Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos

O livro reúne duas novelas literárias compostas por homens-bestas, que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida. Em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros.

Os textos, em tom naturalista, retratam a amarga vida de homens que abatem porcos, recolhem o lixo, desentopem o esgoto e quebram o asfalto.

Toda imundície de trabalho que nenhum de nós quer fazer, eles fazem, e sobrevivem disso.

Fica por conta do leitor medir os fardos e contar as bestas.

LEIA DOIS TRECHOS DO LIVRO NO FINAL DA PÁGINA.

Sinopse das novelas que compõem o livro
 
Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos é uma novela escrita em 5 capítulos que narra a saga de dois brutamontes que ganham a vida matando porcos e distribuindo-os em frigoríficos. A única diversão é apostar em rinhas de cachorros.Edgar Wilson e Gerson são dois homens que esperam o mínimo da vida, trabalham muito, cumprem sagradamente suas tarefas e nutrem um pelo outro uma amizade excepcional. O resto importa muito pouco.
O Trabalho Sujo dos Outros é uma novela escrita em 7 capítulos que conta a história de três homens que recolhem o lixo, quebram o asfalto e desentopem esgoto. Quando os coletores de lixo decidem fazer uma greve geral, a cidade começa a sucumbir e Erasmo Wagner inicia uma estranha jornada mística tendo um bode como condutor de um acerto de contas com o seu passado.
O livro reúne duas novelas: Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros. Essas duas novelas compõem a trilogia A SAGA DOS BRUTOS.

Release
 

"Há cenas que a literatura não tolera, mas é preciso entender muito de ficção, de realidade e de representação da realidade para poder escrevê-las."  O Globo
Com dois romances publicados, a carioca Ana Paula Maia se firmou como uma das mais festejadas autoras da nova literatura brasileira e chamou a atenção de críticos e formadores de opinião ao publicar, em 2006, uma novela folhetinesca na Internet, em uma ação pioneira. Durante meses, os leitores acompanharam pela web os 12 capítulos de ENTRE RINHAS DE CACHORRO E PORCOS ABATIDOS, que chega agora às livrarias com novo final. É o primeiro livro publicado originalmente na Internet a ser lançado por uma grande editora.
Com muito sangue, violência e boa literatura, Ana Paula Maia lança o olhar ao outro, com profundos traços de ousadia e peculiaridade, para esmiuçar o cotidiano de homens que lutam para sobreviver em meio à pobreza e a falta de esperança em uma vida melhor. Em silêncio, esses homens-bestas carregam seus fardos e os dos outros.
Neste volume estão reunidas duas novelas. A primeira, que dá nome ao livro, é escrita em cinco capítulos e tem como cenário um subúrbio distante, sob um calor sufocante, onde apostar em rinhas de cachorros assassinos é o divertimento mais saudável para dois brutamontes que ganham a vida abatendo porcos e distribuindo-os em frigoríferos. Edgar Wilson e Gerson esperam o mínimo da vida, trabalham muito, cumprem sagradamente suas tarefas e nutrem um pelo outro uma amizade excepcional. O resto importa muito pouco.
A segunda narrativa,
 O Trabalho Sujo dos Outros, em sete capítulos, conta a história de três homens que recolhem o lixo, quebram o asfalto e desentopem esgoto. Quando os coletores de lixo decidem fazer uma greve geral, a cidade começa a sucumbir e Erasmo Wagner inicia uma estranha jornada mística tendo um bode como condutor de um acerto de contas com o seu passado. O trabalho sujo dos outros chegou a ter quatro capítulos veiculados na Internet com outro título.
Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos já foi apresentado pela autora como um “folhetim pulp”. “Do folhetim traz um grude, um arrebatamento especial, e é pulp no sentido em que o cinema Tarantino ou Takeshi Kitano é pulp. O volume de sangue circulando é de similar nível”, define a crítica literária Beatriz Rezende, que assina a orelha do livro. Sua representação e contestação da realidade tornam a obra uma das mais originais e significativas para o cenário literário atual. As duas novelas fazem parte de uma série chamada "trilogia do homem comum". A terceira novela ainda é inédita.

