terça-feira, junho 13, 2023

ODE DAS RUAS IMÓVEIS

 


 

ODE DAS RUAS IMÓVEIS

 

Ó ruas cheias de gente parada!

Ó multidões imóveis sob o sol vertical dos trópicos,

Ó exércitos de rostos iguais atravessando as avenidas

Como sombras que esqueceram o nome do movimento!

Eu vos vejo!

Eu vos vejo das janelas dos ônibus,

Dos escritórios,

Dos aeroportos,

Das fábricas que ainda fumegam,

Dos galpões onde máquinas esperam mãos que não chegam!

Vejo-vos escorrendo pelas calçadas

Como um rio sem nascente e sem foz,

Como uma corrente humana que anda sem partir

E regressa sem chegar!

Milhares!

Milhares!

Milhares!

E nenhum incêndio criador ardendo nos olhos!

Nenhuma febre de invenção!

Nenhuma vertigem de construir o que ainda não existe!

Somente a doce resignação dos dias repetidos,

O conforto morno da dependência,

A felicidade modesta de nada arriscar!

Ó cidadãos do repouso!

Ó sacerdotes da segurança!

Ó adoradores da estabilidade!

Como vos compreendo e como me assusto!

Porque é natural temer o abismo!

Porque é humano desejar abrigo!

Porque toda alma cansa diante da tempestade!

Mas quem erguerá as pontes?

Quem abrirá os caminhos?

Quem enfrentará a noite das incertezas

Para que amanhã exista uma cidade diferente?

Escuto o rumor invisível das repartições!

Escuto o zumbido das regulamentações!

Escuto os carimbos!

Os protocolos!

Os pareceres!

Os formulários!

As autorizações!

As filas!

As senhas!

As esperas!

Toda uma mecânica colossal produzindo adiamentos!

Toda uma engenharia de corredores

Onde a iniciativa se perde como um viajante sem mapa!

E, contudo,

Em algum lugar,

Num quarto apertado,

Numa oficina,

Numa garagem,

Num laboratório,

Um homem ou uma mulher desconhecidos

Tentam criar qualquer coisa!

Uma máquina!

Uma empresa!

Uma descoberta!

Uma ideia!

Uma esperança!

São poucos!

Sempre foram poucos!

Os construtores das catedrais,

Os navegadores dos oceanos,

Os inventores das engrenagens,

Os mercadores das caravanas,

Os agricultores que arrancaram alimento ao deserto,

Os engenheiros que fizeram correr a eletricidade

Pelas veias metálicas do mundo!

Poucos!

Terrivelmente poucos!

E sobre seus ombros repousa a arquitetura invisível da civilização!

Ó multidões!

Não vos condeno!

Vejo em vós o medo antigo da escassez!

O medo do fracasso!

O medo da perda!

O medo de caminhar sem garantias!

Mas uma nação não vive apenas de proteção!

Uma nação não cresce apenas de reivindicações!

Uma nação não floresce apenas esperando!

É preciso alguém que arrisque!

Que erre!

Que caia!

Que recomece!

Que aposte a própria tranquilidade

Na construção de algo que ainda não existe!

Vejo os hospitais futuros!

Vejo as fábricas futuras!

Vejo os portos futuros!

Vejo as escolas futuras!

Todos ainda invisíveis,

Todos ainda sonhados,

Todos ainda dependentes de alguém

Que decida construí-los!

E pergunto às avenidas,

Às praças,

Aos prédios,

Às multidões que passam sem olhar para o horizonte:

Quem serão os próximos?

Quem aceitará a responsabilidade?

Quem trocará a comodidade pela criação?

Quem ousará?

Porque toda grande transformação começou assim:

Não com uma espera,

Mas com um gesto.

Não com uma exigência,

Mas com uma obra.

Não com uma fila,

Mas com um primeiro passo.

E o futuro inteiro,

Com suas máquinas ainda não inventadas,

Suas cidades ainda não erguidas,

Seus milagres ainda impossíveis,

Continua esperando

Por aqueles poucos

Que ousam construir enquanto os demais observam passar a vida.

 

𝖵𝗂𝖼𝖾𝗇𝗍𝖾 𝖥𝗋𝖾𝗂𝗍𝖺𝗌 𝖫𝗂𝗈𝗍

 

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