Um conselho: não leia Germinal

Andrea Trompczynski
Procure em sua estante de livros este escrito em 1881 por Émile Zola:Germinal. Encontrou? Livre-se dele o quanto antes, melhor, queime-o. 
Germinal é doente. Feio. 
Aquele amontoado de homens-animais, trabalhando como escravos apenas pela fome, os mineiros da Voreux, há gerações. Quando Etienne, o idealista fervilhando de idéias de direitos e leis, chega e pede por um trabalho perguntando quem são os donos da mina-de-carvão, Boa-Morte – chamado assim por insistir em não morrer nos inúmeros acidentes das escavações – aponta um lugar no espaço, desconhecido, remoto, sem saber quem era que alimentava com sua própria carne. As mulheres parindo suas crias para ter mais uns contos, os filhos sempre contabilizados como mais alguns trocados para alimentar a casa. Elas não têm nome, são a mulher de alguém. Se deixam derrubar de costas atrás das árvores com qualquer mineiro que lhes faça esquecer a fome por alguns instantes.
Esquálidos, doentes, quase se pode ouvir os ossos batendo uns nos outros quando se deitam para amar, como Catherine e Etienne em seu leito de lama, ela feliz pensando que era o amor quando era um delírio de fome matando-a. Eles são feios e cheiram mal. Famintos, o tempo todo famintos. As crianças como porcos no chão catando cascas de batatas, uma refeição. E a frase mil vezes repetida: "se ao menos houvesse pão". Uma humilhação insuportável quando a mulher de Maheu tenta pedir cem ducados na casa cheirando a bolo dos Grégoire, donos da mina, bonitos como são os que não precisam pensar se terão o que comer. 
Quem quer ver isso, meu Deus? Quem pode acreditar que um homem chegue a tremer ao receber seu salário, pelo pavor de saber que não dará nem ao menos para o pão? Não, este livro é um absurdo.
O fracasso certo dos que tentam "mudar alguma coisa". Etienne começa a greve, incita o povo à revolução contra o que é impossível mudar. Lincham Maigrat, o dono do armazém que cobrava as dívidas impagáveis deitando-se com as filhas dos burros-de-carga. Arrancam-lhe os testículos, as mulheres-bichos, cuspindo e gargalhando, no dia sangrento dos saques. Preferiam matar a pedir esmolas. Qual o problema em ver os filhos pedirem esmolas? Afinal, somos todos tão caridosos e é um prazer dar a esmola e sentir-se regozijado. Fora da caridade não há salvação.
O velho Boa-Morte, senil e louco encontra a filha dos Grégoire, Cécile. Ele, degenerado de pai para filho pelo século de trabalho e fome, seu escarro negro do pó da mina de carvão e ela, gorda e branca, as bochechas rosadas dos que comem. Ninguém na sala, o velho, num desvario, estrangula a garota. 
Tudo em vão, Etienne é expulso da vila, por ser o culpado de inculcar nas pessoas aquelas idéias loucas de revoluções e esperanças. Eles voltam à mina, quietos. Dando graças a Deus por terem de novo seu trabalho de bestas. 
Por isso, queime-o sem dó nem piedade. Vamos admirar a beleza de um vaso grego. Leiamos os escritores de hoje. Estes sim, com os malabarismos de estilo, frases perfeitamente musicais e lapidadas, brilhantes como os dentes de Cécile, valem a pena serem lidos. Conteúdo? Quem se importa com conteúdo? Conteúdos são feios e esfomeados e tristes. Quem quer realidade? Que venham os concursos de prosa, de contos, de blogs. Que tenhamos vida longa e tempo para ler a todos os ourives da palavra. Temos uma multidão deles, dando o sangue como os mineiros da Voreaux. A multidão de contempladores de vasos gregos. Está aí a Era do Novo Parnasianismo da Prosa. Fora comGerminal e realidades!
"De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia! Dois a dois! Primeira posição! Marcha! Todos para a Central do meu rancor inebriante!"
(Mário de Andrade)
Entreguem suas armas
A Campanha pelo Desarmamento da População é uma piada. As garruchas enferrujadas não valem nada e o governo paga por elas de 100 a 300 reais. A maioria é de armas que foram consideradas obsoletas pela lei anterior, chamadas armas de pólvora preta, e, pela nova lei não são mais. Ninguém entrega uma Walther, Glock ou Beretta para a campanha. Boa oportunidade para colecionadores e atiradores limparem o armário e ganharem um dinheiro extra (dica para colecionadores: pode ser usado para comprar besta e arco e flecha, que não são armas de fogo). Aquele ferro-velho não tem valor nem poder de tiro. Depois da campanha o número de latrocínios em São Paulo aumentou em 80% (o Paraguai é logo ali). Em 2005 haverá um referendo em que a população votará se é possível a comercialização de arma de fogo ou não. Estou até imaginando já a campanha da Globo e as passeatas, com pessoas vestidas de branco, balões e pombas da paz nos cartazes, além da Xuxa fazendo aquele sinal da pomba com as mãos. Os não-conhecedores de armas acham que estão fazendo grande coisa. Alguém está ganhando muito com isso.
O assunto do momento
O governo Bush será um estouro.
As pessoas mudam
Paulo Polzonoff Jr mudou. Foi arrogante, inquieto e algumas vezes fatalista como crítico no passado (e já era bom) e agora escreve melhor do que nunca. Lendo seus artigos, desde os antigos, muitos aqui noDigestivo, até os de hoje, acompanho a evolução intelectual e emocional de um jornalista que tem toda a minha admiração (palavra mais bonita para não ter que dizer a verdade: inveja). Ele não tem mais que mostrar erudição ou necessidade de aceitação, escreve sobre o que quer, o que gosta.
Meu assunto predileto
Algumas críticas superam a obra. Ler A Orgia Perpétua, estudo crítico de Madame Bovary, escrito por Mario Vargas Llosa é melhor que ler o livro de Flaubert.


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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros.

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