Poetas cearenses - José Albano

José Albano
José Albano nasceu em Fortaleza, no Ceará, a 12 de abril de 1882, neto do Barão de Aratanha, estudou no Seminário daquela diociese, depois em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França. Morreu, solitário, em Montauban, na França, no dia 11 de julho de 1923. Tinha 41 anos, vividos, em grande parte, na Europa: primeiro, ainda menino, entre os 11 e os 18, estudando - em regime de internato - em colégios jesuítas da Inglaterra, Áustria e França; depois, entre os 28 e os 30, funcionário do consulado brasileiro em Londres, emprego que deixou para peregrinar pelo continente, entre 1912 e 1913, estendendo-se a Ásia e a África; por fim, nos últimos cinco anos de vida, desempregado e sem residência fixa.
Tornara-se, então - um andarilho, capaz de caminhar a pé de Viena a Paris, confessando, ao chegar, maltrapilho, tratar-se de uma homenagem a Jean Jacques Rousseau, que fizera o mesmo trajeto.

Verídicas ou não, oito décadas depois que uma gráfica de Barcelona imprimiu, em 1912 - o mesmo ano do Eu, de Augusto dos Anjos - os três pequenos livretos de suas Rimas, tais anedotas biográficas exprimem, frequentemente, pela voz dos próprios narradores, uma semiologia de sanidade e insanidade que o tempo se encarregou de tornar equívoca. A perplexidade diante da figura do poeta não se limitou aos reiterados retratos em que a barba e a cabeleira a Nazareno contradiziam a antipatia do monóculo: reagiu as roupas exóticas ou apenas muito usadas; acusou o contraste entre a aparente soberba e a falta de dinheiro; amesquinhou-se nos reparos a sua gula e as suas longas contemplações do mar." (Na orelha do livro: RIMAS, 3a. ed. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993

“A poesia de José Albano é complexa com sua língua de tons envelhecidos, mas os Dez Sonetos, por ele próprio escolhidos, são de grande fluência, doçura e religiosidade bastantes para os terem celebrizado."

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ESPARSA

Há no meu peito uma porta
a bater continuamente;
dentro a esperança jaz morta
e o coração jaz doente.
Em toda parte onde eu ando,
ouço este ruído infindo:
são as tristezas entrando
e as alegrias saindo.


III
*

Amar é desejar o sofrimento
e contentar-se só de ter sofrido,
sem um suspiro vão, sem um gemido,
no mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
e deste mundo enfim tão esquecido,
é por o seu cuidar num só sentido
e todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
de rudes pescadores rodeado,
caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
é ser enfim vendido por dinheiro,
e entre ladrões morrer crucificado.
*Este, e os seguintes, são dos “Dez Sonetos Escolhidos pelo Autor, cheios de suavidade, fluência e espírito meigamente contrito. Lembram por vezes Camões e Gregório de Matos. Em sua poesia religiosa, Albano ficou sem competidores na geração neoparnasiana.  Péricles Eugênio da Silva Ramos


          V

         Senhor, assim pregado ao duro lenho,
         não negas a ninguém o teu socorro;
         a mim, pois, que de mágoa vivo e morro,
         dá-me o brando sossego que não tenho.

         Em teu amar sempre ponho todo o empenho,
         vendo do puro sangue o frio jorro,
         e com suspiros aos teus braços corro
         e ao pé da santa cruz deitar-me venho.

         Olha como foi triste o meu destino,
         sem esperanças quase e sem venturas,
         apenas com os sonhos que imagino.

         Lembra-e destas dores tão escuras,
         de que tu és o meu Pastor divino
         e de que eu sou a ovelha que procuras.


            IX

         Bom Jesus, amador das almas puras,
         bom Jesus, amador das almas mansas,
         de ti vêm as serenas esperanças,
         de ti vêm as angélicas doçuras.

         Em toda parte vejo que procuras
         o pecador ingrato e não descansas,
         para lhe dar as boas-aventuranças,
         que os espíritos gozem nas alturas.

         A mim, pois, que de mágoa desatino
         e, noute e dia, em lágrimas me banho,
         vem abrandar o meu cruel destino.

         E, terminando este degredo, estranho,
         tem compaixão de mim, Pastor Divino!
         que não falte uma ovelha ao teu rebanho!


            X

         Se amar é procurar a cousa amada
         e unir duas vontades num desejo,
         se é ressentir um mal tão benfazejo
         que quanto mais tortura, mais agrada;

         se amar é sofre tudo por um nada
         e a um tempo achar que e pouco o que é sobejo,
         já claramente agora entendo e vejo
         que não há quem de amor me dissuada.

         Ó doce inquietação e doce engano,
         doce padecimento e desatino
         de que não me envergonho, antes me ufano!

         Comigo quantas vezes imagino:
         se é tão doce na terra o amor humano,
         que não será no Céu o amor divino?!

SONETO
  
Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino. 

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas. tão pouco dura;
E ainda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
  
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento; 

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.

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