Orelha do livro
 

Tão jovem quanto ousada, Ana Paula Maia já é presença decisiva em qualquer discussão que pretenda tratar do tema contemporâneo da volta do real ao cenário da literatura brasileira. Realismo excessivo, realismo cru, realismo trágico, seja qual for o enfoque que se dê à questão, na obra de Ana Paula encontraremos material absolutamente original, capaz de provocar uma reflexão crítica estimulante, mas sobretudo um apelo à leitura ininterrupta. Cada cena, cada capítulo parece grudar à pele, deixar marcas, cheiros de que não nos desvencilhamos nem mesmo depois de fechado o livro.
Neste volume estão reunidas duas novelas. A primeira, que dá nome ao livro, já foi apresentada pela autora como um “folhetim pulp”. Do folhetim traz um grude, um arrebatamento especial, e é pulp no sentido em que o cinema Tarantino ou Takeshi Kitano é pulp. O volume de sangue circulando é similar nível. Sob o calor sufocante de um subúrbio distante, onde apostar em rinhas de cachorros assassinos é o divertimento mais saudável de que os homens desfrutar e onde vida humana não vale absolutamente nada, circulam Gerson e Edgar Wilson carregando sonhos ingênuos enquanto estripam algum ser.
Na segunda narrativa, “O trabalho sujo dos outros”, Erasmo Wagner recolhe o lixo numa cidade onde “tudo se transforma em lixo” e a riqueza da sociedade pode ser medida pela sua produção de lixo. O irmão Alandelon quebra asfalto há seis anos e vai ficando surdo pelo som da britadeira que lhe garante o ralo café e o torresmo de cada dia. O terceiro, Edivardes, desentope latrinas, esgotos, canos e todos os lugares para onde escoa a imundice da cidade. Um estranho bode incorpora-se ao elenco. Um dia, homens imersos neste fétido universo percebem que, como disse também Marx, “na sociedade burguesa o trabalho vivo é apenas um meio de multiplicar o trabalho acumulado” e deixam de recolher o lixo. A “cidade torna-se maldita” e pessoas e ratos dividem o mesmo espaço a luz do dia. É então que o realismo doloroso da narrativa nos provoca uma súbita ternura por esses personagens, que como disse o mesmo pensador barbudo, “fazem a riqueza dos homens”.
Beatriz Resende
Bibliografia Ana Paula Maia 

Romances e novelas:
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos / Ana Paula Maia - Editora Record – 2009
A guerra dos bastardos / Ana Paula Maia - Editora Língua geral – 2007
O habitante das falhas subterrâneas / Ana Paula Maia - Editora 7 letras / 2003
Antologias:
25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira / organização Luiz Rufatto - Editora Record, 2004
Sex´n´Bossa - Antologia di narrativa erotica brasiliana / organização Patrizia di Malta - Editora Mondadori - Itália – 2005
Contos sobre tela / organização Marcelo Moutinho - Editora Pinakotheke – 2005
35 segredos para chegar a lugar nenhum / organização Ivana Arruda Leite - Editora Bertrand Brasil – 2007
Blablablogue - crônicas & confissões / organização Nelson de Oliveira - Editora Terracota - 2009
Todas as guerras - Volume 1 (Tempos modernos) / Org. Nelson de Oliveira – Editora Bertrand Brasil - 2009

Trecho do primeiro capítulo - Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos
 

À espera de porcos, Edgar Wilson suspira pela oitava vez nessa sexta-feira quente e abafada. Por seu olhar vago, perdido, parece que não se incomoda em esperar o tempo que for preciso, mas apesar da frieza permanente ele anseia a seu modo. Era o segundo atraso do carregamento em quatro dias e por isso precisaria comunicar ocorrido ao seu patrão.

Havia feito planos para sair mais cedo, ir ao bar do Cristóvão, fazer algumas apostas em Chacal, um cão enjeitado pelo demo, que já havia arrancado a cabeça de Gepeto que tinha o dobro de seu tamanho e encontrar Rosemery, sua noiva. Mas isso não era novidade, pois todas as sextas são iguais e de modo algum Edgar Wilson se importa com a rotina em que vive. Aqui no subúrbio, quente e abafado, esquecido e ignorado, nos fundos de um mercadinho cheirando a barata, não existe desconforto maior do que o carregamento de porcos atrasar e expectativa maior do que vê-los, todos, pendurados por ganchos no frigorífico.

Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova, Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento, que exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos estava sempre alegando precisar dormir na casa da patroa, porque a mesma exigia que a faxina fosse feita bem cedo, nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado E na providência divina, Edgar deposita toda sua fé. “Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem torna um fio de cabelo preto em branco?”, era o que dizia padre Guilhermino Anchieta .

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida.
O distante ronco de um motor lhe faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que reúnem-se ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal.

"Mas você não deu um rim pra sua irmã?"
"Isso foi no ano passado."
"Ãhhh, sei. O carregamento atrasou de novo."
"É a segunda vez essa semana."
"Preciso informar ao patrão."
"Desculpe, Edgar mas esse rim me pegou de jeito."
"É....."
"Eu posso te mandar o Pedro."
"Ele sabe desossar alguma coisa?"
"Só um instante."

Gerson sentindo muitas dores e suando frio ajeita-se no sofá encontrando a posição mais adequada para gritar a pergunta. ”Pedro, você sabe desossar alguma coisa?
Pedro demora alguns instantes e aparece na sala enrolado numa toalha vermelha, segurando uma colher de pau.

