Insônias, delírios, pesadelos

“Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito”.
(Heidegger)


Meu caro Dimas Carvalho:

Pediu-me você uma apresentação para o seu livro de contos “Insônias, delírios, pesadelos”. E eu lhe digo: Meu caro poeta, você não precisa de apresentação, porque o seu livro fala com mais autoridade que qualquer palavra de apresentação. Que autoridade terei para dar carta de fiança a quem possui os melhores tesouros deste mundo? Você vale pelo que é, e não pelo que se possa dizer de você.

A ideia de lhe escrever esta carta não é original. Em 1935, ao lançar o primeiro livro de versos, seu avô Nicodemos Araujo inseriu, como apresentação, duas cartas: uma de autoria do amigo Dedek Fontenele; outra do seu estimado amigo, da vida inteira, Ribeiro Ramos.

No início do século passado, um poeta alemão, escreveu algumas cartas, sem outra intenção, senão a de mostrar ao jovem poeta Franz Kappus – as sendas do mundo interior. “Cartas a um jovem poeta” é hoje uma das obras mais conhecidas de Rainer Maria Rilke, quer pela intensidade da vivência que o autor transmite ao leitor, quer pela sinceridade e simplicidade com que o mestre se dirige ao jovem desconhecido, que o procurara.

Franz Xaver Kappus, um nome nem sempre lembrado. No entanto, é alguém cujo contributo para a literatura é inestimável. É ele o jovem poeta, receptor das dez cartas do famoso Rainer Maria Rilke. Na altura em que a correspondência começou, início de 1903, Kappus era um jovem de 19 anos que frequentava a Academia Militar, mas que alimentava a aspiração de se tornar poeta. Assim, enviou suas primeiras criações a alguns escritores da época, tendo recebido resposta de Rilke, um autor com cerca de 8 livros publicados. É provável que, ainda que esperançoso, Kappus não acreditasse que uma personalidade como Rilke se dispusesse a responder-lhe. A verdade é que a primeira carta do jovem levou a uma correspondência amigável entre os dois, entre o início de 1903 a 1908. Ainda que aguardando conselhos ou, melhor ainda, críticas ao seu trabalho literário, Kappus ficou surpreso com a opinião de Rilke: "Nada está mais longe de tocar numa obra de arte do que palavras críticas: delas resultam apenas mal-entendidos mais ou menos felizes". Assim, no decorrer da sua correspondência, Rilke, mais que criticar, ou mesmo guiar o jovem nas suas aspirações, vai partilhar com ele pontos de vista, opiniões e, mesmo, os conhecimentos que adquiriu no decorrer das suas primeiras três décadas de vida.

“Esta vida não pode ser medida no tempo, o tempo não se divide em anos, e dez anos não são nada. Ser artista é não calcular e não contar, é amadurecer como a árvore, que não comanda a seiva e que enfrenta tranquila as tempestades da Primavera sem recear que o Verão não chegue. O Verão chegará. Mas apenas para quem esperou pacientemente, para quem aqui permaneceu como se à sua frente se estendesse, sem cuidados, silenciosa e imensa, a eternidade”.

Autor não menos famoso, Mario Vargas Llosa, escreveu “Cartas a um jovem escritor”. Livro de análise sólida e aguçada, onde o autor mostra o ofício de escrever sob diferentes perspectivas, a partir de sua própria visão.

Já nas primeiras páginas, o autor indaga: por que dedicaria seu tempo a algo tão quimérico – a criação de realidades fictícias – aquele que está intimamente satisfeito com a realidade real, com a vida que leva? E adianta: “A ficção é uma mentira que encobre uma verdade profunda, é a vida que não foi, a que os homens de determinada época quiseram levar e não levaram, precisando, por isso, inventá-la”.

Na verdade, as considerações de Llosa não são novas, mas ele começa as cartas com a pergunta mais sensível àqueles que escrevem: por que escrever? Escreve-se por vocação, escreve-se por vaidade? Para que escrever, criar realidades em vez de vivê-las?

Lançadas as perguntas, o autor prefere dar conselhos mais técnicos e objetivos. Ao longo das doze cartas, aborda o estilo, o narrador, o espaço, o tempo, os níveis de realidade, o subtexto, a verossimilhança e outros conceitos teóricos que todo escritor deveria conhecer.

Em “Cartas a um jovem poeta” (livro que não é mencionado em nenhum momento por Vargas Llosa, mas que certamente serviu-lhe de inspiração), Rilke começa dizendo-se impedido de comentar a obra alheia, mas a partir daí, passa a dar muitos conselhos para o jovem Franz Kappus, todos eles relacionados à vida, insistindo que ele deve viver mais, aprender com a natureza, ler menos crítica literária. Não há uma carta sequer dedicada às questões formais, como em Vargas Llosa.

Mais do que opção estética de um e outro, esse fato demonstra como a literatura transformou-se, apagando muito da influência do romantismo e recebendo muita influência da sociedade industrial, da tecnologia, da cultura de massa. Já não se fala, hoje, em inspiração, muito menos em musa inspiradora (nós falamos; você também, Dimas. Além das de carne e osso, essa ribeira é um poema).

Nas suas cartas, Vargas Llosa afirma que não é possível alguém ser escritor, sem um estilo coerente e necessário, lembrando, ainda, que esse estilo não nasce de uma hora para outra, é uma conquista. E precisa ser lapidado.

“Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega”, disse em determinado momento o poeta Rainer Maria Rilke, em uma de suas cartas ao jovem Franz Kappus.

* * *

Muito bem, caro poeta Dimas Carvalho, você não precisa dessas lições. Você, aqui, é o professor. Todas as teorias, destes mestres, encontramos na sua obra. O pós-moderno está no seu livro: ecletismo, niilismo, humor, intertextualidade... Um estilo próprio, uma arquitectura, uma conquista... E tudo conseguido, aqui, na terra do Padre Antônio Thomaz. E sem as cartas de Rilke e Llosa.

Por tudo isso, receba o testemunho da minha admiração e os meus parabéns muito sinceros.


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