ODE DAS
RUAS IMÓVEIS
Ó ruas
cheias de gente parada!
Ó
multidões imóveis sob o sol vertical dos trópicos,
Ó
exércitos de rostos iguais atravessando as avenidas
Como
sombras que esqueceram o nome do movimento!
Eu vos
vejo!
Eu vos
vejo das janelas dos ônibus,
Dos
escritórios,
Dos
aeroportos,
Das
fábricas que ainda fumegam,
Dos
galpões onde máquinas esperam mãos que não chegam!
Vejo-vos
escorrendo pelas calçadas
Como um
rio sem nascente e sem foz,
Como uma
corrente humana que anda sem partir
E
regressa sem chegar!
Milhares!
Milhares!
Milhares!
E nenhum
incêndio criador ardendo nos olhos!
Nenhuma
febre de invenção!
Nenhuma
vertigem de construir o que ainda não existe!
Somente a
doce resignação dos dias repetidos,
O
conforto morno da dependência,
A felicidade
modesta de nada arriscar!
Ó
cidadãos do repouso!
Ó
sacerdotes da segurança!
Ó
adoradores da estabilidade!
Como vos
compreendo e como me assusto!
Porque é
natural temer o abismo!
Porque é
humano desejar abrigo!
Porque
toda alma cansa diante da tempestade!
Mas quem
erguerá as pontes?
Quem
abrirá os caminhos?
Quem
enfrentará a noite das incertezas
Para que
amanhã exista uma cidade diferente?
Escuto o
rumor invisível das repartições!
Escuto o
zumbido das regulamentações!
Escuto os
carimbos!
Os protocolos!
Os
pareceres!
Os
formulários!
As
autorizações!
As filas!
As
senhas!
As
esperas!
Toda uma
mecânica colossal produzindo adiamentos!
Toda uma
engenharia de corredores
Onde a
iniciativa se perde como um viajante sem mapa!
E,
contudo,
Em algum
lugar,
Num quarto
apertado,
Numa
oficina,
Numa
garagem,
Num
laboratório,
Um homem
ou uma mulher desconhecidos
Tentam
criar qualquer coisa!
Uma
máquina!
Uma
empresa!
Uma
descoberta!
Uma
ideia!
Uma
esperança!
São
poucos!
Sempre
foram poucos!
Os
construtores das catedrais,
Os
navegadores dos oceanos,
Os
inventores das engrenagens,
Os
mercadores das caravanas,
Os
agricultores que arrancaram alimento ao deserto,
Os
engenheiros que fizeram correr a eletricidade
Pelas
veias metálicas do mundo!
Poucos!
Terrivelmente
poucos!
E sobre
seus ombros repousa a arquitetura invisível da civilização!
Ó
multidões!
Não vos
condeno!
Vejo em
vós o medo antigo da escassez!
O medo do
fracasso!
O medo da
perda!
O medo de
caminhar sem garantias!
Mas uma
nação não vive apenas de proteção!
Uma nação
não cresce apenas de reivindicações!
Uma nação
não floresce apenas esperando!
É preciso
alguém que arrisque!
Que erre!
Que caia!
Que
recomece!
Que
aposte a própria tranquilidade
Na
construção de algo que ainda não existe!
Vejo os
hospitais futuros!
Vejo as
fábricas futuras!
Vejo os
portos futuros!
Vejo as
escolas futuras!
Todos
ainda invisíveis,
Todos
ainda sonhados,
Todos
ainda dependentes de alguém
Que
decida construí-los!
E
pergunto às avenidas,
Às
praças,
Aos
prédios,
Às
multidões que passam sem olhar para o horizonte:
Quem
serão os próximos?
Quem
aceitará a responsabilidade?
Quem
trocará a comodidade pela criação?
Quem
ousará?
Porque
toda grande transformação começou assim:
Não com
uma espera,
Mas com
um gesto.
Não com
uma exigência,
Mas com
uma obra.
Não com
uma fila,
Mas com
um primeiro passo.
E o
futuro inteiro,
Com suas
máquinas ainda não inventadas,
Suas
cidades ainda não erguidas,
Seus
milagres ainda impossíveis,
Continua
esperando
Por
aqueles poucos
Que ousam
construir enquanto os demais observam passar a vida.
𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

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