Há vida inteligente fora da internet?

“Se eles existem, onde estão”? (Henrico Fermi, físico, em outro contexto, porém, válido para a questão do título.)

Andrea Trompczynski
Gosto de blogs. Blogar é escrever. Gosto de pessoas que escrevem. Mais ainda de pessoas que falam sobre quem escreve, sobre o ato de escrever. Escrever vai além da fala, vai além do pensamento, mais do que imagens ou palavras ditas, a escrita me prende a atenção, e me parece ser a forma de comunicação mais perfeita: é pensamento feito e refeito e escolhido a dedo. Sinto a trepidação das engrenagens do cérebro na escrita, e leio tudo, tudo.
Sinto saudades das antigas conversas longas, porque as pessoas nâo têm mais tempo para conversas longas. Não há, no mundo comum, assuntos que rendam as velhas e boas conversas. Um bom blog, é uma conversa daquelas. Não, não é um monólogo do autor, você pode realmente conversar com ele. Ouví-lo antes, o quanto desejar, responder, continuar o assunto, comentar. Deixar que alguma idéia sua se transforme, aos poucos, convencendo-se, ou discordando completamente, reafirmando sua opinião pessoal, ouvindo-a argumentar em defesa de si própria, na sinfonia das delícias solitárias do raciocínio, ou, ao menos, rir de si mesmo e do mundo. Pode conversar com o autor, escolher as palavras para não haver mal-entendido. Talvez as escolher exatamente para que haja. Como ele, antes, as escolheu. É mais íntimo que um site e diferente do jornalismo ou da literatura tradicional, porque o autor está ali, caloroso. Talvez você possa ver uma foto dele ou de alguma viagem que fez, como antes, quando as pessoas mostravam fotos para os convidados, na sala, durante um chá.
É simples assim: os blogs são feitos por pessoas que são, para mim, mais interessantes do que meus vizinhos ou colegas de trabalho. Quase não encontro pessoas que pensam! Vida inteligente, diferente das pessoas que concordam com tudo e que não estão acostumadas à discussão de idéias. Alguns são os novos polemistas, como os da época dos duelos intelectuais ou das grandes brigas de Sílvio Romero e José Veríssimo. Outros, são agradáveis de ler, e só por isso, valem todas as horas despendidas procurando-os. Dizem coisas que me interessam ouvir. Simplicíssimo assim.
Os blogs que estão em "Meus Favoritos" são:
Petrarca, porque ela é doce. Brincando com o filho no hall do prédio ou transando amarrada à uma mesa, ela é doce. Escreve de um modo tão feminino que, no início, cheguei a pensar ser um homem fazendo uma personagem mulher. Era perfeito demais. Erótico e maravilhosamente bem-escrito.

Bar-delta-bar, de Diego Navarro. Há uns dias, eu tentava sanar uma dúvida sobre a Teoria do Caos, quando fui abençoada pelo Deus Googlecom um tesouro. Orei ao Onisciente para que a intelligentsia brasileira, ainda em dúvidas sobre blogs, o lesse, e deixasse cair seus queixos, como caiu o meu. Texto perfeito, idéias geniais. Um achado! 
O Carapuceiroblog novinho em folha do Xico Sá, também cronista doBlônicas. O Xico tem meu estilo favorito: simplicidade de forma. Algumas frases dele são para ler muitas vezes e pensar em "como é ele conseguiu colocar todo esse pensamento em meia dúzia de palavras?". Para os iniciantes em Xico Sá, recomendo o "Manual de Civilidade Destinado às Meninas para Uso nas Escolas". 
Querido Leitor, da Rosana Hermann. Fico impressionada com a dedicacão da Rosana, há vários posts no dia. Ela tem grande parte da culpa por minha mudança de opinião sobre blogs, me contaminou a paixão dela por eles, e, já dividíamos a paixão pela internet. Ela posta desde dicas úteis sobre computadores, links dos primórdios da rede, textos sobre tudo e sobre nada, até receitas de bolo. Suspira resignada com a ignorância do Mundo Lá Fora, que nunca ouviu falar da mulher do "Sanduíche-iche-iche" (oh, Mundo Lá Fora, o quanto estais a perder...). 
Lendo Lewis: John Santos teve a idéia de ler As Cartas do Inferno de C.S. Lewis e postar carta por carta, com comentários dele e dos leitores. Quando estou em dúvida se blogs são ou não literatura, leio este. 
Blog do Ricardo Noblat, jornalista que migrou para a internet. O Noblat é outro que não deve dormir, dedicadíssimo que é ao blog. E não dormiu mesmo, nas 24 horas do dia do aniversário da morte de Tancredo Neves, numa cobertura de posts minuto-a-minuto e depoimentos de pessoas que estiveram lá, relembrando o momento político com todos os detalhes. Fez o mesmo nas 24 horas que antecederam o dia 15 de março, aniversário de 20 anos da "posse" que nunca houve e marcou o início da nossa democracia capengante. Ele é responsável por um furo que entra pra história dos blogs, por ter publicado há poucos dias, o escândalo das denúncias de Roberto Jefferson antes de todos os jornais.
Rafael Galvão, porque, da epidemia de blogs políticos, é o único realmente bom. São dele meus posts prediletos sobre cinema, literatura e televisão, e há também boa ficção do autor.
Alexandre Soares Silvablog repleto da ironia fina imitada por muitos. Todo mundo lê o Alexandre, e quem não lê, deveria ler. Impossível não ser influenciado por ele, já me flagrei arrancando os cabelos das têmporas e gritando "quem vai manter o status quo agora?", e, numa outra ocasião, chamando o Jebediah. Alexandre fez história na internet com seus delírios hollywodianos e pitadas de política.
Blog do Mr. Manson: para quem ainda pensa que Mr. Manson é um doido brincalhão, engana-se. "É prova de inteligência saber ocultar a nossa inteligência", La Rochefoucauld diria estarmos enganados em tomá-lo por humorista. Quem ri do tamanho de nossa ignorância é ele, e creio que ainda não o entenderam. É o Andy Kaufman da internet. 
Como ensinou o profeta Lourenço Mutarelli, farei uma previsão através da figura de meu maço de cigarros, hoje, um rato morto. A internet vai infestar-se de blogs horríveis. Como as bancas infestaram-se de revistas imbecis e as livrarias de livros medíocres. Não acredito que isso mudará alguma coisa para quem é bom escritor e bom pensador. Afinal, o mundo infestou-se de pessoas que fazem as tais revistas, filmes, livros e programas televisivos ruins. A vida inteligente, seja em que veículo de comunicação for, sobreviverá. Em meio a páginas sobre como obter auto-confiança, um perfil de Débora Secco e comentários políticos insossos, um ser inteligente, um pouco escondido, estará escrevendo para outros seres inteligentes. Minha visão é clara: Mr. Manson, que será o dono de toda a mídia de massa, fará essa concessão. 

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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros. 

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