Revolução animada

Animações em 3D se multiplicam e dominam mercado cinematográfico Por Renato Marques
Se você não esteve fora do planeta nos últimos sete ou oito anos, deve ter percebido que, como nunca, os tradicionais "desenhos animados" mudaram "um pouco". Primeiro, a maior parte deles, agora, é feita digitalmente e utilizando visual 3D. Segundo: eles tomaram um espaço enorme nos cinemas - e, acredite, vieram para ficar. Basta ver que, no primeiro semestre, as salas de São Paulo viram, pelo menos, oito longas-metragens de animação. E outros seis devem estrear até o fim do ano. Alguns destes, inclusive, como o blockbuster "Carros", da Pixar Animation Studios, batendo recordes de bilheterias. Para se ter uma idéia do que as animações alcançaram, basta ver que dos dez filmes mais vistos nos cinemas dos EUA neste ano, três são animações digitais, segundo dados do site Box Office Mojo. Não por acaso, também são dos três maiores estúdios de animação da atualidade - "Carros", da Pixar, em 3º na lista; "Era do Gelo 2", da BlueSky, em 5º; e "Os Sem-floresta", da Dreamworks, em 7º. O movimento positivo nos cinemas tem aberto novos mercados para a animação digital, como a publicidade e EAD (educação a distância). E, como não podia ser diferente, o movimento começa, também, a chegar ao Brasil. "É um momento excelente para a animação. Na verdade, os resultados vão além da animação de cinema, que é a associação que se faz imediatamente. Em nível de animação 3D, já temos muita coisa boa há muito tempo", afirma o coordenador da Pós-graduação em Animação e Modelagem Digital da UVA (Universidade Veiga de Almeida), Paulo Marcos Figueiredo de Andrade. "Quando analisamos as propagandas de cervejarias e indústrias automobilísticas, por exemplo, já vemos trabalhos de alto nível, mas focados no mercado publicitário. Nesse setor, o Brasil está muito bem, com empresas de nível internacional". Pode parecer que não, mas o crescimento do setor de animação está longe da saturação. Ainda que pareça que o número de filmes é maior do que o público-alvo pode consumir, as empresas anunciam novas estratégias, ainda mais ousadas. Quando a Disney anunciou que estava comprando a Pixar Animation Studios - principal estúdio de animação do mundo, responsável por obras como "Os Incríveis", "Procurando Nemo" e o pioneiro "Toy Story" -, tratou de divulgar que a nova empresa passaria a fazer duas animações por ano, dobrando a oferta. O Anima Mundi é um festival anual de animação realizado no Brasil, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Com treze anos de história, já é um dos mais conceituados do setor. Neste ano, por exemplo, animações de 40 países participarão da mostra. Além da mostra competitiva e da exibição de filmes (curtas e longas-metragens), também são realizadas palestras para debater o desenvolvimento do setor. "O que há de mais importante nas novidades deste ano é que a animação brasileira está se estabelecendo no Brasil através de um mercado mesmo profissional. Isso pode ser visto através do crescimento do número de longas de animação brasileiros", relata Aída Queiroz, uma das organizadoras e também fundadora do Anima Mundi. "Os grandes estúdios, como a Dreamworks, a Disney e a Pixar, perceberam que realmente a animação em 3D, principalmente, conseguiu criar um público fiel. Um público que já espera que exista uma periodicidade de trabalhos dessa natureza - e os consome", diz Sammyr Silva Freitas, professor da disciplina Mídias Digitais da Universidade Metodista de São Paulo. "Hoje, é normal que uma animação dê retorno duas vezes superior ao seu custo. Isso fez com que vários grupos trabalhassem nesse front. A grande verdade é que o mercado ainda está explodindo. Está em uma curva ascendente alta, agora", complementa Andrade. Se você duvida desse potencial, há um outro fator que precisa ser acrescentado. Além do cinema e da televisão, mídias tradicionais, existe uma leva de novas tendências que apontam um grande potencial ainda inexplorado. Pense em animações disponíveis na Internet, em materiais de e-learning, em podcasts, celulares... "Existem alguns mercados para a animação que as pessoas ainda 'não se tocaram' muito bem e são coisas que estão para explodir nos próximos anos. Uma é a animação para celular. Assim que os celulares coloridos que passam vídeo chegarem a um preço mais favorável, vai surgir um grande mercado a ser explorado. Creio que estamos perto de uma grande explosão no Brasil desse tipo de mídia", diz Andrade. Animação verde e amarela Ok, temos, então, profissionais de qualidade, equipes de talento reconhecido e um grande mercado potencial. Tudo isso no Brasil. Por que, então, não vemos animações nacionais explodindo nos cinemas por aí? Porque embora a animação venha ganhando espaço no Brasil, a produção de longas-metragens ainda tem um custo muito elevado para os padrões nacionais. Ainda assim, começam a surgir as primeiras produções nacionais, como o longa "Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço". E não adianta torcer o nariz para o título, pois ele é considerado pelo setor como um passo importante para o seu crescimento. "No mercado de animações para o cinema, o Brasil está bastante atrás. Porque, na verdade, o Brasil não produz muitos filmes, mesmo tradicionais. A nossa produção é um centésimo da dos EUA. Na animação, acontece o mesmo. Porém, nós temos visto alguns sinais de que temos chance de crescer", diz Andrade. "O primeiro sinal foi o bom desempenho do filme da Xuxa, que teve parte em 3D e parte em técnicas 2D. O estúdio que trabalhou nesse projeto já está produzindo outros dois títulos. Já estamos vendo retorno". Para o professor Sammyr Silva Freitas, da Metodista, o processo ainda está em uma etapa inicial. "Se considerarmos a produção de longas-metragens de animação no Brasil, veremos que é muito baixa. O país ainda está engatinhando na produção de animação em larga escala. Precisamos de recursos para poder manter hardwares e softwares de ponta e para poder trabalhar com profissionais qualificados. Hoje o Brasil, ainda, não é uma potência da animação", lamenta. Um reflexo direto, no entanto, desses primeiros passos positivos da animação nacional é o festival Anima Mundi, que reúne trabalhos do mundo todo (veja mais detalhes no quadro acima). Tradicionalmente, o evento recebe curtas animados - em seus treze anos de história, foram exibidos apenas dois longas nacionais. "Estamos observando o início do desenvolvimento do mercado de longas-metragens. Na edição deste ano, teremos dois novos longas brasileiros sendo apresentados, o que é uma maravilha. E sabemos que tem outros quatro ou cinco em processo de produção", comemora Aída Queiroz, uma das organizadoras e também fundadora do Anima Mundi. Na opinião de Aída, esses primeiros resultados positivos do setor apontam para uma estabilização da animação brasileira rumo a um novo contexto. "O que faltava mesmo era o incentivo financeiro, porque quando a produção começa, precisa de um aporte financeiro. É muito caro. Não tem como bancar isso do próprio bolso", comenta. "Para conseguir estes recursos, é preciso mostrar que o projeto é viável. Cria-se, então um impasse, porque é algo que leva tempo. Mas, a partir de agora, acredito que vai ficar mais fácil."
Ao usar este artigo, faça referência, cite a FONTE: Texto de autoria de Renato Marques, disponível em http://www.universia.com.br/cultura+/materia.jsp?materia=11671

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