O Pé de Juá

Maria de Jesus Carvalho
Ainda está ali. Silencioso, imenso, majestoso, arqueando ao peso dos galhos frondosos. Há quanto tempo? Não sei. Quando o conheci já era assim. Situado em meio às matas de pau-branco, veste-se de diferentes tonalidades de verde, à medida que as estações mudam, pois apesar das rudes intempéries que assolam o Ceará, continua sempre belo e acolhedor, abrigando quem chega fatigado ou quem recreia à sua sombra. Sob seus ramos há paz e tranquilidade. Dali, respirando o ar puro e saudável dos campos, pode-se contemplar o maravilhoso espetáculo do amanhecer e pôr-do-sol, quando os cômoros se banham de luz, desenhando misteriosos arabescos ao lusco-fusco e o canto dos pássaros enfeita as matas com mística orquestração. É bom de ouvir as notinhas melodiosas que vibram dos pequenos cantores, ao voltarem para seus ninhos no final da tarde. À noite, quando um punhado de estrelas brilha no céu, a velha árvore se transforma num imenso albergue para quadrúpedes que não têm onde dormir.

Em retrospecto a um tempo já bem distante, vejo-me em   companhia de alguns primos e primas, armando balanços, clareando os dentes com o pó da casca da árvore, comendo frutinhos, brincando de cirandas, aproveitando o mais que podíamos daqueles momentos de lazer, até a hora em que fôssemos chamados de volta para casa. Isso me traz doces recordações e muita saudade. Aqui, no alpendre da antiga casa de campo dos meus avós maternos, conversando com Luíza, uma prima que há muito não via, estamos a relembrar aqueles momentos agradáveis dos tempos de criança.

– Sabe, Maria, sempre que posso, venho passar uns dias aqui, descansar um pouco da vida agitada da cidade grande. A tranquilidade do interior restaura minhas forças, liberta da poluição. Respiro ar puro... – Fala, enchendo os pulmões de ar e soltando, ao mesmo tempo que movimenta os braços.

– É realmente muito gostoso, ouvir o canto dos passarinhos, ver os animais pastarem,  as aves catarem alimentos... Sem falar neste clima maravilhoso, ouvindo o cantarolar do vento nas palmas das carnaubeiras.

– Nossa! Como você é romântica, prima. Dá para ser uma poetisa!...

– Não sei se chegaria a tanto, mas tenho vontade de escrever um poema. Estou estudando metrificação e rima. Quem sabe, um dia chegue a ser uma poetisa ou escreverei um livro sobre os nossos tempos de férias em Bela Cruz... Gosta da ideia?

– Claro, Maria, como tenho boas lembranças daquele tempo!... Esteve lá, desta vez?

– Sim. Na praça principal, admirando a beleza arquitetônica da Igreja Matriz. Visitei a casa de meus avós, deteriorada pelo abandono, despertando saudades. A sua, Luíza, está bem conservada e impregnada de doces lembranças. Era gostoso armar redes nas árvores do quintal de sua casa, montar casinhas de bonecas e brincar de comadres. Às vezes, fazíamos panelada com a ajuda de sua mãe que se comprazia em participar daquela quadra inocente. Lembra? Uma vez, você preparou um almoço, cozinhando em panelinhas pequenas: arroz, carne, farofa; o feijão sua mãe fez e nos deu um pouco. Como sobremesa, tivemos rodelas de limão com açúcar... Ficou tudo uma delícia! Era muita gente pra comer, mas chegou para todos.

– Ai, prima! Falando desse jeito, me deu vontade de chorar... Qual a primeira vez que veio visitar os avós?

– Não recordo nada dessa primeira vez, porque contava apenas oito meses de idade. Viajei em uma tipóia nos braços de meu pai, a cavalo, numa bonita noite de luar, a fim de me batizar. Depois de oito anos, vim com minha família passar as férias de que falei há pouco. Por causa do inverno muito forte, as estradas dificultavam a circulação de carros e fui levada a estudar no Instituto Maria Imaculada, na 1ª série, para não me atrasar nas matérias. Meu pai só veio nos buscar quando as chuvas diminuíram.

