| João Damasceno Vasconcelos |
Há homens que passam pela vida como quem atravessa uma sala silenciosa: deixam atrás de si quase nada que faça ruído, mas alguma coisa permanece no ar, uma espécie de claridade que não se sabe de onde vem. Assim foi João Damasceno Vasconcelos. Nasceu em Bela Cruz, em 13 de agosto de 1924, filho de José Florêncio de Vasconcelos e de Dona Idalina Maria da Silveira, e viveu entre papéis, palavras, cargos modestos e sonhos que encontraram, na poesia, uma forma de não morrer.
Talvez a sua própria humildade tenha contribuído para o esquecimento. Há destinos literários que não se perdem por falta de valor, mas por excesso de silêncio. O poeta não fez da própria obra uma bandeira, nem de sua existência uma vitrine. Trabalhou, serviu, escreveu. Foi Chefe da Estação Postal Telefônica, dirigiu o Correio de Bela Cruz, representou o distrito na Câmara Municipal de Acaraú e exerceu a função de Secretário da Prefeitura. Mais tarde, em Fortaleza, trabalhou na Receita Federal. A vida pública lhe deu ocupações; a vida interior, porém, deu-lhe poemas.
Entre uma repartição e outra, entre a correspondência que chegava e a que partia, entre os deveres do cotidiano e as pequenas cerimônias da existência, João Damasceno cultivava o jardim secreto dos versos. É curioso pensar que um homem ligado às mensagens tenha dedicado tantos anos a uma linguagem cuja verdadeira destinatária talvez fosse a eternidade.
Sua bibliografia parece uma sucessão de portas abertas para esse mundo interior: A Congregação Mariana no Mundo Moderno, de 1948; Retalhos de Sonhos, de 1956; A Sonhar e a Cantar, de 1968; Mário Domingues Louzada, de 1971; Cinza e Fagulhas, de 1972; Meu Itinerário, de 1982; e Fragmentos e Poeira, de 1985.
Os próprios títulos parecem formar, quando colocados lado a lado, uma pequena autobiografia espiritual. Primeiro, a fé; depois, os sonhos; em seguida, o canto; mais tarde, a memória de um homem; depois, a cinza, a fagulha, o itinerário; por fim, os fragmentos e a poeira. Como se o poeta soubesse que toda existência é feita de matéria que o tempo desmancha, mas que a poesia tenta recolher.
João Damasceno pertence à Ribeira do Acaraú e, mais particularmente, a Bela Cruz — essa terra onde o sertão parece ter aprendido a conversar com o horizonte. Sua poesia leva consigo essa paisagem sem precisar descrevê-la continuamente. Há terras que aparecem nos versos pelas palavras; outras, mais profundas, aparecem pelo modo de sentir.
E é nesse ponto que sua poesia se torna maior que a geografia. O homem de Bela Cruz não escreve apenas sobre Bela Cruz. A terra natal é o princípio, não o limite. O poeta parte do chão conhecido para alcançar aquela região sem mapas onde moram a saudade, a morte, Deus, o tempo, a solidão e o mistério de existir.
Há em João Damasceno um curioso encontro entre o local e o universal. O sertanejo olha para dentro de si e encontra o mundo. O homem religioso contempla a própria alma e descobre a inquietação de todos os homens. O poeta de uma pequena cidade do Ceará dialoga, por meio do soneto, com uma tradição secular da língua portuguesa.
O soneto, com seus quatorze versos, parece uma pequena casa de arquitetura rigorosa. Nada pode ficar fora do lugar. Há portas, janelas, paredes, corredores. A emoção precisa aceitar a disciplina da forma. A palavra não pode simplesmente derramar-se: precisa aprender a caber. João Damasceno conhecia essa arte.
Seu verso revela domínio da língua portuguesa, correção métrica, equilíbrio sintático e precisão das rimas. Não há, nisso, simples exercício escolar. A forma, nele, não é uma prisão para a emoção; é justamente o recipiente em que a emoção alcança maior intensidade.
Por isso, sua aproximação com a tradição parnasiana é evidente. Há nele a lição de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira e de tantos outros poetas que fizeram da construção verbal uma forma de artesanato superior. Mas não se deve confundir o rigor da forma com ausência de alma. João Damasceno é um parnasiano que sofre. E talvez seja justamente aí que resida uma de suas singularidades.
Seus versos carregam uma melancolia que não se deixa reduzir à mera ornamentação. Há neles o sentimento de uma existência que passa, uma sombra de morte, uma interrogação religiosa, uma saudade que parece anterior à própria lembrança. Sua poesia não se limita a cantar a beleza: pergunta pelo destino da beleza depois que o tempo a tocar. O poeta conhece a cinza. Mas também conhece a fagulha. E entre uma e outra se constrói sua poesia.
Pode-se lembrar, por contraste, a tensão de Augusto dos Anjos ou a atmosfera de Cruz e Sousa, mas João Damasceno não é discípulo de nenhum deles. A comparação serve apenas para iluminar uma região comum: a poesia como lugar de angústia, onde o homem contempla sua própria fragilidade. Em Damasceno, entretanto, essa angústia encontra um amparo diferente: a fé. Ele é, ao lado de Nicodemos Araújo, um desses poetas religiosos do Vale do Acaraú que parecem escrever com uma vela acesa dentro da alma.
