Ele é o Rei

Andrea Trompczynski
Tenho uma fascinação pelo sórdido e por algumas coisas doentias e feias. Para ficar mais moderno, direi trash. Apesar de preferir a expressão "Culto ao Feio". Faz parte deste meu hobby um prazer que é observar a expressão facial e corporal dos fanáticos quando estão cultuando ou falando sobre seus deuses. Seja o que for. Religiões, marcas, stars, Brizola... Posso ficar horas olhando para aquelas faces satisfeitas, embriagadas, aquele ar de quem tem todas as respostas, a paixão com que falam sobre seu objeto de adoração. E como estes apaixonados ficam feios, trash, divertidos.

O fanatismo preenche aquele buraco na alma com o qual todos nascemos, e desesperados tentamos esconder, tapar, fingir que não temos. O anestésico perfeito (e, claro, uma fábrica de dinheiro para os que não estão tão ceguinhos e anestesiados assim).

Meu favorito e do qual sinto muita saudade de assistir o programa na televisão é o R.R. Soares. Ele é o rei! Uma espécie de Sílvio Santos da Igreja Internacional da Graça de Deus. Ele é Bispo Macedo da Igreja da Graça e, para mim, um gênio do marketing para as massas. Tem o magnetismo que os pastores da Universal perderam com os cursos de oratória que fizeram, agressividade do tom de voz e muita ênfase em "encostos" (por falar nisso, no último programa desses que vi numa madrugada no Brasil, descobri que tenho uns dez encostos porque tenho todos os sintomas que o pastor falou que indicam a presença de um espírito maligno junto de nós. Caso o leitor queira saber, alguns são: dores-de-cabeça freqüentes, insônia, depressão, azar no amor, doenças, cigarro ou outro vício qualquer, e, essa é covardia, dívidas. Viu só, fizeram um trabalho para você e é por isso que sua conta bancária está assim. Mas é só ir na Sessão do Descarrego que tudo se resolverá, caro leitor, e você se tornará um próspero empresário como o Sr. Pereira Gomes que era alcoólatra, vivia em boates e jogava e hoje é um respeitável pai de família).

R.R. Soares descobriu a melhor maneira: não pode assustar o povo, deve-se falar calmamente, hipnoticamente, como um velho pai dando conselhos. Ele tem o carisma. É o homem com mais tempo de programação na tevê, 100 horas semanais em quatro redes de televisão. Somente para a Bandeirantes ele paga 2 milhões de reais por mês. Nos anos 70, Soares foi co-fundador da Universal com Edir Macedo e após divergências, fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus, cujo crescimento tem assustado a Universal, que para revidar coloca os programas no mesmo horário em redes concorrentes.

Mas não é meu assunto o show das igrejas evangélicas na televisão, a concorrência com a Universal, os rios de dinheiro, os exorcismos e apelações e o domínio sobre a mente do povo desesperado com dívidas ou doenças, que isso todo mundo já sabe. O ponto é: entendo perfeitamente porque as pessoas ficam tão felizes na Igreja dele. Entendo perfeitamente porque as velhinhas choram e os casais se abraçam, juram amores eternos e perdoam passados escusos. Entendo porque nos intervalos correm para assinar os cupons para ser mais um "sócio-colaborador" ou assinar a Revista da Graça ou comprar CDs daGraça Music. Ele é tão confortador... Esquece-se de tudo assistindo oShow da Fé. Os olhares fascinados, os hinos cantados de braços erguidos, êxtase total, lágrimas e mais lágrimas, arrependimentos e promessas de vida nova. É o trash mais perfeito do mundo por ser inconsciente da sua "trashilidade".

Para quem ainda não se convenceu que ele é o maior, depois desta se convence ou desisto: no fim de todos os cultos ele pergunta se alguém recebeu alguma cura, se sentia alguma dor e a dor desapareceu. Disputam o microfone para contar as graças recebidas, e então, ahnnnnn, o final perfeito, ele pergunta se caroços, sim, caroços, sumiram nesta noite, e as senhoras e senhores mostram os braços ou apertam o corpo mostrando o lugar onde estava o caroço que sumiu. E ele repete a palavra caroço umas cinco vezes em cada caso. Que tamanho era o caroço, minha irmã? Há quanto tempo o senhor sofria com esse caroço, irmão?

