Dorian Gray abre o sótão: Orkut

Andrea Trompczynski
Quando a tela pintada por Basil Hallward em O Retrato de Dorian Gray, começou a mostrar os primeiros sinais de mudança, Dorian percebeu que teria que mantê-la escondida e trancada à chave. Quando fraquejava com vontade de voltar à vida anterior, a influência de Lord Henry Wotton encorajava-o. Um mestre paciente e seu pupilo. A beleza andrógina de Dorian permitia-o caminhar entre la crème de la crème da alta sociedade londrina. Quando Basil descobriu o quadro, Dorian matou-o.

E se houvesse uma maneira quase anônima de expor a tela, usando uma máscara parcial? E se cada monstruosidade na tela pudesse ser indicada pelo nome da "fraqueza moral" que a gerou, como os sete pecados capitais rotulados claramente? Escrito com todas as letras, sem mais vergonha, e fizesse as pessoas sentirem medo do que há dentro delas e de como uma influência qualquer pode fazer isto despertar, crescer? 

Por ouvir meu irmão falando tantos nomes de minha infância, professores, amores platônicos e tantas histórias que ele havia encontrado no Orkut, pedi que me convidasse, sim eu queria conhecer o que era. As primeiras horas foram como as de todo mundo que conhece o programa: saudades e memórias e pequenas frustrações. Por hábito comecei então a procurar a feiúra. Fácil. Mas, por estar há muitos anos longe de chats, fóruns e ter estacionado em alguns sites que admiro ou que me são indicados, assustei-me com o que vi. Não impressionaram-me os temas, que todos temos mais ou menos de Dorian Gray, mas pela imensa exposição dos quadros mais tenebrosos ser anunciada, festejada e aclamada. Os quadros de Basil.

É a minha geração falando na comunidade "Eu Vou Para O Inferno", onde discutem: o que é melhor "torturar alguém até a morte ou o espancamento?", como atropelar motoboys, ciclistas ou como foi delicioso o som de ossos partindo quando um homem (não um adolescente rebelde ou uma criança problemática) quebrou de propósito o braço da irmã. Alguns blefam, outros estão arrependidos. Há uma competição entre os melhores, que desprezam façanhas "pequenas". Ódio declarado a religiosos, crianças, animais e deficientes é lugar-comum. Os deficientes físicos têm sido a última piada por causa das para-olimpíadas. Alguém que parece o mediador avisa quando o candidato é digno do inferno, exalta os ânimos e os assuntos vão ficando mais pesados.

Anfetaminas, calmantes e toda sorte de remédios controlados que possam fazer dormir em uma crise de fome ou eliminar o apetite estão disponíveis em comunidades pro-Ana e Mia (comunidade "Pro-ana, Pro-mia em Português", tópico "remédios", apenas para citar um exemplo), apelidos para anorexia e bulimia, última moda de internautas preocupados com a "beleza a qualquer custo" uma onda gigante da qual ninguém, ou pouquíssimos, falam. Basta escolher um dos e-mails disponíveis de usuários vendedores que fazem a propaganda explícita (sempre com a preocupação de dizer que é um "amigo" o tal do vendedor), enviar comprovante de depósito bancário e aguardar a sorte, porque o remédio pode chegar ou não. E pode ser o remédio verdadeiro ou não, que dependendo de qual seja a composição química, é uma grande sorte. Ou, mais fácil ainda, diz um dos "conselheiros", basta ligar para um disque-farmácia, pagar com cartão e esperar a entrega. Garotos e garotas de 13, 14 anos trocam dicas de como comer e vomitar sem que os pais ouçam. Competem e fazem juntos jogos chamados no foodque são dias (dias!) em jejum. Alguns evitam até a água, para não "inchar". Quando outros entram tentando ajudar, sempre alguém que teve problemas sérios por desordens alimentares, eles respondem que são doentes, sofrem com isso, mas não querem ou não podem mudar.

(Não acredito que seja necessário comentar as comunidades sobre drogas. A situação é idêntica.)

Essa exposição mostra o que sempre existiu e foi abafado pelas aparências. O OrkutMultiply e muitos que virão deixam Wilde cada vez mais atual, mas penso que ele acharia fácil demais escrever O Retrato de Dorian Gray hoje, com monstros tão às claras (fácil para Oscar Wilde, é claro).

"Quanto mais o homem fala de si, mais ele deixa de ser si mesmo. Mas deixe que se esconda por trás de uma máscara, e então ele contará toda a verdade." (Oscar Wilde)

Quando você tiver tempo
Quando você tiver tempo de sobra e precisar ouvir a mesma piada muitas vezes para entendê-la, leia Wunderblogs. A repetição das mesmas idéias, mesmas piadas, mesmas poesias engraçadinhas e musiquinhas é entediante. Às vezes imagino que todos eles são uma só pessoa com vários nomes e sérios problemas em manter a memória recente. Chato, muito chato. Aonde anda Paulo Salles? 

A Conspiração
O senso de humor de alguns me fez esquecer um pouco a gastrite que os sem-nenhum-senso do Orkut proporcionaram. Em uma comunidade sobre conspirações, um rapaz paranóico tentava convencer outro de uma teoria de que estamos atuando em um reality show e alienígenas ou Deus se divertem nos assistindo. Um então deu uma resposta genial: "Fica quieto. Se eles souberem que sabemos, podem nos eliminar. Então, o que nos restará, posar nus?" 


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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros.

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