A Santa Promessa Anual – Ano Novo, Vida Nova

Irina Sopas
“Ano novo, vida nova” é o que você ouve e diz todos os finais de ano, sem sequer refletir sobre o verdadeiro valor de tal frase. A santa promessa, anual, de que no novo ano tudo será diferente, de que o “velho” dará espaço para o “novo” não é mais novidade. E com a cabeça transbordando de ideias você, eu e muitos outros passamos os últimos dias do ano ansiosos, com o começo do próximo, para cumprir tal promessa.
A maioria esmagadora inicia o novo ano com a auto-análise debitando os fracassos e as decepções do ano que passou, e creditando no ano novo a esperança e os sonhos. Muitos ficam tão envolvidos com o ditado, em questão, que chegam a fazer listas com metas profissionais, amorosas, dietas, etc., que dificilmente saem do “papel”; isso para não dizer, do arquivo de texto do computador. Outros mais empenhados – uma minoria – imprimem, recortam e carregam o cardápio de objetivos, na carteira, como amuleto da sorte, para não esquecerem.
A realidade é que, os meses vão passando e, nos distanciamos, cada vez mais, do que nos propusemos, no final do ano anterior, e concluímos que sim, o ano é novo, mas a vida é a mesma; os horários de sono permanecem trocados; as bebedeiras e ressacas são iguais ou piores que as passadas; a infidelidade e deslealdade ainda se fazem presentes, entre os que mais amamos – assim como a despesa, mensal, da academia que jamais fomos, a dieta que também não conseguimos cumprir. Isso para não falar daquela promoção no trabalho que o chefe prometeu e vive sendo adiada.
O problema é que, quando finalmente nos apercebemos disso, adivinhe só? O ano já terminou e mais uma vez você, eu e muitos outros entendemos que de nada serviu deixar as decepções e os fracassos no passado, porque eles fazem e sempre farão parte da nossa vida e que a vida é feita de altos e baixos. Ainda assim, seguimos em frente e, mais uma vez, com a proximidade do “novo” repetimos a santa promessa anual e nos obrigamos a acreditar pela milionésima vez no ditado: “Ano novo, vida nova”.
Mas porque isso acontece? Porque acreditamos que, no início de cada ano, será possível “formatar” o passado e nos reinventarmos através de metas pré-estabelecidas? Será cultura de renovação da nossa sociedade, essa teoria de mudança ilusória que se repete ano após ano e apenas nos certifica de que as metas nada mais são que fantasias.  Você não acredita que antes de se debruçar sobre metas e promessas, deve se questionar sobre o seu desejo de mudança?
Pois bem, não sou especialista no assunto, mas, por experiência própria, sei que o anseio de mudança deve ser verdadeiro, real. Você precisa querer tornar-se diferente – física ou moralmente – para que tal mutação aconteça, de forma qualitativa e significativa, na medida em que você pode até traçar metas, mas se não tiver coragem de olhar para si mesmo e se permitir mudar; simplesmente repetirá os mesmos erros do passado, não obtendo o que você planejou.
Como você pretende levar algo adiante, se a sua atitude, o seu comportamento; permanecem os mesmos? Você apenas buscou uma inspiração externa para conseguir algo, não fazendo o mais importante que é a mudança interna lenta e gradual.
É por isso que o processo de transformação deve partir de dentro para fora e não de forma contrária, pois você pode até conseguir alcançar um objetivo ou outro, mas digo-lhe: as chances de manutenção serão nulas. Você não se preparou para isso. E, assim, acabará por acumular um fracasso atrás de outro. Não é isso que você quer. Afinal, embora saiba que aquelas decepções e fracassos do passado o tenham trazido até este ponto e tenham, de alguma forma, contribuído para a pessoa que é, devem ficar para trás permitindo uma abertura para o novo, para o futuro.
Você não pode querer ser diferente por ninguém e para ninguém, a não ser para si mesmo. Não deve seguir a tendência de “todos” com a criação de metas ou prática de mandingas, muito menos atribuir tal transformação à passagem do ano; você deve, sim, mudar em cada oportunidade e possibilidade cotidianas, relembrando, sim, os insucessos, mas colocando em prática o que aprendeu com eles e, acima de tudo, parar de repetir “Ano novo, vida nova”, a cada novo ano que se inicia. Acho mesmo que, só assim, esse anexim, essas palavras ao vento, poderão se transformar em realidade e você, eu, nós consigamos uma “vida nova”, o ano inteiro e não apenas uma santa promessa anual.
Não sei se real ou, apenas, imaginário, o ano novo renova as energias, mostra que pudemos novamente iniciar um caminho de sucesso. Agora, sejamos pragmáticos: Como querer que tudo seja bom, se não trilhamos este caminho no nosso dia a dia? Não lembro se Sócrates ou Maomé, mas já haviam dito: “As escolhas que você fez no passado, te trouxeram onde você está hoje. Mas as que você fizer, agora, te levarão a um futuro que você nunca imaginou”.
Afinal, como já lembrou o poeta Carlos Drummond de Andrade, na sua Receita de Ano Novo:
“Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
 
