Escritores

Andrea Trompczynski
Eu ontem folheava um livro quando me flagrei num prazer quase sexual: eu tocava a capa, deslizava os dedos sobre a borda, cheirava as páginas, deliciando-me, não só com a voz do autor, mas com todas as sensações que eu podia extrair daquele contato. E percebi: tenho uma tara pela literatura. E pelos autores. É ainda pior, sejam homens ou mulheres, sou uma bissexual da literatura, tenho tara por todos eles. Quando gosto de um livro, fico obcecada por ele. Quero saber quem são todos os que trabalharam nele, o que fazem, quem diagramou o livro, e como, como foi feita a edição, quanto tempo demorou para ser escrito, curiosidades sobre o autor, e ontem, chamou minha atenção até mesmo o talento do autor da orelha.
Acima de tudo o que posso amar, acima mesmo dos livros, estão os escritores. Ah, os escritores povoam meus sonhos. São pessoas mais elaboradas do que as outras. Dizem frases escritas, dizem frases de livros. Já não posso mais ter amigos comuns, são tão boring! Só quero amigos escritores. Porque, uma conversa com um escritor é outros quinhentos, meus caros. Há um bom-humor afiado, quase cínico, de Oscar Wilde; há uma poesia triste, quase engraçada, de Augusto dos Anjos; a sexualidade, esta é de Henry Miller, e nunca, nunca, de Jane Fonda – como tem estado em voga com estes que cultivam o péssimo hábito de não ser escritor. Há risos, quando lembramos de Machado, uma dor inexplicável quando fumamos e falamos de Virgínia Woolf.
Já perdi a vergonha e hoje confesso publicamente: escritores, e todo o mundo que gira em volta deles, é, para mim, como eram antigamente, os Menudos, lembram? Tenho que me segurar para não pedir autógrafo ou arrancar o tecido da cadeira onde o tal autor se sentou para levar como souvenir. Decerto, as mulheres dirão que estou errada, pois os escritores são sempre feios. Ah, mulheres, de nada vocês sabem. Ficam procurando por corpos e roupas e carros. Se soubessem o que é um escritor! Aquele olhar lá longe, você quase pode ouvir o barulho das rodas das engrenagens do cérebro em funcionamento. E as sobrancelhas! Quando eles levantam aquelas sobrancelhas de profundo desprezo pelo resto da humanidade, preocupadíssima com o destino do PT, e eles, bah!, longe, longe, construindo uma personagem na antiga Londres, muito mais elegante e humana que qualquer um de nós. Podem matar Mrs. Darcy em três minutos. Têm todo o poder em suas mãos! São, pois, deuses.
Agora, serei coerente, de acordo com a inteligência emocional de alguém que cita Menudos, digo: fora, fora para sempre com quem não é escritor! Não falo mais com vocês, estou "de mal". Vocês olham para uma porta e vêem apenas uma porta. E não escrevem. Quem não escreve, definitivamente não pensa. Detesto pessoas que não pensam, acho um desperdício. Para vocês, direi sempre que não posso, não estou, já tenho que ir, pois está a passar um escritor. Vou contemplá-lo da janela, vou imaginar o que se passa na sua cabeça, imaginar o que ele pensa quando olha através de uma porta.


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Andrea Trompczynski – O livro é um prazer sensorial para mim. Capas antigas, o cheiro, anotações. Meu sonho de consumo é uma primeira edição de Finnegan's Wake, com anotações, nas margens, da Lígia Fagundes Telles. Não há arte maior que a literatura. Não há arte mais intensa e nem mais difícil. É a única e verdadeira arte. Escrever. Vou em teatro, ouço música, sim. Mas até a HQ para mim está acima da música. Não adianta. No princípio era o verbo. Os homens são minha forma favorita de design. Não a humanidade, os homens. Anti-feminista convicta, acredito que as super-mulheres perdem o que há de melhor nos homens. Passei por essas fases de queimar sutiã e hoje vejo que certa estava minha avó, não se deve lutar contra a natureza. Tenho uma estranha sensação de déjà-vu quando conheço coisas novas, é sempre como se já tivesse visto. Como se nada fosse muito novo. Por ter andado por muitos lugares e vivido tantas coisas sem sair do meu quarto, agora finalmente vendo "de verdade e se mexendo" o mundo, não me deslumbro, não me fascino. Prefiro os livros.

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