Tem palavra que mais simbolize o Culto ao Feio do que "caroço"?

Brazilian Boys Naked
Onde é que o nome "Brasil" mais aparece aqui? Ham? Ham? Escort girls (antigamente tinha outro nome, acho que era prostituta); surfistas cariocas pelados em vídeos por $19,90; carnaval carioca em cenas quentes por $15,99; biquínis brasileiros e mulatas sambando na televisão. Eles pensam que somos todos tão lindos e malhados no Brasil e que todas as mulheres tem a bunda da Scheila Carvalho. E que somoshot. Somos? Um dia me perguntaram se existia pizza no Brasil. Que o céu caia sobre minha cabeça se eu estiver mentindo, juro. Acho que somos uma porcaria mesmo e merecemos a fama de selvagens. Bem feito para nós, índios botocudos. Quando meu inglês melhorar vou mentir que nasci na Polônia. Na maioria das vezes é constrangedor quando perguntam, por perceberem o sotaque where are you from? abaixo a cabeça resignadamente para responder baixinho, torcendo para que a máquina de espressos faça bastante barulho e o senhor alto, branco, católico e bem-educado não ouça minha triste resposta. 
Ah, tive uma idéia, posso dizer Portugal!

Os Evangélicos Que Aqui Gorjeiam Não Gorjeiam Como Lá
Passei uns dias de "molho" por motivos de saúde e assisti muita televisão. Os pastores daqui não são bons como os daí. São tão calminhos, não gritam e nem fazem exorcismos de manhã. Tão sem graça... E até os espíritos malignos são comportadinhos, nem se manifestam nas sessões de culto como os nossos daí, que são rebeldes e gritam e fazem literalmente "o diabo". Que engraçado, talvez aqueles onze círculos do inferno de Dante Alighieri sejam cada um embaixo de um lugar e por isso os demônios são culturalmente diferentes e, claro, os que ficam embaixo da América do Norte são mais educados, sei lá. 

O Poderoso Brando
Marlon Brando era uma exceção à minha teoria de que certos artistas deveriam fazer o favor de morrer com uns trinta, trinta e poucos anos. Para não dar vexames depois e matar uma obra que poderia ser perfeita. Marilyn sabia disso. James Dean, Mário de Sá-Carneiro. Quem diria que o Paul McCartney ficaria tão chato? E o Michael Jackson (este deveria morrer aos vinte) tão incrivelmente louco? E alguns tropicalistas e roqueiros dos anos 70 e 80 tão mentalmente adolescentes precisando "chocar" o tempo todo? E que a Hebe usaria mini-saia com quase oitenta anos? Para não falar da Brigitte Bardot que é a pior de todas (se o guaxinim azulado do oeste do Sri Lanka está em extinção, nada mais natural, que se extingua, mas, o guaxinim azulado do oeste do Sri Lanka tem uma linda pelagem, é preciso fazer passeatas, campanhas, ficar pelado em protesto à extinção do guaxinim azulado do oeste do Sri Lanka). Mas nunca Marlon Brando, ele não se tornou uma piada. Até mesmo em seus chiliques em estúdios e fugas da enfermeira nas madrugadas para buscar sorvete no supermercado, havia aquele charm, aquele olhar. Ele era mais.

“A violência está em todas as partes do mundo. Acho que a indignação é a causa daquilo que se diz e se pensa e também é perigosa. Por que matamos uns aos outros? Vou lhe dizer por que motivo. Tudo o que se tem a fazer é tirar uma gota de água de um lago no verão, colocá-la sob o microscópio para ver aquelas criaturas microscópicas matando umas às outras. A vida é matança”. (Marlon Brando) 
assado. 


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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros.

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