Cego Aderaldo

(Aderaldo Ferreira de Araújo)

Versos cantados ao som da viola

O filho do alfaiate,

Seu brinquedo – é com retalho;

O filho do jogador

Gosta muito é do baralho,

E o filho do preguiçoso

Só dorme bem no borralho.

O filho do homem praiano

Comendo vício é de areia;

O filho da costureira,

Sua roupa é muito feia

Porque é feita de taco

Que sobrou da roupa alheia.

O filho do carreteiro

Brinca com caixão e saca;

O filho do feiticeiro

Só fala em urucubaca,

E o filho do vaqueiro,

Junta ossinho, chama vaca.

O filho do ferreiro,

Seu brinquedo é uma faca;

O filho do pescador

Aprende a fazer tarrafa

E o filho do cachaceiro

Nasce lambendo a garrafa.

O mundo diz uma coisa

Eu acho que ele diz bem,

Porque o vício do pai

Este mesmo o filho tem.

Se o pai é mau pagador

O filho não paga a ninguém.

Se o velho bebe cachaça,

O filho bebe é branquinha;

Para não ficar ardosa

Bota mel, faz meladinha,

Sai com as pernas trançando

Como quem trança bainha.

Quando o velho bebe muito,

O filho inda bebe mais;

Beber cana e tirar gosto

É hoje o que o povo faz.

O bêbado só veste as calças

Com a braguilha pra trás.

A minha casinha

Eu moro em uma cabana,

Numa pequena choupana

Coberta de jitirana,

Cheia de flor sem botão...

É ali onde existe,

Onde mora um cego triste

Com mágoas no coração...

A casinha é de biqueira,

Em baixo, ao pé da soleira,

Tem um pé de trepadeira

Com os galhos ao abandono...

Quero sorrir, porém choro,

A casinha onde eu moro

Parece que não tem dono.

E lá fora no terreiro

Tinha um pé de juazeiro

Que nunca foi altaneiro,

Deram-lhe um golpe, pendeu...

Sem fruta, sem flor existe,

Desfolhado, vive triste...

Todos cantam sua glória,

Amor, riso e vitória,

Eu apenas canto a história

Do que há pouco se passou:

Tudo quanto eu possuía,

Em agosto, um certo dia,

A casinha se queimou...

Esta pequena casinha

Que eu chamava toda minha

Era a morada que tinha,

Pedia a Deus, no meu rogo,

Para ela ser feliz,

Mas como Jesus não quis,

A casinha pegou fogo...

Versos à Natureza

Por exemplo: plantamos uma semente

Numa terra limpa e bem queimada:

Ela nasce linda e zelada

Por ação desta terra úmida e quente.

Vai crescendo e ficando resistente

E tomando um aspecto de beleza.

Muito embora que árvore nasça presa

Entre negros rochedos absolutos,

Ela cria verdor, flores e frutos

Por impulso da mão da natureza.

Por exemplo: vemos um aruá

Com um búzio que é sua moradia,

E um par de antenas que lhe guia

E lhe indica o lugar aonde está.

E o inseto chamado embuá,

Muitas pernas moventes com destreza,

Perdeu uma, faltou-lhe a ligeireza

E começa a andar desaprumado,

Isto tudo nos deixa admirado

Do impulso da mão da natureza.

Por exemplo: nós vemos uma palmeira,

Suas palmas em forma de penacho.

A fenda por onde passa o cacho,

Não se encontra caçando a vida inteira,

Também vemos um pé de bananeira,

Que dá frutos que enfeita a nossa mesa,

Tem sabor, tem perfume, tem beleza

E vitamina que faz nossa saúde.

Tudo isso nos faz crer na virtude

Do impulso da mão da natureza.

A lagarta tem forma de serpente

Quando vai viajando numa estrada,

Mas, depois de metamorfoseada,

Ela toma uma vida diferente:

Cria asas de cor bem transparente,

Verdadeiro vislumbre de beleza.

Nem ciência, nem arte, nem riqueza

Poderia pintar beleza igual.

Isto é lei do Juiz Universal

E é impulso da mão da natureza.

Agradecimento a Juscelino

Agradeço a JK,

Presidente da Nação,

Que antes de ir pra Brasília

Assinou minha pensão,

Afirmo que ele tirou

Um cego da precisão.

Ele, a 21 de abril,

Cumpriu o seu ideal:

Inaugurando Brasília,

Cidade sem ter rival,

E que será, para sempre

A capital Federal.

