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Mostrando postagens de Maio, 2012

Misturar-se à ponte

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Ponte – debaixo da ponte: 

frio – noite fria, escura, deserta; 

uma paisagem, ausência de paisagem.


Entre eu e eu, na brecha que dá pra avenida,

rua fechada, um beco, sem número, sem rumo:

Indistinto. Ambarino. Gris.

Irreversivelmente sem saída.


Os habitantes do meu corpo – os piolhos – dançam

no couro cabeludo: cabeça, tronco e membros,

a fazer cócegas, a ferir.


Noite: ferida noite, na ponte:

sem roupas, aos trapos,

sardas às costas,

debaixo da ponte: sem ponto, sem ponte.


Animal, roedor, de toga:

Inflige ao transgressor a sua transgressão.

Perdoa ao Homem da ponte: a Vítima

das vias nodosas da favela, do país.


Vê: outras formas se multiplicam,

vampiros com asas, um vermelho escuro

jorrando de parte nenhuma. Uma estrela?


Vicente Freitas

A Planta e a Prece

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Seu primeiro impulso foi de estender o braço e colher uma daquelas maravilhas. Sempre quisera ter em casa um pequeno recanto onde pudesse cultivar a bela planta, mas para sua frustração, mora em apartamento com pouco espaço, onde não pode curtir a beleza de um jardim. A rua está tranquila e as almejadas papoulas cor-de-rosa estão ali, a colorir o gramado bem cuidado daquela casa, como se fossem laços de fita. Os bons costumes a impedem de realizar o impetuoso desejo. “Tirar uma rosa do jardim alheio, de forma escondida, é roubo”, disse consigo mesma. Sente apertar o coração e uma espécie de saudade leva-a ao encontro de seus sete aninhos. Lembra-se do dia em que seus pais a levaram à casa dos avós maternos, em uma cidade praiana a 72 km da sua, a fim de passar um período de inverno.    Localizada na praça principal, em frente à Igreja Matriz, era uma casa humilde, mas havia em seu interior tanto amor e compreensão, que causava bem-estar às pessoas que a visitavam. Duas lindas e frondos…

As Sete Irmãs

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Com os pés fincados no pó, avanço. 
Trago nas veias a genealogia das Sete Irmãs, 
as insígnias de um Adão esquecido
nas catacumbas de Santa Cruz.

No ângulo dos gestos, descrevo a origem
das Sete,
no tumulto dos nomes sem túmulos,
no rol dos pentavós.

O verbo:
a história explode, volta a pré,
o fóssil abre a boca,
arfa o enxofre da terra mãe
e sabe que cada membro
forma uma família, na Ribeira.

Sob as armações do silêncio,
o sangue dos pentavós, em páginas amarelecidas,
com capas e sobrecapas,
escorre pelo Acaracu.

Os cavadores do passado, em voz baixa,
trabalham para que a morte não acorde
os velhos patriarcas encostados no olvido.

Lá ao fundo, a sombra das Irmãs, as Sete,
acende-se, altiva, nas veias do genealogista –
com suas relíquias, lavadas a incenso.

Distorcidos esqueletos
vindos de longe, mulheres vestidas de pó
aproximam-se...
e erguendo os olhos para o espelho
incendeiam a linha cronológica
na esperança de que o patriarca se erga.

Vicente Freitas

Sem, saída

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Sonhei com ela, voando. Vi sua silhueta tapando parte da lua,                                          [tal eclipse.
Aterrissou na minha janela: – Você pode voar comigo? – Já estou voando. – Você pode apunhalar o seu coração                                                [por mim? 
– Já apunhalei. – Quer dizer, então, que você é capaz                               [de morrer por mim? – Já morri.
                              *   *   * 
Veja bem, quando o amor chega à sua porta,                                                 [não tem saída:
– Se correr ele te pega; se ficar ele te come.

Vicente Freitas