– De todas as férias, a melhor que achei foi aquela em que dançamos a quadrilha. Lembra? Os meninos usavam cartolas e as meninas uns cachos brancos feitos de algodão. De quem foi a ideia? Nunca tinha visto roupa matuta daquele jeito.

– Ah! Naquele tempo eu estava com quatorze anos. Estávamos todos diferentes. Nosso encontro tornou-se difícil porque havíamos mudado, crescido em corpo e em mente. As brincadeiras foram substituídas pelos “flirts”, bailes, prendas, serenatas, serestas, tudo ao luar porque não havia luz elétrica. Logo que cheguei, pessoas ligadas à Igreja pediram-me para fazer um festival beneficente e resolvi ensaiar a quadrilha porque estava na época das festas juninas. Era uma quadrilha à francesa. Eu, mesma, já havia dançado daquele modo. Naquela época, já me interessava pela arte, cujos conhecimentos adquiri no Colégio das Irmãs em São Benedito. Os ensaios e confecção das roupas foram feitos na casa do meu avô. Apresentei a quadrilha com outros números de arte, no Salão Paroquial. Foi muito divertido! O público aplaudia de pé, atirava bombons e flores no palco. Ao terminar, um jovem louro tipo Marlon Brando, veio-me dar parabéns acompanhados de uma linda rosa vermelha. Disse-me que era da família Lima de Bela Cruz. Como lembro tudo isso! Quanta saudade!

– Foi uma bela apresentação. O público entendeu e soube demonstrar sua admiração. Agora... Dos parabéns do “Marlon Brando”... disso eu não sabia!

– Olha aí... Não interprete as coisas, errado! Disso, conversaremos depois.

– Maria, vamos até o juazeiro, quero te mostrar uma coisa. É segredo.

– Segredo? Espero que seja agradável. Vamos.

Luíza pôs as mãos sobre meus olhos e conduziu-me até o juazeiro. Rodeamos a árvore três vezes e retirando a venda, disse: – Pode olhar!

– Meu Deus! Não estou acreditando. Nossos nomes gravados no tronco do juazeiro: Luíza, Margarida, Izabel, Nilza, João Bonfim, Guida, Francisca das Chagas, Genoveva, Socorro, Maria do Socorro, Glaucia, Maria das Graças, Marta, Maria de Jesus, Dúnnia, Evilázio, Raimundo, Agamenon, José Gerardo, Antônio Ademar... Oh! Luíza, foi uma ideia genial. Não poderia existir melhor forma de registrar aqueles momentos tão importantes de nossa infância e adolescência, senão aqui, no livro da Natureza, nesta árvore que está sempre cheia de vida.

– É isso mesmo, Maria. Esta é uma mensagem que ela passa para nós através dos tempos.

Estivemos ali por alguns minutos, sob o efeito benéfico do verde oxigênio e da suave lembrança que invadia nossos corações. Demo-nos as mãos e rodeamos a árvore mais uma vez. Uma lágrima rolou dos meus olhos, misturando-se às águas de um córrego que marulhava a alguns passos.

Maria de Jesus Araújo Carvalho


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Maria de Jesus Carvalho nasceu em Massapé, no Ceará. Fez seus primeiros estudos no Educandário Nossa Senhora do Carmo, um colégio particular, em sua cidade natal. Nas primeiras quatro séries, desenvolveu o gosto pela leitura. Os Cursos Ginasial e Normal, concluiu na Escola Normal, colégio interno dirigido pelas Irmãs de Caridade, em São Benedito, cidade serrana do Ceará e ali, já na adolescência, motivada pela carência da família, começou a fazer seus primeiros versos, herança de seu pai que era exímio na arte do soneto e de outros gêneros. Seu primeiro soneto foi fruto de uma decepção amorosa, aos dezesseis anos de idade. Além de poemas escreveu teatro infantil, paródias, letras de hinos, pequenos discursos, apresentados nas escolas onde lecionou – Português, Literatura Brasileira, Francês, Inglês e Música. Frequentou a Casa de Juvenal Galeno, Ala Feminina, de 1983 a 1986, em Fortaleza. Graduada em Letras (1977) e Direito (1981), pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-graduada em Metodologia do Ensino Fundamental (1997), pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Atualmente publica seus textos no Recanto das Letras e no site Bric-à-Brac, do poeta Vicente Freitas.

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