Cultura e Opulência do Brasil


Cultura e opulência do Brasil é um livro extraordinário. E muito raro. Impresso em Lisboa no ano de 1711, foi considerado indesejado pela Coroa portuguesa que mandou recolher e destruir todos os exemplares. Felizmente, sobraram alguns poucos. Sete para ser mais exato. Um dos quais a Universidade de São Paulo tem o privilégio de possuir na Faculdade de Direito – a mais antiga biblioteca pública da cidade de São Paulo, formada a partir da coleção do Convento de São Francisco.


Escrito por um certo André João Antonil, dormitou cem anos antes de ser descoberto e reeditado. Os motivos da interdição do livro são controversos. A Coroa falava em manter segredo sobre as riquezas do Brasil, para protegê-las dos interesses estrangeiros. A melhor opinião, pelo menos a mais interessante, ainda é a de Capistrano de Abreu, que nos seus Capítulos de História Colonial, explica que “a verdade é outra: o livro ensinava o segredo do Brasil aos brasileiros, mostrando toda a sua possança, justificando todas as suas pretensões, esclarecendo toda a sua grandeza”. Com efeito, naqueles anos iniciais do século XVIII – com a economia açucareira ainda em profunda crise, o ouro abundante, mas incerto – os portugueses, moradores do Brasil, de colonizadores se sentiam cada vez mais colonizados. Nada mais perigoso.


A primeira reedição, parcial, foi feita na tipografia do Arco do Cego, em 1800. Completo, o livro seria reeditado em 1837 – mas a partir de uma cópia manuscrita. Depois, os exemplares foram aparecendo e serviram de base para várias reedições. Dentre estas, sem dúvida alguma, a publicada em 2007 pelaEDUSP, preparada e exaustivamente anotada pela profa. Andrée Mansuy Diniz Silva, é a mais completa e erudita já realizada.
Até Capistrano de Abreu matar a charada, ninguém atilava para quem seria Antonil. Com sua sabedoria, o historiador percebeu que o nome era um pseudônimo, quase um anagrama, utilizado pelo jesuíta João Antonio Andreoni. Nascido em Luca, na Toscana, em 1649, Andreoni entrou na Companhia de Jesus aos 18 anos e, em 1681, veio ao Brasil como visitador. Aqui ficou, chegando à posição de reitor do Colégio da Bahia. Morreu em 1716. Destacou-se na polêmica com Antonio Vieira sobre a legitimidade da escravidão indígena e na defesa da canonização de Anchieta. Seu livro garante-lhe um lugar de destaque na história e na cultura brasileira.
Cultura e Opulência é um tratado sobre as quatro principais riquezas do Brasil no limiar do século XVIII. Em cada uma das quatro partes da obra, o autor descreve uma atividade econômica (cana-de-açúcar, tabaco, minas de ouro, e pecuária), com copiosa informação e detalhados comentários técnicos. É um livro essencial para a história do Brasil Colonial e, sobretudo, para história da produção açucareira. Em sua introdução, Mansuy pondera que o livro é uma “obra fulcral, cuja leitura atenta, nas linhas e entrelinhas, dá a conhecer muitos aspectos da vida dos homens que, no seio de uma sociedade baseada no trabalho escravo, contribuíram, à custa do dinheiro de uns e do suor e sofrimento de outros, para a riqueza de um império cobiçado e ameaçado por potências estrangeiras”.
Pedro Puntoni

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