está mais adequado a isso. Quando se está bem preparado, é uma vantagem, não que o professor mais idoso não seja, mesmo porque senão eu estaria dando um tiro no pé, já que não sou mais tão jovem, mas há uma tendência de adaptação muito mais rápida", conclui o diretor do curso de Comunicação Social da Unicid.

Fonte: CM Consultoria

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