"O que você tá fazendo?" pergunta Gerson.
"Um bolo."
"Você foi comprar farinha de trigo?"
"Não. Eu tô usando aquela do pote azul."
"Você esqueceu do que eu te disse, Pedro?"
"O quê?"
"Sobre a farinha do pote azul."

Pedro olha para a colher de pau que segura e lambe o resto do recheio que ameaça cair. Mastiga por uns instantes e logo em seguida suspira. É um recheio delicioso e parece se orgulhar de seu bom trabalho.

"E o que era?" pergunta, após engolir.
"Tá com bicho. Eu mandei você jogar fora."
Pedro coça a cabeça e responde
"Eu peneirei as minhocas."
Gerson não reage à resposta.
"Eu peneirei tudo, verdade mesmo."

Gerson volta-se para a tv que está ligada, Pedro permanece parado segurando a colher de pau e eles riem da gargalhada emitida num programa de culinária. Ele repara o fone na mão de seu irmão.

"Gerson, você me chamou?" diz apontando para o telefone.
"Ah.... você sabe desossar alguma coisa?"

Pedro pensa um pouco.
"Não sei. Não tenho certeza."
"O Edgar quer saber."
"Você quer dizer, separar as tripas, o fígado, o ..."
"A carne do osso...essas coisas."

Pedro pensa mais um pouco. Volta para cozinha sem dizer nada. Retorna em seguida.

"Lembra do cachorro da Matilda, o Tinho?"

Pedro parece um tanto perdido, mas de estalo responde com um aceno positivo da cabeça. A toalha em sua cintura cai no chão. “Essa cueca é minha”, diz Gerson. Pedro não responde e volta à cozinha.

"Edgar, lembra o Tinho, da Matilda?"
"Lembro."
"Foi o Pedro."
"Então avisa a ele que o carregamento já chegou."
"Tá certo."
"E o teu rim? Eu tô falando do bom, daquele que tá lá com a tua irmã."
"Acho que vai bem."
"Você não pensa em pegar de volta. Quer dizer, quando você deu pra ela, não estava precisando, ele não te fazia falta, mas agora é diferente."
"É, eu sei. Parece que ela tá com câncer."
"Então, ela não vai precisar dele por muito tempo."
"Acho que não. Escuta, eu deixei aquele vídeo do Chuck Norris na sua casa?"
"Braddock?"
"O resgate."
"Só estou com o Braddock II. O resgate, esse não tá não."
"Acho que perdi meu vídeo. É um desfalque e tanto na minha coleção."
Silêncio.
"Você vai deixar seu rim jovem e saudável ser comido pelo câncer da tua irmã?"
"Parece que ela vai começar a fazer aquele troço que deixa careca."
"Sei... então a radiação vai matar o teu rim."
"Você acha mesmo?"
"Acho que o teu rim já era."


*    *    *

Pedro permanece agachado nos fundos do mercadinho, acariciando o porco que espera para ser abatido, enquanto Edgar Wilson, debruçado na janela da caminhonete resolve algumas questões pendentes.

"Vou repetir pela décima vez: eu esperava por dois porcos." diz Edgar ao motorista da caminhonete.

"Mas esse porco vale por dois."
"Nada disso. Eu preciso de dois porcos. Esse foi o combinado. Meu patrão não vai gostar nada, nada disso."
"Nós perdemos um dos porcos vindo pra cá. Essa estrada é muito esburacada."
"Como assim perdeu um dos porcos? Um porco não é nenhuma miudeza pra se perder. Não posso me responsabilizar. Eu preciso de dois porcos."
"Eu te trouxe um porco bem grande. Sirva-se dele."
O homem arranca com a caminhonete, deixando Edgar Wilson com poeira nos olhos.


Trecho do primeiro capítulo - O trabalho Sujo dos Outros
 

O lixo está por todo lugar e é de várias espécies: atômico, espacial, especial, hospitalar, industrial, radioativo, orgânico e inorgânico; mas Erasmo Wagner só conhece uma espécie de lixo. Aquele que é jogado pra fora de casa. A imundície, o podre, o azedo e o estragado. O que não presta pra mais ninguém. E serve apenas para os urubus, ratos, cães, e pra gente como ele. Costuma trabalhar no caminhão de lixo parte do dia, com escalas alternadas no turno da noite. Conhece o conteúdo de alguns sacos só pelo cheiro, formato e peso. Já teve tétano. Já teve tuberculose. Já foi mordido por rato e bicado por urubu. Conhece a peste, o espanto e o horror; por isso é ideal para a profissão que exerce.