Só tu, bonita Brasília,

Vieste para empolgar

Este bonito planalto,

O sonho de JK,

Foi Juscelino quem fez

Todo o Brasil acordar!

O Brasil, há muitos anos,

Vivia em pesado sono,

Mas, agora despertou,

Tendo JK por dono,

O poder desta nação

Continua em novo trono.

Já estamos antevendo

Do Brasil o bom destino;

Novos governos virão

Cheios de fé e bom tino:

Outro talvez continue

A obra de Juscelino.

Envio à sua família

(Que para mim é sagrada)

As mil felicitações

De minh’alma consolada,

Para que Deus ilumine

O Palácio da Alvorada!

A Minha Mãe

Hoje é dia das mães... Quanta saudade

Dos beijos e carinhos dos meus pais.

Dos lindos tempos da primeira idade

Que já se foram pra não voltar mais...

Minha mãe! Minha mãe! Nunca se acalma

A dor imensa do meu coração:

Eu tenho um Saara de saudade n’alma

Daqueles tempos que bem longe vão...

Tempos que falam de uma vista linda

Sobre os campos imensos e a floresta.

Onde o sorriso duma infância brinda

Todo o fulgor da passarada em festa!

Este dia das mães, como outros dias

Santos e puros, cheios de afeição,

Abriga o bem de todas as Marias

Cantando rimas para um coração...

Mas minha mãe partiu... Meus dezoito anos

Trouxeram-me a cegueira... Foi-se a palma...

Desde então eu a vejo entre meus planos

Mas somente com os olhos de minha’alma!

Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, nasceu no dia 24 de junho de 1878 na cidade do Crato — CE. Logo após seu nascimento mudou-se para Quixadá, no mesmo estado. Aos cinco anos começou a trabalhar, pois seu pai adoeceu e não conseguia sustentar a família. Tomou conta dos pais sozinho. Quinze dias depois que seu pai morreu (25 de março de 1896), quando tinha 18 anos e trabalhava como maquinista na Estrada de Ferro de Baturité, sua visão se foi depois de uma forte dor nos olhos. Pobre, cego e com poucos a quem recorrer, teve um sonho em verso certa vez, ocasião em que descobriu seu dom para cantar e improvisar. Ganhou uma viola a qual aprendeu a tocar. Mais tarde começou a tocar rabeca. Algum tempo depois, quando tudo parecia estar voltando à estabilidade, sua mãe morre. Sozinho começou a andar pelo sertão cantando e recebendo por isso. Percorreu todo o Ceará, partes do Piauí e Pernambuco. Com o tempo sua fama foi aumentando. Em 1914 se deu a famosa peleja com Zé Pretinho (maior cantador do Piauí). Depois disso voltou para Quixadá mas, com a seca de 1915, resolveu tentar a vida no Pará. Voltou para Quixadá por volta de 1920 e só saiu dali em 1923, quando resolveu conhecer o Padre Cícero. Rumou para Juazeiro onde o próprio Padre Cícero veio receber o trovador que já tinha fama. Algum tempo depois foi a vez de cantar para Lampião, que satisfez seu pedido — feito em versos — de ter um revólver do cangaceiro.

Tentando mudar o estilo de vida de cantador, em 1931, comprou um gramofone e alguns discos que usava para divertir o povo do sertão apresentando aquilo que ainda era novidade mesmo na capital. Conseguiu o que queria, mas o povo ainda o queria escutar. Logo depois, em 1933, teve a idéia de apresentar vídeos. Que também deu certo, mas não o realizava tanto. Resolveu se estabelecer em Fortaleza em 1942, onde veio a abrir uma bodega na Rua da Bomba, No. 2. Infelizmente o seu traquejo de trovador não servia para o comércio e depois de algum tempo fechou a bodega com um prejuízo considerável.

Desde 1945, então com 67 anos, Cego Aderaldo parou de aceitar desafios. Mas também, já tinha rodado o sertão inúmeras vezes, conseguira ser reconhecido em todo lugar, cantara pra muitas pessoas, inclusive muitas importantes, tivera pelejas com os maiores cantadores. E, na medida em que a serenidade, que só o tempo trás ao homem, começou a dificultar as disputas de peleja, ele resolveu passar a cantar apenas para entreter a alma. Cego Aderaldo nunca se casou e diz nunca ter tido vontade, mas costumava ter uma vida de chefe de família pois criou 24 meninos.

Textos extraídos do livro "Eu sou o Cego Aderaldo", prefácio de Rachel de Queiroz, Maltese Editora — São Paulo, 1994.

Textos disponíveis em http://www.vicentefreitas.blogspot.com

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