Porque não podemos simplesmente nos formatar?

Irina Sopas 
Recentemente apercebi-me que por mais lembranças que tenhamos sempre nos remontamos às recordações mais tristes ou que nos fazem sofrer. Algumas recordações conseguem nos transportar para lugares onde estivemos no passado, coisas que vivemos, e por vezes conseguimos acordar lembranças adormecidas. Infelizmente a memória não se apresenta ao nosso bel prazer, por conseguinte vamos tentar compreender um pouco mais sobre o seu conceito e a sua forma de funcionamento e o que a ciência reserva para o futuro.

O conceito de memória pode ser confuso e complexo variando com a especialidade a ser aplicado, desta forma vamos analisar este termo inicialmente em lato sensu.


A palavra memória vem do latim memoria, “lembrança”, “recordação”, “reminiscência”, é a faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente. É a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis no cerebro. Tem como foco coisas particularizadas, necessitando de grande energia mental além de se deteriorar com a idade. De acordo com estudiosos a memoria é o principio do conhecimento, portanto deve ser treinada e estimulada, com objetivo de formar novas ideias, acumular experiencias que utilizamos para significar o cotidiano, nos permitindo tomar decisões diarias.

Existem basicamente dois tipos de memoria: a declarativa, que se subdivide em memória imediata, de curto prazo e de longo prazo. Por outro lado temos a memória de procedimentos. Esta última seria a capacidade que temos de conservar e processar informações que não podem ser verbalizadas. É o tipo de memória com maior estabilidade e que apresenta menos grau de detrimento. Um exemplo típico desse tipo de memória é quando aprendemos a andar de bicicleta, mesmo se ficarmos anos e anos sem andar, não perdemos da lembrança. Tudo bem que até andarmos em linha reta de novo estamos susceptíveis a alguns tombos, mas a verdade nua e crua é que uma vez aprendido não esquecemos.

Esclarecendo um pouco as subdivisões da memória declarativa, a memória imediata é aquela que tem duração de frações de segundos, como a repetição do numero de telefone imediatamente após de ser ouvido. Este acontecimento é esquecido depois de um determinado tempo, na medida em que este tipo de memória tem limite na sua duração e pouco “espaço” de armazenamento. Porém, não vamos confundir com a memória de curto prazo que retendo algumas informações, demora algumas horas, e por isso somos capazes de nos lembrar o que vestimos no dia anterior (não vale ficar dois dias seguidos com a mesma roupa).

Chegamos agora à memória de longo prazo, a que pode nos causar tormento ou alegria, pois além de ter duração de meses, anos ou ilimitada, também tem capacidade de armazenamento sem fim. É aqui que se encontram as lembranças da nossa infância, o que aprendemos na escola ou a morte de um ente querido. Nesta memória residem lembranças boas e ruins, algumas que gostaríamos de guardar para todo o sempre e outras preferíamos esquecer ou simplesmente apagar.

Bom, eu não sei quanto a vocês, e pode até soar engraçado, mas confesso que já pensei varias vezes que gostaria de me formatar. Sim isso mesmo, como se fosse um computador, deletar da memória tudo o que é desagradável, embora eu até ficasse feliz em organizar a minha memória em pastas e simplesmente utilizar o sistema de arquivo oculto. Você já parou para pensar nisso? Porque não podemos simplesmente nos formatar?

Um pouco de esperança: cientistas através de testes realizados em ratos (para variar) comprovaram que é possível fazer com que o cérebro apague da memória lembranças indesejáveis. E sabem o que é melhor? Os ratos que receberam a injeção no cérebro na parte responsável pela memória, com fim de apagar o que haviam aprendido, foram capazes de aprender novamente, mostrando que este procedimento não causa problema algum a memória.

Agora pense... Não seria maravilhoso apagar da memória uma despedida triste? O fim de um relacionamento fracassado? A morte de alguém? Apagar de vez um comportamento corrompido que não é aceito na nossa sociedade como um vicio? Uma traição? Se fosse possível, você estaria disposto/a a receber injeções no cérebro para tal? Pois bem, os cientistas garantem que os resultados obtidos com os testes, podem ser semelhantes nos humanos.


Assim sendo, se você respondeu de forma positiva a ultima pergunta, inicie a sua lista e anote os momentos que você apagaria da sua memória, antes que isso não se transforme numa vaga lembrança. Eu já iniciei a minha, mas aprofundando o meu pensamento, questionei a minha pessoa: será que eu seria mais feliz apagando da minha memória as más recordações? Isso não seria uma fuga da realidade? Essas lembranças realmente afetam tanto o meu dia a dia, ou de contrario enobrecem a minha vida? Por enquanto, decidi rasgar a lista. Não quero cometer os mesmos erros do passado, apagando experiências de vida, que a minha memória insiste em guardar como inesquecíveis. E quanto a você?



Irina Sopas

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IRINA SOPAS é o nome artístico de Irina Andrea Jacinto Sopas, nascida em 18.09.1984, em Luanda. Transferiu-se para o Brasil em 1999. Atualmente, reside no Rio de Janeiro. Cursa faculdade de Direito, pela UCAM, Universidade Cândido Mendes. Escreve poesia, crônica, artigo e ensaio. Participou da Antologia de Poetas Brasileiros – Volume 56 –Junho de 2009, organizada pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Tem trabalhos publicados na Internet, como no site “Amo Leblon”, editado por Luiz Aviz, do qual é colunista (www.amoleblon.com.br); "Club-k-Angola", editado no Brasil por Nelo de Carvalho (http://club-k-angola.com/); "Blocos", de Urhacy Faustino e Leila Míccolis  (www.blocosonline.com.br); bric-à-brac, de Vicente Freitas (http://vicentefreitas.blogspot.com). Edita desde 2009 o blog http://irinasopas.blogspot.com/. Sua "I Coletânea de Poemas” (nome provisório), que marcará sua estreia em livro, já recebeu avaliações positivas de escritores veteranos, como: Mano Melo e Ricardo Alfaya. Atualmente tem o seu primeiro romance em fase de produção, que se passa no Brasil (Rio de Janeiro) e relata a história de "Bia", uma advogada de 27 anos, que mora sozinha, é drunkholic e acredita ser uma vítima da Lei de Murphy. Leia, comente, participe! 

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