Revende em casa aquilo que acha em bom estado: Colchão, estrado de cama, vaso sanitário, portas, armários, grades, cofres, cadeiras, canos e o que mais puder ser aproveitado. Lucra metade de seu salário com a venda do lixo.

Não pensa nos miseráveis dos aterros sanitários que também poderiam lucrar com o que há de melhor no lixo. Ele realmente não se importa. Assim, como quem está acima dele, não se importa também. Na escala decrescente de famintos e degenerados, ele ocupa um posto pouco acima dos miseráveis. É como levar um tiro de raspão.

No itinerário de Erasmo Wagner, são recolhidas mais de vinte toneladas de lixo por dia. A riqueza de uma sociedade pode ser medida pela sua produção de lixo. Vinte toneladas num itinerário consideravelmente pequeno, o faz pensar no tanto que se gasta. No tanto que se transforma em lixo. Mas tudo vira lixo, inclusive ele é um lixo para muitas pessoas, até para os ratos e urubus que insistem em atacá-lo. Mas não liga, esses agem por instinto. Sentem seu cheiro podre e avançam. Os outros, seus semelhantes, não avançam, eles recuam para longe. Como fazem com os detritos que jogam pra fora de casa, os restos contaminados. O seu cheiro afasta as pessoas para bem longe.

Sua vida não é um lixo. Sua vida é muito lixo. Seu olfato está impregnado com o aroma do podre. Seu cheiro é azedo, suas unhas imundas e sua barba crespa e falhada é suja. Ninguém gosta muito de Erasmo Wagner. Dão meia-volta quando está trabalhando e ele prefere assim. Prefere os urubus, os ratos e a imundície, porque isso ele conhece. Isso o sustenta. As pessoas em geral, lhe dão náusea e muita vontade de vomitar.
Sua namorada, a Suzete, não se importa. Suzete é faxineira de banheiro público. Ela cheira a mijo, bosta e pinho.

"Como assim estenderam o itinerário?" grita Erasmo Wagner ensopado de chuva para o motorista do caminhão.

"A gente tem que cobrir mais dois quarteirões" responde o homem.
"Mas por quê?"
"O outro caminhão quebrou no meio da coleta. A gente precisa terminar o serviço deles."

Erasmo Wagner não gosta de fazer o trabalho sujo dos outros. Joga mais dois sacos na caçamba do caminhão, aciona o compactador de lixo e em seguida sobe no estribo do caminhão agarrando-se a uma barra de ferro. Ele já está bem acostumado a se segurar ali. De pé, mesmo em curvas fechadas, consegue cochilar.

"A gente recolhe o lixo extra, mas não vai receber mais por isso, né?" pergunta Valtair, o trabalhador novato.
"Pode apostar que não. A gente tinha que ganhar por tonelada que recolhe. E o pior é que sempre tem um lixo extra."
O caminhão barulhento pára a cinco quadras dali e iniciam a coleta do lixo extra.
"Não gosto de rua de gente rica" diz Erasmo Wagner. "Tem muito mais lixo."
"Eles têm mais dinheiro pra gastar, é isso" responde Valtair.

A chuva engrossou nos últimos minutos. O tempo escureceu. No meio da tarde, eles avistam trevas. Vestem uma capa preta de plástico. Parecem mercadores da morte recolhendo sacos pretos e despejando conteúdos nojentos de latões de lixo direto no compactador de lixo, ou como eles chamam, na boca da “esmagadora”.

"Dinheiro sempre vira lixo. Lixo e bosta" diz Erasmo Wagner. "Meu primo Edivardes trabalha desentupindo esgoto. Isso sim é um trabalho de merda. Você precisa ver o esgoto das áreas mais ricas. É uma bosta densa, ele diz."

Erasmo Wagner corre para apanhar um saco de lixo grande que caiu na rua. Chuta um vira-lata que abocanhou uma cabeça de galinha. O bicho foge grunhindo sem largar o pedaço de carne podre. Joga o saco na caçamba do caminhão.

"Bosta pesada?" pergunta Valtair rolando um latão.
"Isso. É merda concentrada. Comida boa faz isso. Merda de pobre é rala e aguada. O Edivardes conhece a pessoa pela merda que produz. Ninguém engana ele não. Ele sabe das coisas."

Eles correm de um lado para o outro recolhendo sacos grandes e pequenos. Disputam a chutes com os cachorros, o lixo que precisam recolher, e a tapas, com os mendigos que buscam o que comer. Valtair espera que um mendigo termine de vasculhar um dos sacos de lixo. Erasmo Wagner puxa o saco e joga no caminhão. Valtair sente-se desolado.

"Daqui a uma semana, você vai tratar todo mundo igual. Cachorros e mendigos" diz Erasmo Wagner. "O cheiro podre faz isso. Daqui a um tempo você só vai sentir esse cheiro”.

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