Ao cair da tarde

Recebi ontem o precioso livro “Ao cair da tarde” [Editora ABC, Fortaleza] de Lustosa da Costa, e de uma sentada, ou melhor, deitada [mania que tenho de ler num velho tucum de embira de carnaúba] consumi as 96 crônicas enfeixadas nesse mimoso volume de 150 páginas.“Ao cair da tarde”, pelo título, já é um poema, um verso de cinco sílabas, quer nas crônicas do cotidiano, quer no perfil de amigos ou inimigos, quer nas suas observações de viagem – o livro se banha com a unção de um lirismo encantador.Suas crônicas parecem esconder uma complexidade pressentida sob límpida naturalidade, numa prosa divagadora de quem conversa distraído, passando o tempo, sem se preocupar com o jeito de falar. E, no entanto, uma prosa cheia de achados de linguagem – uma sintaxe livre e flexível – propiciando poesia num ritmo leve e doce que nem caldo de cana espremida.Uma experiência que se transmite por estórias, que parece vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tal qual os contadores de causos espalhados por estes rincões de Maria Bonita e Lampião.Lustosa da Costa, cronista hoje consagrado, começou no jornalismo, ainda nos anos 50, no Correio da Semana, da sua querida e sempre lembrada fidelíssima cidade Januária do Acaraú. Época da popularização dos veículos de comunicação de massa, quando o jornalismo conquistava enormes contigentes de leitores – promovia o consumo, suicídio de presidente, destituía ministros e cassava deputados, como hoje. Era, enfim, o chamado “quarto poder”. Ou é. Como afirmou Mário de Andrade, que conto é aquilo que o autor do conto afirma ser conto, tal definição se aplica ainda com mais propriedade à crônica moderna brasileira. Por ela se poderá verificar o quanto é variável de um para outro o conceito desse gênero literário que engloba tudo: lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, considerações literárias, notas de viagem, tipos inesquecíveis, páginas de memórias, bricabraque e tal.Lustosa da Costa merece o nosso carinho e a nossa admiração, no momento em que lança mais um livro, dando continuidade, assim, à sua vocação literária, numa terra em que a crônica tem excelentes cultores, nas obras de um Ribeiro Ramos, Rachel de Queiroz, Milton Dias, Ciro Colares, João Clímaco Bezerra, João Jacques, Osmundo Pontes, Padre Antônio Vieira, Airton Monte e tantos expoentes da literatura cearense. O que nos deixa sorumbáticos [sorumbáticos?] é que a maioria deles já viajou pra cidade dos pés juntos. Então, que viva. Viva muito. Viva Lustosa.Entre, amigo leitor, ao cair da tarde, no mundo mágico de Lustosa. Estas crônicas – poesia do cotidiano – a partir de agora em forma de livro, passam a ser um bem comum de todos nós. Venha participar dessa festa da inteligência, que é a convivência com Lustosa da Costa.
VICENTE FREITAS de Araújo Costa – jornalista e escritor cearense – nasceu na cidade de Bela Cruz, Ribeira do Acaraú. Filho de José Arimatéa Freitas Araújo e d. Maria Rios Araújo. Dedica-se à literatura e às artes plásticas, distinguindo-se como historiador, cronista e caricaturista. Depois de estudar em algumas escolas de sua cidade natal, mudou-se para Fortaleza, passando então a conviver com um grupo de escritores e poetas, freqüentadores da casa de Juvenal Galeno. Licenciado em História e Geografia, pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. É autor dos livros: Almanaque poético de uma cidade do interior (1999); Nicodemos Araújo – uma antologia (2000); O carpinteiro das letras (2002); Esboço genealógico de Bela Cruz (2006). Bela Cruz – biografia do município (2007). Participou de várias antologias, dentre as quais: Poetas brasileiros de hoje, Shogun Arte Editora, RJ (1992); Valores literários do Brasil, RJ (1996); Contos e poemas do Brasil, Litteris Editora, RJ (1997).

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