Poeta Mário Gomes, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, por Vicente Freitas (VINCENT)

Se pudéssemos determinar os aspectos da arte pela imagem reflexiva de seu autor, Mário Gomes seria bem o caso, pois há uma profunda analogia: tombado para frente, a camisa de cor berrante, domingueira, o cigarro ardendo na boca, protegida por um bigodão selvagem cor de cobre, com aquele ar de louco heroico estampado nas faces, os passos desmedidos, os gestos insólitos, apesar da paz que afeiçoa o semblante. É assim este poeta, e é assim sua poesia: aparentemente agressiva, incoerente, mas delicada e pura em sua humanidade: “...Respeitai as formiguinhas/porque a mulher sofre quando ri e quando chora”. Ou ainda entre tantos versos desconexos e harmoniosos como estes: “A minha mão direita/é meu divertimento/é meu cinema./Não posso destruí-la/senão ficarei sem vida”.

Bem, apesar de tudo, achamos que não dissemos nada ainda do que pretendíamos sobre “Lamentos do ego”. Mário Gomes, segundo ele próprio confessa, foi professor de Filosofia do Primário, Escola Albanisa Sarasate, autodidata, boêmio, etc. Tudo isso está certo e diz de perto da independência de espírito, da personalidade e das filosofia de vida deste autor.

É tão difícil apresentar ao público um poeta que foge ao comum das pessoas. E embora as leis do universo sejam uma só para todo o seu sistema, abrem caminhos inusitados e desconhecidos em seu percurso à nossa percepção. Assim alguns poetas também se apresentam ao mundo sob a centelha do gênio, misteriosos e indevassáveis.

Que outra coisa eu poderia dizer, a não ser em linguagem epistolar, que servisse de interpretação ao livro “Lamentos do Ego”, de Mário Gomes, um poeta dos mais estranhos entre os nossos, ou no cenário da poesia brasileira de hoje.

Ele não é um poeta na acepção do termo, mas um ângulo da poemática ou um estado desta, sem aquilo que chamamos de evolução literária e/ou conhecimento dos mistérios da criatividade poética. Nem sequer é um artesão consciente, porque é mais do que isso: é a própria arte em si marcada pela intuição: poderosa, primitiva, natural em sua pureza originária. E por essa razão se afasta ele de escolas e movimentos literários (evolução-revolução-forma-conteúdo). É um acontecimento no mundo das letras, para o qual não encontramos definição precisa nos esquemas da linguagem poética.
Certamente não é um fenômeno literário como Rimbaud, Lautréamont, Artaud e poucos outros. Não se pode de modo algum estabelecer vínculo de identidade com esses demônios iluminados, em termos de grandeza e amplitude de suas obras, mas no que diz respeito ao estranho e inusitado sentido de “conspiração poética” diante do absurdo existencial.
Nesse rumo, tanto “Os Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, como os poemas da coorte de malditos de que falamoas acima, desafiam as leis vigentes da arte e desmantelam a estrutura literária de todos os tempos.
O poema como expressão, essencialidade, integração no sentido plural da arte não existe para nosso poeta, que desconhece suas fontes nascentes e modernas, enfim, sua trajetória histórica, mas nem por isso sua poesia é esvaziada de elementos. Pelo contrário, todos se encontram integrados nele, como, por exemplo, na Nona Sinfonia de Beethoven, onde tantas notas aparentemente desconcertantes se misturam e se completam, dando a visão de um mundo caótico e ordenado ao mesmo tempo.

Pode-se dizer que Mário Gomes escreve em “estado de graça”, como uma criança rindo de suas próprias travessuras. E esse estado de pureza, próprio dos loucos e inocentes, é que vai dar a soberania e a grandeza de sua arte. Seus versos são por natureza antipoéticos, mas é ele quem nos diz no poema Determinação: “Ninguém me despoetizará”.

A consciência de que é poeta não o abandona. E ele afirma, não só nos versos que acabamos de citar, como também no “aviso ao leitor”: “Lamentos do Ego” é o espelho refletindo meu espírito. Aqui você encontra poesias alegres, chocantes e até mesmo absurdas. Mas são poesias de verdade.

É uma afirmação categórica e foge aos padrões éticos de comportamento pessoal. Mas ele não é outra coisa, pois quem daria um título destes, “Meu Epitáfio Póstumo”, abrindo seu livro, como ele fez, a não ser em estado de plena insensatez? E o poema, subordinado a esta inscrição é de uma beleza e ironia raras, que marcam todo o espírito de seu encontro com a poesia, a vida, o mundo, as coisas: “Já que a Natureza/me trouxe chorando/deixai, ô-morte/que eu Morra rindo de ti”.

Não sabemos por que o poeta preferiu escrever a palavra “Morra” com a letra inicial maiúscula, mas não nos preocupemos com esse detalhe, porque a razão e a verdade vão aparecer juntas e lógicas em sua lógica absurda. No entanto, não esqueça o leitor, que a “inconsciência” do autor, de que falamos acima, não seja talvez o estado mais consciente e lúcido da razão que se manifesta no ato de sua criatividade. E como o pensamento do louco nos dá a dimensão das mais belas lições de sapiência, da mesma formas a poesia de Mário Gomes surpreende em suas metáforas desordenadas. As contradições são flagrantes. É como se disséssemos: “Chove copiosamente no Ceará durante a seca”. Como criação poética estaria certo, e até em seus devidos lugares, mas isso posto num relatório do Secretário da Agricultura seria uma catástrofe pior que a seca.

Por isso o leitor e o crítico de poesia não podem se ater à lógica e à linguagem poética nesse autor. Sua “linguagem” cria uma nova estética diferente da encontrada no poema moderno ou na prosa poética. Em muitos de seus poemas, quase sempre curtos, poderíamos dizer que sua arte está próxima do discurso poético de Lautréamont, a teorização dos “Cantos de Maldoror”, pela emissão direta, confessional – o ímpeto grandiloqüente de sua poderosa força de transmissão das palavras. Claro, que ao lembrarmos Lautréamont, evitamos um confronto com este, e mais que isso, um compromisso. Por certo ele nunca leu o filho de Montevideo. Ainda falamos aqui no “aspecto poético” de sua poemática, isolada dos elementos de evolução cultural, mas jamais excluída de seus eventos.


PINTO, José Alcides. Mário Gomes, poeta descomunal. In Política da Arte – II. Ensaios de crítica literária. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 1986.

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