Carola Saavedra

Literatura
O prazer da criação literária               Por André de Leones*
Foto Divulgação

A tradutora e escritora Carola Saavedra nasceu no Chile (1973), foi criada no Brasil e já morou na Alemanha, na Espanha e na França. Sua prosa pode ser conferida nos livros Do lado de fora (contos, 7Letras) eToda terça (romance, Cia. das Letras). Por e-mail, Carola respondeu a algumas perguntas sobre o seu romance.
Clique aqui para ler trecho do livro.
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Toda terça é narrado por diferentes vozes, de vários personagens. Por que você decidiu construí-lo assim?


Carola Saavedra - Eu estava interessada em trabalhar com narradores não confiáveis, e, através das diferentes vozes, construir uma narrativa fragmentada, incerta, volúvel, na qual, além das versões narradas, houvessem outras, tão importantes quanto, mas das quais fosse possível ver apenas sombras, reflexos. Ou seja, pequenas peças de um mosaico, algumas mais visíveis, outras menos, mas que o leitor pudesse usá-las para reconstruir os acontecimentos e, talvez, criar uma nova história.


Depois de tudo o que se experimentou, formalmente falando, no último século, você acredita que os escritores estejam voltando a contar histórias de uma maneira, por assim dizer, mais tradicional? Ou, para usar as palavras de Martin Amis, contar histórias voltou a ser interessante?


C.S. - Acho que contar histórias nunca deixou de ser interessante, e, por outro lado, não me parece que, formalmente, não haja mais nada a experimentar. Tento trabalhar com as duas coisas, com uma história que atraia o leitor, e, ao mesmo tempo, com a forma, a estrutura da narrativa.


Lendo Toda terça, fiquei bastante curioso quanto às suas referências. Logo, a pergunta desgraçadamente inevitável: que escritores fizeram e/ou desfizeram a sua cabeça?


C.S. - São muitos os escritores que fizeram (e desfizeram) a minha cabeça, e certamente qualquer lista que eu fizesse seria incompleta, então prefiro me restringir a algumas leituras que me impressionaram nos últimos anos. Dos brasileiros: A tragédia brasileira, de Sérgio Sant’Anna, Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, Teatro, de Bernardo Carvalho. Em espanhol: Os detetives selvagens e 2666, de Roberto Bolaño, Cómo me hice monja (sem tradução), de César Aira, e A cidade ausente, de Ricardo Piglia. Em língua alemã: O náufrago eWatten (ainda sem tradução), de Thomas Bernhard; Os irmãos Tanner e O ajudante, de Robert Walser. Walser era um dos autores preferidos de Kafka, infelizmente ainda pouco conhecido por aqui.


O rótulo “literatura feminina” diz alguma coisa para você? Isto é, você acha que ele procede ou, como boa parte dos rótulos, é só mais uma bobagem?


C.S. - Não gosto do rótulo porque ele parte do princípio que a mulher teria uma voz diferente da do homem, uma voz intimista, emocional, destinada a temas ditos “femininos”, casa, marido, filhos etc., e, por outro lado, menos propensa a questionamentos intelectuais, conceituais e estéticos. Como se a mulher só pudesse falar a partir dessa perspectiva do espaço fechado, ou estivesse condenada a uma escrita de cunho autobiográfico, sentimental. É claro que o escritor não surge do nada, ele está inserido num contexto histórico, social, e, até as grandes transformações ocorridas a partir dos anos 60, 70, a mulher estava mesmo atrelada à casa, à família. Era, então, uma conseqüência natural que, na maioria das vezes, ela abordasse justamente esses temas, que era o que ela conhecia. Atualmente, porém, a situação é outra, tanto os papéis sociais como os sexuais já não são tão claramente definidos, ao contrário, muitas vezes se misturam, se intercalam, então, é de se esperar que as novas gerações tragam outros temas, outros questionamentos, e estejam menos ligadas a uma busca feminina, e mais preocupadas em traçar um caminho individual na literatura.


Quando e por que decidiu ser escritora?


C.S. - É difícil dizer quando. Não houve um momento exato. Se considerar apenas o desejo, ele existe desde criança, me encaixo naquele tipo de escritora que sempre quis ser escritora. Porém, é difícil dizer quando esse desejo começou a se transformar em algo mais concreto, talvez aos 28, 29 anos, quando eu decidi levar realmente a sério a escrita, ou seja, escrever com disciplina, pensando num possível projeto a longo prazo. Agora, responder por que eu me decidi pela escrita é algo ainda mais difícil, já que se trata de um processo muito complexo, do qual eu mesma só conheço alguns aspectos. Mas, numa tentativa de resumir, diria que o que me move é o prazer da criação do texto literário, esse trabalho que é para mim muito mais prazer que sofrimento.


Você nasceu no Chile, foi criada no Brasil e viveu em diversos países da Europa. Ter passado por tantos lugares influencia a sua literatura? Se sim, de que forma?


C.S. - Influencia, sim, com certeza. Aliás, Toda terça surge, de forma indireta, a partir dessa experiência, desse olhar que se situa sempre do outro lado. E, se eu tivesse que definir o tema central do livro, diria que é o exílio. Não apenas o exílio de quem vive entre várias culturas, mas o exílio daquele que, com o passar do tempo, em meio a um constante fluxo de estímulos, de informações, identifica-se um pouco com tudo e, ao mesmo tempo, não se identifica com nada totalmente. E, por último, um exílio que não é geográfico, mas emocional, que é a incapacidade de comunicação, com o outro e consigo mesmo, e que, no final das contas, é nada mais, nada menos, que a incapacidade de amar.


*Escritor, autor de Hoje está um dia morto. Foi um dos selecionado do projeto Amores Expressos. Entrevista originalmente publicada no blog Última Leitura.
http://www.sergipe.com.br/balaiodenoticias/carola_trecho.htm

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