E aqui aparece também a figura do Padre Antônio Thomaz, poeta da mesma região, cuja presença paira como uma espécie de constelação sobre a literatura do Acaraú. Há entre esses homens uma fraternidade espiritual que ultrapassa as diferenças de estilo. São poetas que não abandonam o mundo para encontrar Deus; procuram Deus justamente no meio das inquietações do mundo.
João Damasceno, como Nicodemos Araújo, possui essa condição de cristão primitivo, sem a sotaina, mas com o espanto. Sua religiosidade não é apenas assunto de poesia: é uma maneira de olhar. Talvez por isso seus sonetos tenham tanta recorrência de silêncio, saudade e interioridade. O poeta parece sempre escutar alguma coisa que os outros não escutam. Uma voz distante? O rumor do tempo? A passagem de Deus pela vida? Não sabemos. A poesia verdadeira costuma guardar esse direito ao mistério.
E talvez seja essa uma das razões pelas quais seus versos continuam merecendo leitura. Porque João Damasceno não escreveu apenas para o seu tempo. Escreveu contra o tempo. Há uma injustiça frequente na história literária: os grandes centros acabam determinando quais vozes devem ser ouvidas, enquanto muitas vozes provincianas permanecem à margem, como livros fechados em bibliotecas esquecidas. Mas a literatura não conhece verdadeiramente centro nem periferia. Uma obra pode nascer numa pequena cidade e conter um universo.
Bela Cruz não diminui João Damasceno. Ao contrário: dá-lhe uma origem. O que importa, finalmente, é a distância que o poema consegue percorrer depois de nascer. E os sonetos de João Damasceno possuem essa capacidade de viagem. Saem da Ribeira do Acaraú e podem alcançar qualquer leitor que conheça a experiência da perda, da fé, da espera ou da saudade.
Meu Itinerário, publicado em 1982, parece quase uma chave para compreender sua trajetória. O título sugere movimento, mas a poesia de João Damasceno é, paradoxalmente, uma poesia da permanência. O mundo muda; o homem envelhece; as cidades se transformam; os nomes desaparecem das placas; os jornais silenciam; as estações postais deixam de ouvir determinadas vozes. E, contudo, o soneto permanece. Quatorze versos contra o esquecimento. Quatorze pequenas colunas sustentando uma casa que o tempo não conseguiu derrubar.
Em Fragmentos e Poeira, de 1985, essa consciência parece atingir uma dimensão ainda mais simbólica. Fragmentos: aquilo que restou. Poeira: aquilo em que tudo se transforma. Entre os dois extremos, a poesia. O livro poderia ser lido como uma meditação sobre a própria condição humana. Somos fragmentos antes de sermos memória; somos poeira depois de sermos presença. O poeta sabe disso. Mas sabe também que uma palavra pode sobreviver ao corpo que a pronunciou.
E talvez seja essa a verdadeira esperança de João Damasceno Vasconcelos. Não a esperança de permanecer como monumento, mas como voz. Porque o poeta não precisa de estátua. Precisa de leitores. É preciso que alguém abra novamente seus livros. Que alguém percorra seus versos com a lentidão com que se percorre uma antiga rua de cidade interiorana. Que alguém reconheça, por trás da métrica impecável e da rima disciplinada, o homem que ali respirou.
A crítica literária, quando é justa, não deve apenas classificar. Deve devolver a uma obra a possibilidade de ser ouvida. E ouvir João Damasceno é perceber que, em suas mãos, o soneto não é uma forma morta. É uma forma de resistência. O poeta aceita as regras para conquistar, dentro delas, a liberdade da emoção.
Seu verso é disciplinado. Sua métrica é exata, mas sua inquietação não cabe em medida alguma. Seu poema termina no décimo quarto verso, mas aquilo que nele se pergunta continua depois do ponto final.
João Damasceno morreu em Fortaleza, em 9 de junho de 1990. Ficaram Maria Ledioneta Vasconcelos, sua viúva, os três filhos, os livros, os papéis, os nomes, as lembranças. Ficou também a cidade de onde partira. E ficou, sobretudo, essa pequena e persistente música de versos que o tempo ainda não conseguiu calar.
Talvez seja essa a tarefa mais delicada da memória: recolher aquilo que quase desapareceu. Uma vida pode ser silenciosa e, ainda assim, conter uma biblioteca. Um homem pode morrer longe da terra natal e continuar pertencendo a ela. Um livro pode envelhecer numa estante e conservar intacta a juventude de sua voz.
Assim é João Damasceno Vasconcelos. Um poeta de Bela Cruz, filho da Ribeira do Acaraú, homem de fé e de forma, artesão do soneto, senhor de uma língua límpida e de uma tristeza luminosa. Quando tudo parece destinado à poeira, a poesia recolhe um fragmento. Quando a memória se desfaz, o verso acende uma fagulha.
E talvez seja isso que ainda vemos, ao abrir um de seus livros: não exatamente a sombra de um poeta morto, mas a luz pequena e obstinada de alguém que, um dia, escreveu contra o esquecimento. E o esquecimento, às vezes, demora. Porque há palavras que sabem esperar.
Vɪᴄᴇɴᴛᴇ Fʀᴇɪᴛᴀꜱ Lɪᴏᴛ
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