A Classe Média (ou: “A Culpa é do Cony”)

Andrea Trompczynski
Basicamente, existem três classes distintas de pessoas: os Pobres, os Ricos e a Classe Média. Para fins de estudo, desprezo os graus de variação existentes entre cada uma delas. Não, não são apenas classes econômicas. São classes de pessoas. Castas, como as indianas. E também não, a Classe Média não está extinta como foi anunciado no noticiário. Ela e seu Espírito Mediano reinarão para todo o sempre.

A Classe de Pessoas "Pobre" é de agradável convívio, no mínimo, divertida. São movidos pelas necessidades básicas e, a elas satisfazendo, alegram-se facilmente. A Classe de Pessoas "Rica" já não vive de necessidades, conhece-se mais e é a ponta da evolução: pode viver plenamente sua capacidade cerebral, já que os neurônios não precisam mais se concentrar na busca do alimento, moradia, vestes ou em se poderá pagar aquela viagem para a Itália em doze vezes no cartão. É onde todos devemos chegar um dia, após muitas vidas de sofrimento, para finalmente usufruir das delícias do espírito. Enquanto este dia feliz não chega, detenho-me no estudo da mais cômica e trágica etapa de nossa evolução: a Classe Média.

A Cultura da Classe Média
Toda a Cultura da Classe Média pode ser encontrada em alguns papéis-jornal: a Folha de São Paulo. Ela lê os autores que a Folha indica. Prestigia os espetáculos que a Folha diz que se deve prestigiar. Escolhe seus governantes, seus ídolos, seus livros, sua roupa, guiada pela Folha. Emociona-se com o Carlos Heitor Cony, que, da classe citada já não faz parte, mas entende os seus melindres e funcionamentos. Com isto, magistralmente, trabalha. Cony, em uma fórmula amada por eles, escreve conselhos que o finado pai lhe deu, intercala-os com fatos corriqueiros da vida, uma citação de um grande escritor e, "ditados" populares. Há variações na ordem dos fatores, no primeiro parágrafo o fato corriqueiro, no segundo a frase sábia do pai, etc. Esses detalhes são artifícios que fazem a Classe Média marejar os olhos lembrando de tempos passados mais difíceis. 

O modo-de-vida da Classe Média
Trabalham, diria Cony, como mouros. Nunca falam sobre dinheiro, não é de "bom-tom". Adquirem bens às custas de algo que chamam prestações, mas, parece-me que nem mesmo sob tortura confessariam tal vergonha: é preciso manter a imagem. Viajam nas férias, sempre. Trabalham para viajar nas férias. Não viajar nas férias é uma espécie de humilhação social impossível de ser aceita. Quase comparável a não possuir carro ou não ter lido o último livro do Diogo Mainardi. 

A Vida Social da Classe Média
Como citado antes, a imagem é algo essencial para a Classe Média e, os esforços despendidos para adquirir uma boa imagem surpreendem o mais apático estudioso da evolução humana: não admitirão sequer uma espécie de desânimo ou momento de auto-estima baixa. Indubitavelmente vencedores, seu momento de lágrimas será somente às escondidas ou durante a leitura da crônica saudosista do Cony, e em mais nenhuma ocasião. Secretamente ávidos por aceitação social e por um grande círculo de amizades, dirão que não se importam com o que os outros dizem ou pensam deles. Desesperados por um par afetivo, dizem-se muito felizes sozinhos.

A Ocupação Profissional da Classe Média
Esta, a mais difícil faceta da casta em estudo. Apesar de todos terem ocupações diversas, há modismos sobre o que eles afirmam realmente fazer. Alguns anos atrás, muitos eram executivos. Depois, publicitários e, houve aquele tempo em que todos eram webdesigners. Hoje, espero que até a publicação deste ainda seja, dizem-se escritores. Há milhares deles, é incrível. Creio que já não falam, e nem da fala mais necessitam. Escrevem. Todos. Desde a mocinha até o senhor casado, desde o menino até a senhora idosa e solteira. Se influência de sua fonte de conhecimento máxima, repleta de letras, a Folha, ou de Carlos Heitor Cony, não sei. Sei que eles escrevem.

Do Posto de Observação 
Ninguém vencerá o poder da Classe Média. Dela, faço parte, e resigno-me à provação. Dela, não espero muitas mudanças. Talvez uma, em breve: algum outro modismo que possa substituir o de se dizer escritor. Quem sabe, cartunista. Ou físico. Espero pacientemente a morte e a reencarnação, único meio de mudar de casta, e, que meus méritos por suportar sem matar-me as tristezas de ter nascido nesta classe de pessoas, possam permitir que Deus de mim se apiede e me faça nascer em outra na próxima existência. Na Rica, eu suplico. Mas, se não der, que seja a Pobre, que lá é permitido dizer a verdade: que não fui em tal lugar porque não tinha dinheiro, e não porque estava com "uma dor de cabeça lancinante". Lá não é preciso ler a Folha. Lá, pode-se gritar aos quatro ventos que se ama o Lúcio Jurandir e quem sem ele não se pode viver. E ninguém escreve, que isso é coisa de viado.


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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros. 

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