não precisa
 
fazer lista de boas intenções
 
para arquivá-las na gaveta.
Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome,
 
você, meu caro, tem de merecê-lo,
 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
 
mas tente, experimente, consciente.
 
É dentro de você que o Ano Novo
 
cochila e espera desde sempre”.

Irina Sopas
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IRINA SOPAS é o nome artístico de Irina Andrea Jacinto Sopas, nascida em 18.09.1984, em Luanda. Transferiu-se para o Brasil em 1999. Atualmente, reside no Rio de Janeiro. Cursou  faculdade de Direito, pela UCAM (Cândido Mendes), e, atualmente, cursa literatura, pela mesma Universidade. Escreve poesia, crônica, artigo e ensaio. Participou da Antologia de Poetas Brasileiros – Volume 56 – Junho de 2009, organizada pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Tem trabalhos publicados na Internet, como no site “Amo Leblon”, editado por Luiz Aviz, do qual é colunista (www.amoleblon.com.br); "Club-k-Angola", editado no Brasil, por Nelo de Carvalho (http://club-k-angola.com/); "Blocos", de Urhacy Faustino e Leila Míccolis  (www.blocosonline.com.br); bric-à-brac, de Vicente Freitas (http://vicentefreitas.blogspot.com). Edita, ainda, o site http://www.irinasopas.com/. Sua "I Coletânea de Poemas” (nome provisório), que marcará sua estreia em livro, já recebeu avaliações positivas de escritores veteranos, como: Mano Melo e Ricardo Alfaya. Atualmente tem o seu primeiro romance em fase de produção, que se passa no Brasil (Rio de Janeiro) e relata a história de "Bia", uma advogada de 27 anos, que mora sozinha, é drunkholic e acredita ser uma vítima da Lei de Murphy. Leia, comente, participe! 

Comentários

  1. Começo de ano é sempre a mesma coisa, uma certa nostalgia – a vida que poderia ter sido e que não foi, – esperanças muitas. Além das boas intenções de sempre: Pedir desculpas, agradecer, estender a mão, abraçar e, sobretudo, dizer “eu te amo”, a quem se ama, claro, e até a quem não se ama também, por favor! A passagem do ano é sempre carregada de muitas inquietações. Não sei, ainda, porque esta data, especialmente esta, é cheia de superstições: Roupa branca – para ter paz –; uma moeda, no bolso – para ter fartura –; pular 7 ondas – para vencer obstáculos… Mas, é na mesa que estas superstições ficam mais presentes: pratos que simbolizam saúde e bem-aventurança. Recomenda-se, também, ficar só com o pé direito apoiado no chão, comer sete uvas, uma de cada vez; ou sete grãos de romã… Isso não é mandinga, querida; faz parte do nosso folclore. Sete; como os anos de abundância, segundo a lenda egípcia. E sem esquecer: não deve faltar Champagne. Agora, o mais importante, para quem está só… Arranjar uma namoradinha. Quem sabe, Irina Sopas?! rs… Brincadeira, querida, seu artigo… tá lindo!… beijo!

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